TERRA DEU, TERRA COME

Pedro de Almeida, de 81 anos, é o que a arrogância urbanóide gosta de chamar de homem simples, talvez no sentido de simplório, incapaz de alguma sofisticação. Ele é o personagem principal do documentário “Terra deu, terra come”, de Rodrigo Siqueira, e, durante 88 minutos, vemos a nossa frente uma das figuras mais interessantes do cinema nacional recente, contrariando o diagnóstico apressado. Pedro, conhecido também como de Aleixo, prepara o funeral de seu amigo João Batista, que morreu com a idade de 120 anos.

O filme começa com Pedro comentando, em um incorreto -há correto?- e belíssimo português, que os jovens não querem mais ouvir o que os velhos dizem. Pedro sabe que é guardião de um tesouro: o vissungo, cantiga fúnebre do dialeto banguela que vai se perdendo conforme  morrem aqueles que o conhecem. Dessa forma, o documentário tem a missão de documentar extamente essa espécie rara de manifestação cultural, à beira da extinção.

Acompanhamos todo o processo, desde os momentos finais de João até o momento após o enterro. Pedro aparece como um garimpeiro que já teve muita sorte na vida, conseguiu muito dinheiro, perdeu tudo, matou o genro, e hoje vive em aparente paz com seus parentes e amigos, na região mineira do quilombo Quartel do Indaiá. A raiz mineira do filme é fundamental, pois a ideia da obra surgiu a Siqueira exatamente das raízes do mais mineiro dos escritores brasileiros -e, não paradoxalmente, o mais universal dos escritores nacionais: Guimarães Rosa. Quando Pedro diz, logo no começo, “nonada”, a palavra que inicia “Grande sertão: veredas”, é impossível não sentir a emoção de se estar presenciando literatura viva.

“Terra deu, terra come” é, por isso mesmo, um documento sobre a linguagem. Por um lado, temos Pedro e todos que o cercam, com seu português inicialmente ininiteligível -traduzido por providenciais legendas-, mas, que, aos poucos, torna-se inteligível por nós, urbanóides, que nos maravilhamos com a musicalidade presente; de outro, o próprio Siqueira aparece no filme destilando o mais puro mineirês. Há, também, uma investigação da linguagem cinematográfica que é impressionante, pois o diretor não se furta a usar movimentos e truques de câmera para retratar momentos de delírio em que Pedro veste uma máscara e parece estar sob o domínio de um espírito. Por fim, há um artifício sensacional, só revelado ao final, que coloca em questão as velhas e corroídas fronteiras entre ficção e realidade. Siqueira -elogiado por Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, justamente documentaristas que têm experimentado muito com a linguagem- não coloca a discussão sobre essa fronteira, mas sim busca no artifício um caminho para desvendar a realidade, seja lá o que for isso. Rodrigo merece todos os elogios pelo seu filme de estréia.

“Terra deu, terra come” chegou mineirim aos cinemas, com pouquíssimas cópias. Não deve durar muito em circuito comercial, não por ausência de qualidade, mas pelos habituais problemas de distribuição. O documentário tem sido um alento à dualidade que governa a ficção cinematográfica brasileira, que patina entre o filme social-realista e o filme sorvete na testa. Dentro da força do documentário nacional, “Terra deu, terra come” é dos mais fortes. Ganhou o prêmio no festival de documentários “É tudo verdade” e, recentemente, papou o prêmio no Festival de Leipzig, um dos mais importantes do mundo no gênero. Resta esperar que a posteridade dê a essa obra o lugar que ela merece.

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