WALL STREET – O DINHEIRO NUNCA DORME

A melhor coisa de “Wall Street – O dinheiro nunca dorme” -novo filme de Oliver Stone- é a trilha sonora, feita por David Byrne, cuja banda Talking Heads era amada pelos yuppies da década de 1980, ao mesmo em que fazia uma fina ironia com aquele período de enriquecimento insano e decadência moral. Pena que a referência torne-se óbvia no final, quando o Talking Heads oitentista vem substituir o contemporâneo Byrne. “Wall Street” é um filme que dialoga o tempo inteiro com seu homônimo da década de 1980, que contava a história de um tubarão do mundo financeiro, Gordon Gekko -Michael Douglas, que levou o Oscar pelo papel-, que acaba traído por seu protegé -Charlie Sheen, então  nome mais quente de Hollywood. O filme começa justamente com Gekko saindo da cadeia. Daí pra frente, segue-se uma trama instável.

O jovem Jake Moore -Shia LaBouef, dramático como um Transformer- está em ascenção no mercado financeiro pré-crise de 2008, quando seu mentor é vítima de uma armação, e acaba se suicidando. Moore começa a arquitetar a vingança contra o culpado da tramóia, Brett James -James Brolin, que já foi o George Bush de Stone. Moore é namorado de Winnie Gekko -a bela Carey Mulligan-, filha de Gordon. Nada mais natural do que pedir a ajuda do paizão, odiado pela filha, para seu plano de vingança. Em torno disso, corre uma subtrama ambiental, na qual Moore tenta de todo modo financiar uma pesquisa acadêmica com grandes chances de render frutos no campo da energia renovável. O jovem tubarão das finanças é um idealista. A trama é, portanto, o duplo movimento de vingança de Moore contra Brett, e da aproximação de Gordon e Winnie. A história derrapa nessas duas frentes.

Na batalha financeira, a coisa parece que vai engrenar quando chega a grande crise de 2008. Há passagens interessantes, como aquela em que os representantes dos grandes bancos chantageiam o banco central norte-americano, argumentando que a falência deles seria o fim do sistema financeiro. Mas a história não rende, pois é demais atrapalhada, didática onde não deve ser, obscura onde deveria explicar, e ainda permeada pela subtrama ambiental.

A trama familiar vai bem, inclusive com a já esperada sacanagem do velho tubarão Gekko, que causa irritantes momentos emotivos. De qualquer forma, parece que Gekko joga pela privada sua segunda chance, apenas para ter o gosto de voltar a ser alguém no mundo das finanças. Ledo engano. O Oliver Stone que antes não fazia concessões abre aqui espaço para a conciliação final. Péssimo.

Não dá para falar desse filme sem falar do “Wall Street” da década de 1980. O anterior conseguiu ser o retrato perfeito de um momento cheio de homens inescrupulosos, capazes de qualquer coisa pelo poder. Ali, a traição contra Gekko não ocorre por causa de algum idealismo, mas sim porque o personagem de Charlie Sheen se depara com a possibilidade de arrasar ou salvar seu pai e seus amigos, todos trabalhando em uma companhia comprada por Gekko. É humanismo, mas não pela humanidade, e sim pelo interesse próprio. Já o “Wall Street” da década de 2000 derrapa no maniqueísmo, pois, se aponta o lado podre do dinheiro, mostra que há um lado bom. O que era cinismo antes, aqui se transforma em idealismo barato. Moore não quer apenas massacrar seu oponente, juntar sua mulher e seu sogro: ele quer salvar a humanidade!

Cinematograficamente falando, o filme também não vai bem. Stone usa cortes saídos de objetos em cena, como telas de computador e janelas. Essas divisões súbitas da cena já foram muito melhor feitas por Ang Lee no subestimado “Hulk”. Além disso, há uma insistência de Stone em aparecer em cena que é irritante. O.K, ele deve aparecer, no total, por um minuto e meio. Mas, diabos, por que? Será que é porque Alfred Hitchcock o fazia? Mas as aparições de Hitchcock tinham uma finalidade quase irônica, e se resumiam a cenas de passagem. Parece que Stone, quando o faz, quer demonstrar que ele concorda com tudo o que diz o filme. Stone deixou de ser cineasta para ser militante. Uma pena: ele está em franca queda nas bolsas cinematográficas.

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Um Comentário

  1. Fred, era pra eu estar estudando, mas estou tão exausta que precisava de um recreio… então, vi Wall Street este fim de semana e também fiquei decepcionada… o primeiro era de fato bem melhor. O final desse segundo, pelamordedeus, né? Que é que é aquilo? E ainda termina, como vc disse, exatamente com a mesma música do primeiro, qual é? Voltamos pra estaca zero? Todos felizes com Gordon Gekko? O Oliver Stone perdeu o jeito, acho que por ter virado militante mesmo, como vc falou.
    A única coisa que achei boa foi a atuação do Michael Douglas. Ele é ótimo como canalha, são os melhores momentos do filme. Ainda está por vir, então, o filme que vai dar conta dos primeiros anos da crise que ainda não acabou, é sempre bom lembrar…


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