MAUS, DE ART SPIEGELMAN

O holocausto foi provavelmente a mais desumana de todas as experiências. Ainda assim, tem sido retratado pelo mais humano dos atos: as artes. Cinema, literatura, fotografia, pintura. O desenhista -cartunista? escritor?- norte-americano Art Spiegelman, com “Maus”, cometeu a heresia de incluir as histórias em quadrinhos nesse rol das artes que abordaram o holocausto. Heresia porque muitos não viam as histórias em quadrinhos com a devida seriedade, apesar de toda a acidez das criações de contracultura de artistas como Robert Crumb. Spiegelman não só calou esses críticos como colocou as histórias em quadrinhos de vez no main stream cultural norte-americano e mundial, ao ganhar o prestigioso prêmio Pulitzer com essa obra.

“Maus” pode ser descrito como uma biografia autobiográfica metalinguística, pois Spiegelman, ao mesmo tempo em que conta a passagem de sua família pelos horrores nazistas, faz uma espécie de reavaliação de sua própria vida e escancara as entranhas do fazer artístico. Por isso aquela descrição tão cheia de pompa.

A obra começa justamente com Spiegelman pedindo a seu pai que colabore em um projeto que consiste em recontar a passagem dele e de sua família pelo nazismo. Vladek, o pai neurótico, hesita, mas acaba por colaborar com o filho, contando a história. Dividido em dois, a primeira parte de “Maus” chama-se justamente My father bleeds history – meu pai sangra história. Retratando judeus como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos, franceses como sapos e norte-americanos como cachorros, Spiegelman vai contando não só a história de seu pai, mas a história de como seu pai vive e lhe conta o passado. Ao mesmo tempo, ele mesmo, Spiegelman, vai enfrentando os fantasmas de seu passado, como a mãe suicida e o irmão que nunca conheceu e que padeceu sob os horrores nazistas -e sob cuja sombra parece viver. Retrato de um artista enquanto rato

O segundo livro, no qual Vladek relata sua passagem pelos campos de concentração, é justamente dedicado a Richieu, esse irmão cuja ausência é uma presença constante para Spiegelman. O segundo livro começa de forma magistral, pois o primeiro volume já havia sido lançado e alcançado sucesso. Começa, então, com Spiegelman se questionando sobre a ética de fazer sucesso com uma história tão terrível.

Os personagens não tem grandes expressões que os diferenciem. Não há manejos de boca ou de face, apenas leves mudanças de olhares. Isso não significa um desenho pobre. Muito pelo contrário, há uma riqueza de detalhes que exige atenção a cada quadro desenhado. A aparente falta de detalhes de aparência serve apenas para escancarar o horror dos ratos -perdão, judeus- quando gritam, quando sofrem. Aí, Spiegelman desenha escancaradas bocas de dor, de sofrimento, imagens terríveis.

A ausência de expressões não serve apenas para ressaltar a dor quando essa aparece. Serve tambem para destacar o caráter coletivo de toda aquela experiência passada, pois, ainda que todos tenham nomes ou descrições, são todos iminentemente iguais em suas “animalidades”. Ainda assim, o livro consegue ir além de mostrar de que forma cada indivíduo experimentou aquele momento. Vladek, por exemplo, aparece como um sujeito claramente traumatizado, cheio de mesquinharias adquiridas naquele tempo de caristia, e capaz mesmo de se mostrar racista. A mãe de Spiegelman sobreviveu ao holocausto apenas para se suicidar anos depois. Já outros judeus -er, ratos- aparecem no livro trazendo resultados diversos de uma mesma experiência comum.

Ao fim, “Maus” mostra-se uma obra de arte exatamente por entender que o holocausto foi mesmo um grande trauma coletivo, mas vivido diferentemente por cada pessoa; por mostrar que a dor não termina no momento em que cessa de ser infligida, mas sim prolonga-se no tempo, até sobre outros; por escancarar as entranhas do fazer artístico, ainda mais um cuja matéria prima é tão autobiográfica e tão forte. “Maus” consegue superar esse verdadeiro subtema das artes -o holocausto- e contar uma grande história, e não apenas uma história do nazismo. Spiegelman deu às histórias em quadrinhos um status que há muito lhes era devido: o status de arte.

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