TUDO PODE DAR CERTO

“Tudo pode dar certo” dá uma impressão inicial de ser como um daqueles filmes do Woody Allen dos velhos tempos, mas essa impressão é falsa.

O filme é ótimo ao narrar a história de Boris Yellnikof (o comediante Larry David), um ex- físico que já esteve às portas de ganhar um prêmio Nobel. Um dia, Boris, que se pretende o sujeito mais inteligente da região e capaz de perceber toda a mediocridade humana, topa com a bela e burra Melodie Saint Ann Celestine (Evan Rachel Wood), uma sulista caipiraça que fugiu de casa e buscava abrigo da chuva na porta de Boris. Contra todas as probabilidades, o físico dá um teto à Celestine, que retribui com trabalhos domésticos. Ela parece ser inócua à série interminável de ofensas e de pessimismo que Boris lhe dirige. Tão inócua que eles se apaixonam e se casam. E aqui, quando parecia que Allen ficaria previsível, ele escapa das garras do passado.

Pela forma como Boris trata Celestine, constantemente dando ensinamentos intelectuais a ela, parece que vamos ter uma repetição do excelente “Annie Hall”, no qual um sujeito também inteligente -interpretado pelo diretor- topa com essa garota linda e sonsa -Diane Keaton- e começa a moldá-la de acordo com suas preferências intelectuais, até que ela, de certa forma, torna-se ele e o larga. Mas aqui isso não acontece. Celestine continua uma ameba, mas uma graciosa ameba. E essa não é a única mudança em relação aos filmes mais intelectuais de Allen.

Os personagens nos filmes de Allen são pessoas em crise e que destilam auto-ironia. Boris não está em crise -ele, ex-físico e suicida fracassado, é um sujeito que simplesmente desistiu de viver uma vida intelectual intensa, ainda que busque sempre travar diálogos para lá de complicados e ache que ser inteligente é insultar sua pequena constelação de medíocres alunos de xadrez. Também não é o sujeito irônico dos filmes anteriores, mas sim um pessimista, um sujeito que vê o horror do mundo -the horror! the horror!, como diria o coronel Kurtz. As risadas não são pela auto-ironia, ou por tiradas inteligentes, mas sim porque Boris demonstra uma espécie de ódio profundo a esse mundo que vai se destruindo a sua volta. Por isso, ele é um personagem novo na galeria memorável de Allen, pois não busca uma superação da crise -ele é a crise.

Ainda assim, Boris tem uma espécie de fé no acaso. Dai o título em inglês: “Whatever works”. E ele se deixa mesmo levar por essa espécie de acaso, fazendo em sua trajetória não um monte de diálogos, mas sim longos monólogos, pois ou as pessoas não tem saco para conversar com ele ou elas não estão a altura para tal, como seus alunos de xadrez ou Celestine. E é provável que Boris queira assim mesmo, não ser desafiado, apenas destilar seu pessimismo. Por isso o fracasso da relação com sua ex-esposa, essa sim uma intelectual.

Allen dá também um tiro de bazuca na América Profunda com Celestine e sua família, composta por uma mãe religiosa fanática -Patricia Clarkson-, que se torna uma artista liberal depois de seu horror inicial a0 contato com Manhattan, e um pai também conservador e que trocou a esposa pela melhor amiga dessa -Ed Begley Jr.-: ele também sofrerá uma radical transformação em Manhattan. Mais do que uma crítica engraçada sobre o conservadorismo norte-americano, presente em muitos filmes de Allen, ele agora parece investir com raiva contra o obscurantismo que toma parte de seu país. Não é mais o Allen virulento, mas sim o Allen violento, que pode até tentar esconder seus ataques sob o manto do escracho, mas que é muito incisivo nesses ataques.

O final é bizarramente feliz, com Boris, esse eterno pessimista, demonstrando um estranho otimismo justamente na aceitação do destino. É até engraçado ver um homem tão racional aceitando dessa forma o tal destino, acreditando em algo como uma coincidência cósmica que une as pessoas. Ao fim, Boris continua achando que ele e só ele enxerga o mundo em sua totalidade -o que é ressaltado pelo fato de que só ele vê a platéia quando fala diretamente para a câmera-, mas nos parece um pouco mais humano, um pouco mais vulnerável.

Depois de sua bem sucedida aventura européia -Match Point, Scoop, Vicky Cristina Barcelona- Woody Allen volta a sua Manhattan com fome de cinema. Ganhamos nós.

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