AS MELHORES COISAS DO MUNDO

Eu xingo muito o cinema brasileiro quando esse insiste em histórias rasas, personagens fracos e situações caricatas. Por isso, “As melhores coisas do mundo”, de Laís Bodanzky, é digno de elogios, pois consegue fugir a certa mediocridade vigente no cinema nacional, notadamente no campo do roteiro.

A diretora -com uma sólida lista de bons serviços prestados ao cinema nacional, com obras como “Um céu de estrelas” e “Bicho-de-sete-cabeças”- faz um filme sobre adolescentes, mas não só para adolescentes. Laís consegue escapar da armadilha de achar que só porque os problemas juvenis por vezes sejam para lá de superficiais, o tratamento artístico dado a eles também precisa ser superficial. Assim, “As melhores coisas do mundo” surge como um espécie de anti-“Malhação”, a longeva novela adolescente da Rede Globo que pode falar sobre qualquer coisa, menos sobre o cotidiano de um adolescente normal.

A sacada de Laís é ter no núcleo central apenas atores amadores, que são devidamente rodeados de bons nomes, como Denise Fraga, Caio Blat, Zé Carlos Machado e um surpreendente Paulinho Vilhena. Ainda que os jovens e inexperientes atores tenham passado pela máquina de moer talentos de Fátima Toledo, eles conseguiram sair com o frescor típico dessa fase da vida, o que se reflete principalmente na linguagem do filme e em como ela não soa em nenhum momento artificial na boca de dos adolescentes.

O filme foi livremente baseado no livro “Manos”, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, e foca na história do jovem Hermano -Francisco Miguez-, que vê seu confortável mundo virar de cabeça para baixo com a separação dos pais. De um dos mais típicos problemas adolescentes, Laís consegue extrair uma série de situações.

Assim, aos problemas típicos da adolescência, como a citada separação, vão se juntar outros mais, digamos modernos, como a questão do preconceito sexual, o agora tão falado bullying, e até uma observação pontual mas fundamental de como essa geração se relaciona com a tecnologia, incessantemente presos a seus celulares e escravos de uma fofoqueira virtual.

O mundo de Hermano vai ruindo. Primeiro a separação, depois uma revelação sobre o pai, depois o preconceito na escola, o fim do relacionamento e a depressão do irmão. Vemos um Hermano que entra garoto e sai ainda garoto de todo esse imbróglio, mas inegavelmente um pouquinho mais perto da maturidade.

Curioso é observar como Hermano lida muito melhor -ainda que de maneira visceral- com toda essa epopéia de problemas do que seu irmão -o novo galã adolescente Fiuk-, que parecia muito mais aparelhado para enfrentar situações-limites com seu relacionamento sério e seu blog pseudo poético. No final, é o irmão quem tenta a saída mais fácil, enquanto Hermano dá a volta por cima, sacode a poeira e enfrenta de peito aberto seus problemas.

Já li algumas queixas sobre o fato de o filme abordar um mundo muito restrito -o ambiente escolar da classe média paulistana. Faltaria, segundo essa crítica, um embate com a realidade. A realidade, esse fetiche atual do cinema nacional. Essa crítica não percebe que esse filme não faz esse enfrentamento porque não se propõe mesmo a fazer. Não é essa a ambição da obra, ela não está lá para explicar qualquer problema social que seja, mas sim para jogar luz sobre um determinado grupo de jovens e uma determinada situação. Dentro dessa ambição, o filme é plenamente bem sucedido.

“As melhores coisas do mundo”, portanto, serve tanto para aquele grupo de adolescentes se sentir retratado nas telas, quanto para os já nem tão jovens sentirem uma ponta de nostalgia de um passado nem tão distante. Serve mesmo para os muitas vezes cegos pais terem uma visão melhor do que seus filhos estão passando, vivendo. É um filme digno, que merece ser visto exatamente na medida de sua ambição de retrato momentâneo de uma geração. Nada menos, nada mais.

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