LADY MACBETH DO DISTRITO DE MTZENSK

Qualquer pessoa que goste minimamente de literatura tem que erguer as mãos para o céu e agradecer o que editoras como a 34 e a Cosac&Naify tem feito pelo ramo russo dessa arte. As contribuições vão muito além da mera publicação de clássicos como “Anna Kariênina”, de Liev Tolstoi, ou de “Crime e castigo”, de Dostoiévski, agora em traduções diretas do russo feitas por gente de competência inquestionável e complementos críticos que apenas acrescentam às obras. Essas duas editoras, notadamente a 34, tem se esmerado na publicação de obras desconhecidas de escritores famosos -por exemplo, “Ássia”, de Turgueniêv- ou autores desconhecidos até então do público brasileiro -categoria na qual se encaixa esse “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Nikolai Leskov, publicado pela 34.

Leskov foi contemporâneo dos grandes escritores russos, como Dostoiévski e Tolstoi, e, aos poucos, vai alcançando seu lugar no cânone da literatura russa, posição essa já reconhecida há décadas pelo filósofo alemão Walter Benjamin, que nele se baseou para escrever o ensaio “O narrador”. Lendo a obra aqui em foco percebe-se a genialidade de Leskov.

Ao contrário dos volumes geralmente caudalosos de seus citados contemporâneos, Leskov constrói sua tragédia em míseras e intensas 76 páginas, demonstrando exatamente aquela excelência narrativa que Benjamin nele reconheceu.

Catierina Lvovna é a Lady Macbeth, assim chamada pelos habitantes do distrito de Mtzensk por causa dos terríveis episódios em que se envolveu. Presa a um casamento infeliz com o fazendeiro e comerciante Zinóvi Boríssitch e dividindo a tediosa existência na casa com o sogro  Bóris, Catierina acaba por se envolver com o camponês Serguiêi, conhecido conquistador da região. Quando o marido se ausenta em uma de suas viagens de negócio, Catierina acaba cedendo aos encantos de Serguiêi. Quando seu sogro descobre o caso, a tragédia começa a se desenhar com uma série de crimes praticados para esconder e manter o caso de Catierina.

Lady Macbeth é a personagem de Willian Shakespeare que manipula seu marido afim de torná-lo rei, ou seja, incentiva-o a fazer as coisas mais grotescas por ambição. É por essa manipulação da figura masculina que as pessoas do distrito associam Catierina à Lady Macbeth, pois a primeira também vai manipulando Seguiei para conseguir seus objetivos. Os meios são os mesmo, mas os fins não são iguais. Paradoxalmente, o objeto de manipulação é o objeto de desejo. Tudo que Catierina quer é manter Serguiei perto de si, é o amor desse camponês. Para isso, ela o faz matar, e também mata.

Mesmo quando a questão econômica entra em jogo, ou seja, quando o crime ocorre com o fim de colocar o camponês Serguiei na condição de proprietário, o que motiva não é fazer o camponês enriquecer, mas sim conseguir que ele tenha a condição econômica e social para estar com Catierina publicamente. Catierina é, assim, uma mulher que desperta de um longo torpor de um casamento infeliz para uma espécie de transe fatal com o amor intenso nunca experimentado. Essa mulher criada por Leskov é trágica pois não parece haver outra saída para o torpor que não o que se seguiu.

No decorrer da história, Catierina é cada vez mais fria na busca de seu objetivo, enquanto o seguro Serguiêi vai se tornando cada vez mais perdido nas artimanhas da amante. Mesmo depois de descobertos e condenados, Catierina mantém sua postura aparentemente fria. Não é que seja fria, mas sim que ela é tão envolvida por seu desejo que nada mais importa. Estar presa não é pena, pois ela está presa com Serguiêi, a quem faz clandestinas visitas noturnas a custo de subornos aos guardas. 

Quando Serguiêi começa a sair da prostração mental em que o caso o colocou e volta a ser o rapaz altivo e conquistador que era, Catierina começa a tomar noção do horror que praticou. O fim encerra uma tragédia terrível, mas da qual parece não haver escapatória.

Em sua narração enxuta, Leskov conta essa espécie de história em arco de uma mulher em estado de hibernação sentimental, mas que não consegue lidar com a intensidade dos desejos que lhe são despertados. Catierina é uma mulher que quer amar, mas que não sabe, é uma espécie de deficiente dos sentimentos a quem é dada o rápido privilégio de experimentar uma paixão, o que ela não consegue fazer de outra maneira que não seja essa trágica.

Não há julgamentos morais no livro. A população condena a frieza de Catierina e perdoa a submissão de Serguiei, mas nós sabemos o porque dessa situação e nós podemos perdoá-la. Quando presa, a melhor companheira de Catierina não será a bela adolescente, mas a mulher que com todos se deita. A narrativa incisiva e despida de qualquer excesso só vem acrescentar eletricidade nessa pequena obra prima. A urgência dos fatos dá o tom da história.

É um tanto quanto raro ler um livro tão diminuto em páginas, mas tão intenso em sentimento, como esse. Fica então o desejo, que provavelmente se cumprirá, de que outras obras de Leskov ganhem edições no Brasil.

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