O SEGREDO DOS SEUS OLHOS

O argentino Juan José Campanella tem uma sólida carreira de diretor de seriados nos Estados Unidos. Dirigiu capítulos de “House M.D.”, “Law and Order: Special Victims Unit” e “30 rock”, não por acaso todas séries que se destacam pela inventividade narrativa. O novo filme de Campanella, “O segredo de seus olhos”, é exatamente isso: um triunfo narrativo.

O diretor argentino ganhou fama com seu doce-amargo “O filho da noiva”, prosseguindo com “O clube da lua”. Seu cinema sempre foi convencional tanto na narrativa quanto na estética. Agora, Campanella faz um exercício narrativo audacioso, a partir de uma premissa para lá de simplória: anos depois, o aposentado Benjamín Esposito -Ricardo Darín, ator fetiche de Campanella- escreve um livro sobre o caso Morales, o brutal estupro e assassinato de uma jovem professora. Em volta desse núcleo, Campanella desenvolve uma história que se desdobra em várias frentes que passam pela memória, ditadura argentina, amizade, covardia amorosa, vingança. Como disse um amigo meu, o bom filme policial é aquele no qual o crime é apenas um pretexto.

Esposito é, na verdade, um personagem paralisado no tempo após o caso Morales, tanto pelos efeitos que nele teve a investigação quanto pela questão do sentimento reprimido por Irene Mendez Hastings -a belíssima Soledad Villamil-, sua chefe na investigação. Escrever aquela história é acertar os ponteiros com esse passado que não o deixa ir para frente, é escavar os detalhes do que passou para encontrar o muro no qual ele se deteve. O filme avança, assim, no tempo presente e em flashbacks. As passagens de tempo são muito sutis, só percebidas inicialmente pelas feições velhas ou novas dos personagens, demonstrações da excelência narrativa de Campanella, que, ainda por cima joga em um tempo espécies de pequenas “bóias” factuais que aparecerão no outro tempo, dando tempero à história. É uma dessas “bóias” factuais jogadas no passado que vai levar ao fecho absolutamente surpreendente e chocante no tempo presente.

Quando o filme propriamente policial deveria terminar, com o fim da investigação, há um reviravolta simplesmente chocante, dessa vez traçando um comentário ácido sobre o regime militar argentino e mudando totalmente os rumos da história, pelo menos daquela que é contada, pois a presente é fruto direto dessa mudança.

Além da narrativa, outro triunfo do filme são os personagens, principalmente a trinca formada por Darín-Villamil-Guillermo Francella. Esse último interpreta o cômico, mas comovente, companheiro de investigação de Darín, um bêbado inveterado que foge do trabalho para o bar da esquina, e pelo qual se fazem as piadas do filme, mas que tem um presença final fabulosa. O amargurado viúvo Ricardo Morales -Pablo Rago- e o assassino Isidoro Gómez -Javier Godino, que cria um ser de gelar a espinha- ficam como uma espécie de satélite daquele núcleo central, mas satélites muito importantes.

“O segredo dos seus olhos” é um filme que se vende como um policial, mas é mais que isso. O início já dá uma ideia do que teremos pela frente. Esposito começa narrando a última e frugal manhã da bela professora assassinada -corte para a cena da última manhã; desiste; começa a narrar o assassinato -corte para o estupro. De saída, Campanella já nos coloca em estado de alerta, e faz com que nos identifiquemos com aquela mulher tanto quanto Esposito ao chegar à cena do crime e iniciar sua obsessão. O que se segue é uma obra que vai em um crescendo, com uma reviravolta e um final de tirar o fôlego, daqueles que pressentimos pouco antes de acontecer, mas que desejamos que não seja o que pressentimos.

O filme concorre ao Oscar de filme estrangeiro. Se não fosse “A fita branca”, de Michael Haneke, seria uma ótima aposta. Mas fica a lição para o cinema brasileiro que, se atingiu excelência técnica, ainda precisa buscar a excelência narrativa. E essa, Campanella e seus compatriotas atingiram já faz tempo.

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  1. Fred, adorei a crítica, faltou citar a pizza pós-filme!! Rs! Mas vc viu A Fita Branca?? O segredo é 1 zilhão de vezes melhor!!! Aliás, tirando Bastardos Inglórios, pra mim é o melhor filme do último ano!!


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