EDUCAÇÃO

Em inglês, “Educação”, da dinamarquesa Lone Scherfig, chama-se “An education”, uma educação. E que falta faz esse artigo indefinido! Nos anos 1950 e começo dos 1960, o mundo pós-guerra vivia um marasmo intelectual e cultural. A Inglaterra, nesse contexto, era mais cinza do que seus outros vizinhos europeus, uma chatice sem tamanho. É nesse pano de fundo que Lone conta a história de Jenny -Carey Mulligan-, uma adolescente de 16 anos que, em 1961, prepara-se para prestar a prova de admissão em Oxford, dedicando seu tempo entre o colégio apenas para garotas, os estudos em casa e sonhos com a bem mais agitada Paris, centro da vida intelectual naqueles tempos, sempre sob a pressão de seu exigente pai e sob os olhos complacentes de sua mãe, vivendo em um subúrbio londrino destituído de qualquer graça.

Um dia, ela conhece por acaso o charmoso David -um Peter Sasgaard com dentição amarela inegavelmente inglesa-, um ricaço lá com seus trinta anos, e que logo sente-se atraido pela jovem e perspicaz Jenny. A partir de então, a jovem começa a desviar de seu curso natural e um tanto quanto inevitável de entrar em Oxford, ficando cada vez mais atraída pela boa vida que David lhe apresenta, culminando com uma passagem memorável pela tão desejada Paris, onde Jenny surge como uma espécie de Audrey Hepburn.

Uma educação, e não simplesmente educação, pois Jenny é uma espécie de espírito inquieto, e começa a questionar qual o fundamento de seguir a educação formal, principalmente tendo em vista a vida cinza que levam tanto sua professora de literatura quanto a diretora da escola em que estuda, seus exemplos próximos de mulheres formadas. Prefere a educação da vida, aquela que David lhe apresenta em clubes de jazz, leilões de arte e negócios obscuros.

O período em que se passa o filme é fundamental para entendê-lo, pois Jenny está invariavelmente presa à condição de mulher em um mundo conservador. Seu pai prega tanto a necessidade de uma educação formal, mas ela percebe que o faz não para o crescimento intelectual dela, mas para que a filha possa um dia ter um casamento digno. A aparição de David é uma espécie de alternativa à educação formal, pois ali está a chance do casamento digno, e sem necessidade de ir para Oxford. A rigidez do pai é apenas uma máscara que ele usa para casar a filha.

O casal de amigos que acompanham David e Jenny em suas aventuras noturnas também oferece um contraponto interessante. Ele é Danny -Dominic Cooper-, também rico, culto, sócio de David e, como percebemos, com uma certa atração por Jenny. Ela é Helen -Rosamund Pike-, bela e vazia como um vaso de cristal, uma espécie de espelho descerebrado de um dos possíveis futuros de Jenny.

O roteiro, do escritor Nick Hornby -baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber- consegue captar bem essa espécie de viagem em arco que Jenny faz, transitando entre a educação formal e a educação da vida, o desencanto com os estudos e a percepção final de que, ainda que poucos os caminhos abertos pela educação formal, pelo menos são caminhos que ela pode escolher -a professora cinza vive em uma casa colorida-, e não caminhos impostos, como o eventual casamento com David poderia ser.

Apesar do final um tanto didático, o filme consegue captar bem a aura desse perído pré-swinging london, antes de toda a balburdia que seriam os anos 1960. E são justamente jovens universitários como Jenny que vão estar na ponta de lança de toda a mudança cultural e comportamental daqueles inquietos anos, o que dá um certo conforto com o destino de Jenny.

Por fim, vale ressaltar a jovem atriz Carey Mulligan, que consegue criar essa Jenny inicialmente pueril, mas que amadurece durante o filme, mas sem nunca perder sua deliciosa risada juvenil, como a nos lembrar que aquela mulher que está ali ainda é uma adolescente. Uma personagem memorável e impossível de não se gostar. Não por acaso, Mulligan concorre ao Oscar de melhor atriz. Mas esse deve ser mesmo o ano de Sandra Bullock, o que não me deixa triste, pois sei que a maldição do Oscar vai se abater sobre ela e Bullock vai para o mesmo ostracismo de onde nunca mais sairam Charlize Theron, Halle Berry e Gwyneth Paltrow. Sorte grande para Mulligan!

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