AMOR SEM ESCALAS

“Amor sem escalas”, de Jason Reitman, conta a história de Ryan Bingham, interpretado por George Clooney. Ryan trabalha despedindo pessoas em todos os Estados Unidos, e tem viajado mais do que nunca para fazer seu trabalho por causa da crise econômica que acertou em cheio os norte-americanos. Ryan tem como maior ambição acumular dez milhões de milhas aéreas, um feito para pouquíssimos homens; orgulha-se muito de seus cartões V.I.Ps. de hotéis e locadoras de automóveis, e está feliz da vida por viajar como nunca, pois não suporta ficar em casa, um pequeno apartamento destituído de qualquer sinal de vida habitante. De quando em quando, dá palestras sobre seu programa da mala vazia, que prega que as relações humanas e os objetos apenas acrescentam peso na vida das pessoas. Deveriam todos viver como ascetas para serem felizes -sua teoria é um sucesso. Enfim, Ryan está feliz, e o fortuito encontro com Alex -a bela Vera Farmiga- em algum terminal perdido pelos EUA apenas vem acrescentar mais interesse nessa rotina de viagens: em algum lugar, há uma bela mulher esperando por ele, mais do que isso, alguém que se parece muito com ele -basta que as agendas combinem.

Como todo negócio que vai bem, a companhia na qual Ryan trabalha decide adotar uma racionalização do sistema, proposta da jovem Natalie -Anna Kendrick-, pela qual não mais haverá viagens -tudo deverá ser feito por videoconferência. Ryan, obviamente, vê ameaçado o seu posto de viajante profissional, sentindo-se futuramente condenado a ficar em casa -a maior das penas para ele. Revolta-se e consegue fazer o chefe aceitar que ele leve a jovem em suas viagens para provar que o negócio de despedir pessoas tem que ser feito in loco, sob pena de desumanizar o processo. Desumanizar um processo já desumanizado, pois terceirizado -Ryan teme mesmo é uma sacudida no no seu modo de vida.

Reitman parece que vai tecer o grande filme sobre a crise norte-americana, tanto econômica quanto ética. Mostra essa gente que -como aquele personagem em “A peste”, de Albert Camus- se alimenta da desgraça; mostra as entranhas desse empreendimento moralmente condenável mas legalmente válido; mostra como Ryan é o paradigma moral dessa crise em seu individualismo exacerbado. Parece que vai fazer com a crise norte-americana aquilo que Jonatham Demme fez com o moralismo e o machismo em “O silêncio dos inocentes”. Tudo vai bem, até que o filme faz a errática escolha de enveredar para a comédia romântica.

O fim de semana do casamento de sua irmã e a companhia de Alex no evento despertam em Ryan uma súbita vontade de compartilhar, de viver em sociedade. De repente, sem sinal aparente, o cinismo de Ryan cai por água abaixo e ele se impregna de uma grande humanidade. E o pano de fundo econômico, político e ético também é deixado totalmente de lado. E aí o filme perde força.

Para piorar, o final leva a uma espécia de punição moral de Ryan, pois, após ter experimentado uma pitada de tudo aquilo que ele condenava, e após a decepção com esse mundo, ele não luta por conhecê-lo melhor, e nem retorna cínica, mas alegremente, a sua situação anterior. Ao contrário, ele agora é condenado a vagar melancolicamente pelos terminais vazios e pela vida artificial que antes tanto prezava. Moralismo na veia.

Reitman, que também escreveu o roteiro, poderia ter feito o grande filme sobre o estado atual de seu país, uma obra daquelas para marcar a história do cinema. Tinha tudo nas mãos -bons personagens, bons atores-, mas jogou tudo fora com sua opção pelo romantismo de araque e pelo moralismo que lava a alma do espectador, principalmente aquele norte-americano, tão envolvido com escroques nessa crise. Não assimilou a já citada lição de Demme, que fez um dos grandes filmes da década de 1990 exatamente porque usou o machismo e o moralismo como pano de fundo constante para contar uma história que, de outra forma, seria apenas um bom filme de suspense.

Curioso que em filme anterior, Reitman foi muito mais eficaz na abordagem do cinismo humano. Em “Obrigado por fumar”, Nick Taylor -Aaron Eckhart- é a própria encarnação do lobbista cínico até o osso e que, ainda frente à ameaça e ao ataque dos outros, reage com mais cinismo ainda. Reitman, aqui em “Amor sem escalas” -por sinal, uma tradução nojenta para o título original, “Up in the air”, daquelas de entrarem para a antologia das traduções nacionais-, parece querer passar uma colher de manteiga para evitar muita dor ao espectador. Pior ainda, quer oferecer não uma base de reflexão, mas sim um instrumento de purgação.

Esses nossos tempos estranhos ainda esperam um fabulista digno para contá-los.

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  1. Acho que eu gostei um pouco mais do filme que vc…talvez a presença do George Clooney tenha me influenciado, além de ter dado vontade de tomar café! Mas também não achei nada megaaaa extraordinário, e o Obrigado por Fumar é infinitamente melhor!
    Agora pra lista de traduções bizarras, acho que o Guerra ao Terror vai ganhar…o título em Inglês é Hurt Locker, e assim como a frase do prólogo, dá muito mais sentido ao filme..aliás, vale a pena ver, tá passando na net no ppv!
    E a lista vai diminuindo e não vislumbro nada que chegue aos pés do Bastardos Inglórios!! Esse fds estréia o Fita Branca, mas fica pro pós-carnaval! Bjosss

  2. Poxa, Fred, eu gostei do filme… gostei muito, por sinal, o Clooney me marcou pra caramba. Mas acho que você dissecou a trama de uma forma que me fez entender melhor como é que ele perde o pé… você tem razão, ele podia ter sido o filme deste momento histórico dos EUA. Mesmo assim, acho que vou continuar achando o máximo a porta na cara que o Clooney leva quando tenta abraçar o romance.
    Bom, de quebra, adorei conhecer o blog, eu tbem amo escrever (e ler) sobre filmes e livros!
    Beijocas!

    • Ótimo que vc apareceu por aqui!

      Continue visitando!

      Será sempre bem vinda, ainda mais com opiniões contrastantes às minhas!

      Bjs.


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