8 1/2

Em “A doce vida”, de 1960, Federico Fellini colocou em tela o mal estar de um homem que percebia que o mundo começava a se descolar do sentimento triunfalista do pós-guerra e, de certa forma, antecipou a crise intelectual que desembocaria na revolução comportamental e filosófica da década de 1960. Em “8 1/2”, de 1963, Fellini aborda outra vez uma crise, mas dessa vez a de um homem em descompasso interior. Esse homem é o cineasta Guido, interpretado magnificamente por Marcello Mastroianni, em crise criativa.

Mastroianni era o intérprete preferido de Fellini, por vezes tido como o alter ego do diretor nas telas; “8 1/2”, o título, vem do fato de que aquele era o 8º filme e meio que Fellini dirigia -estreou em 1950, dividindo a direção com Alberto Lattuada no filme “Luzes do arrabalde”. “8 1/2” é, portanto, uma excelente oportunidade para colocar em prática a atual tara pelo cinema realidade, buscando-se discutir o que na obra é autobiográfico e refere-se ao prórpio Fellini. O diretor fala que a ideia veio de uma crise de criatividade. Fellini era também um grande contador de histórias que misturava realidade com ficção. Dizer que o filme é autobiográfico, ainda que Fellini mesmo o insinue, é diminuir essa obra-prima. Ainda mais uma tão cheia de artifícios.

Fellini alterna cenas do momento atual, no qual Guido põe-se a preparar uma nova obra sob pressão dos produtores, com outros do passado do diretor ficcional e de delírios puros dele. Embrulha tudo isso em um insistente som de vento, pontuado pela música vibrante de Nino Rota, o parceiro musical por excelência de Fellini. Vemos Guido lidando com uma imprensa feroz por palavras do diretor, uma imprensa que demanda que ele fale sobre tudo, sobre qualquer coisa, desde que fale -e aqui Fellini foi mais uma vez um profeta dos tempos vazios que a imprensa vive hoje em dia, desfocada do que é importante, buscando o que é lateral. Guido também tem que lidar com todos os envolvidos na produção e, para piorar, com todas as mulheres que o cercam, desde as atrizes, passando pela esposa e chegando à amante -um apanhado das atrizes mais belas e talentosas do cinema na época, mulheres como Anouk Aimée e Claudia Cardinale . Guido faz, na verdade, uma verdadeira reavaliação de sua vida durante essa crise.

Se fosse apenas isso, o filme poderia ser bom, mas não genial. A diferença está nos artifícios usados para contar a história. Fellini gruda no emocional e instável Guido uma figura que funciona como uma espécie de grilo falante hiperintelectualizado; a obra faz comentários mordazes sobre o ambiente cinematográfico, sobre a igreja, sobre relacionamentos, sobre a futilidade dos artistas, sobre a voracidade intelectual. Enfim, ataca sobre diversas áreas, sendo certeiro em todas.

Para coroar, há a cena final, talvez uma das mais antológicas da história do cinema -isso em um filme que apresenta no mínimo mais três ou quatro passagens fora de série, como a do sonho com as mulheres e as lembranças da prostituta La Saraghina, que voltaria em outras obras de Fellini- e que, nos extras do DVD, ficamos sabendo, era, na verdade, uma espécie de teaser da obra, mas que ficou tão boa que entrou como o final. Ali, todos os personagens desfilam em festa bufa, sob o som da genial trilha sonora do eterno companheiro de Fellini, Nino Rota, regidos por um menino e em clima de fim de festa depois de uma vertiginosa viagem interna. Não poderia ser mais significativo.

“8 1/2” é o tipo de filme que justifica a existência do termo felliniano. Ali há uma espécie de grande quadro da obra do mestre italiano. Acompanhar por duas horas e vinte e cinco minutos as agruras de Guido é um prazer que precisa ser vivido por quem gosta de cinema.

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