ABRAÇOS PARTIDOS

“Abraços partidos” era a aposta de Pedro Almodóvar para conquistar a tão sonhada Palma de Ouro em Cannes 2009, prêmio que, por sinal, ele deveria ter recebido já faz tempo. Não levou, mas também não mereceu.

O filme conta a história de um roteirista cego, Harry Cane, na verdade pseudônimo de Mateo Blanco, antes um cineasta de dramas de relativo sucesso. Um dia, ele é procurado por um diretor que também usa um pseudônimo, X-Ray. Na verdade, esse diretor é filho do recém falecido milionário Ernesto. Cane recusa-se a fazer o roteiro, e sua fiel ajudante fica extremamente perturbada com a aparição desse diretor. Em dado momento, de maneira um tanto esquemática, Cane começa a contar a Diego, filho de sua ajudante, a história misteriosa que marcou a todos.

Lena -mais uma interpretação esfuziante de Penélope Cruz- era secretária de Ernesto na década de 1990, no mesmo período em que Cane, ainda usando o nome Mateo Blanco, firmava-se como diretor de dramas. Lena acaba-se casando com Ernesto, mas logo se vê presa do amor sufocante do velho marido. Ela busca algo mais na vida, e corre atrás de um velho sonho -ser atriz. Assim, o destino de Lena e Mateo se cruzam, pois ele a seleciona para sua primeira comédia, “Garotas e malas” -deve-se notar que Blanco faz o caminho inverso de Almodóvar, que estourou na comédia e firmou-se nos dramas. Ernesto, afogado de ciúmes, coloca seu filho -um homossexual reprimido pelo pai- para fazer uma espécie de making of da obra que ele, inclusive, decidiu financiar, para manter a mulher sobre controle. X-ray ainda não era X-ray, mas tem o trabalho de radiografar as entranhas do filme, perseguindo Lena com sua câmera onde ela estiver. Ernesto vê os resultados da filmagem regularmente e, por meio delas, percebe que vai perdendo a mulher para Mateo.

Almodóvar teve um momento de inflexão na sua carreira depois de “Carne trêmula, quando abandona os filmes deliciosamente afrontadores para fazer obras mais, digamos, maduras, e que representam um punhado fundamental do que de melhor se fez no cinema desde então. Aqui, no entanto, Almodóvar erra feio. O personagem de X-ray, por exemplo, é caricaturalmente homossexual, fazendo justiça a suas obras anteriores, mas aqui ele fica perdido no tom sóbrio do resto da obra. E esse não é o único problema.

O filme vai se construindo em cima de um esquematismo trôpego. Os primeiros 20 minutos de filme parecem existir apenas para colocar Blanco/Cane contando sua história. Assim, vemos uma profusão de cenas inuteis, como aquelas passadas dentro de uma boate, na qual Diego tem uma overdose.

A obra se perde mesmo em seu quarto final, como se Almodóvar simplesmente tivesse errado a mão nas revelações que coloca e nos resultados delas, escrevendo até mesmo frases de gosto pra lá de duvidoso. Chega a ser constrangedor ver passagens tão ruins em um filme de um mestre do cinema.

No desastre de “Abraços partidos” salvam-se Penélope Cruz – que teve que fugir de Hollywood antes que fosse tragada e destruída, como aconteceu com Antonio Bandeiras, outra cria de Almodóvar- e a fotografia estonteante. Por sinal, um dos pontos altos do filme é uma cena de sexo entre Lena e Ernesto debaixo de sufocantes lençóis, um momento esplendiamente filmado e uma metáfora perfeita do relacionamento de ambos.

Os que querem eximir Almodóvar de seu erro dizem que mesmo um Almodóvar ruim é melhor do que muito filme. Besteira. Almodóvar não pode ser medido com a mediocridade reinante, mas sim comparado com os grandes mestres vivos e com seu passado, pois é nesse time que ele se encontra. 

Ironicamente, o grande momento de “Abraços partidos” é o filme “Garotas e malas”, por sinal uma “obra” com tons muito parecidos com aqueles dos primeiros filmes de Almodóvar, cheios de absurdos e cores fortes. Mas, como homenagem ao cinema, Quentin Tarantino e seus “Bastardos inglórios” são infinitamente melhores.

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