ATIVIDADE PARANORMAL

“Atividade paranormal” é um daqueles fenômenos que de quando em quando deixam os produtores de Hollywood coçando a cabeça e pensando: como diabos não pensamos nisso antes? O diretor Oren Peli nem mesmo diretor é. Sua ideia surgiu quando se mudou para uma casa que fazia estranhos barulhos -como a maioria das casas, por sinal. Peli, no entanto, partiu dessa banalidade e criou “Atividade paranormal”, no qual um casal decide investigar estranhos barulhos na casa para a qual recem mudaram.

A novidade estética do filme é zero. Essa história de uma câmera na mão e muito terror na cabeça já foi explorada há dez anos com “A bruxa de Blair”. Mas o filme não é destituído de charme -ou terror- por causa disso. Na verdade, a dramaturgia é zero. Consiste em cenas diurnas em que Micah Sloat filma ele e sua namorada Katie Featherston -sim, os atores usam seus próprios nomes no filme- discutindo os estranhos fenômenos, ela dizendo que esses acontecimentos ocorrem com ela desde os 8 anos. O bicho pega quando a noite chega e o rapaz coloca a câmera em um tripé, filmando o quarto e o corredor. O que ocorre é uma sucessão de barulhos, gemidos, portas abrindo, que causam um terror cada vez maior nos espectadores.

As cenas diurnas são banais. Na verdade, são inverossímeis, tirando aquele ar de realidade que o diretor gostaria de imprimir à obra. Qual o sentido de ficar filmando nada acontecendo, se a câmera chega para flagrar os fenômenos, que só acontecem de noite? Outro ponto fraco é a insistência do sujeito em querer resolver por conta própria a situação. Se fosse mais explorada essa coisa do macho que acha que os problemas de casa se resolvem em casa, tudo bem, mas não dá pra crer em um sujeito que se borra de medo de noite e de dia fica que nem uma criança pesquisando soluções e provocando o diabão. E, ainda por cima, ri com incredulidade do especialista em paranormalidade que ele e a mulher chamam, sendo que ele mesmo se mostra um crente, porque efetivamente passa pelas experiências. Esse é um ponto que uma não improvável refilmagem poderia explorar melhor, acrescentando um tempero ao terror.

O falatório sobre o filme deve-se muito ao exíguo orçamento de U$ 15 mil e à extraordinária arrecadação de U$ 120 milhões. Mas, como lenda é lenda, esse orçamento é o inicial. O filme recebeu retoques dos estúdios, depois de fazer sucesso em festivais undergounds, sendo, inclusive, apadrinhado por ninguém menos do que Steven Spilberg, e, certamente, algumas dezenas de dólares foram acrescentados à cifra original. Do midas Spielberg, pode-se dizer que Peli seguiu a regra de ouro: esconder ao máximo o agente do terror.

As cenas que devem assustar fazem muito bem seu trabalho. É a arte de criar muito com pouco. Apenas com alguns barulhos, sombras e ventos, Peli consegue gelar a espinha de qualquer pessoa, isso é inegável. Por sinal, no quesito terror, Lars Von Trier teria algo a aprender com Peli, pois se tivesse abstraído a música de seu “Anticristo”, talvez conseguisse um efeito perturbador com os incessantes frutos que caíam no telhado da casa. É claro que em pretenção intelectual, “Atividade paranormal” não chega aos pés de “Anticristo”, o que não é necessariamente ruim.

“Atividade paranormal” tem algumas falhas cruciais para uma obra que se pretende um recorte fiel da realidade, mas cumpre muito bem o papel a que se propõe: assustar até o mais impassível ser humano. Coisa que, por sinal, “A bruxa de Blair” fez com mais eficiência há 10 anos, pois não abriu mão de alguma história mais desenvolvida do que um fenômeno que acompanha alguém, como aqui. Mas pelo menos é uma novidade no atual reino do terror, que se contenta em dilacerar corpos e mostrar centenas de litros de sangue, causando mais nojo do que terror.

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