500 DIAS COM ELA

Logo de cara, “500 dias com ela” mostra a que veio. A narração em off diz que essa é uma história de boy meets girl. No caso, Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) é o garoto que teve sua ideia sobre amor formulada por muita música melancólica inglesa e pelo entendimento errado do filme “A primeira noite de um homem”, de Mike Nichols; Summer Finn (Zooey Deschanel) é a garota marcada pelo divórcio dos pais e descrente do amor. Bom, só com o que já foi dito, muita gente poderia ficar com o pé atrás, pois esse seria somente mais um filminho romântico desses bem água com açúcar. Mas não nas mãos do diretor estreante Marc Webb.

O filme é um grande achado narrativo. Obviamente, é a história dos 500 dias de Tom com Summer, mas esses dias não são mostrados de maneira cronológica. Ao invés disso, vamos do dia primeiro ao dia 488. Ou seja, os dias se alternam sem nenhuma grande lógica, indo e vindo, e proporcionando uma verdadeira montanha russa emocional que, devo dizer, não é para corações lá muito fracos. Isso porque, se em um momento vemos cenas de muito afeto, no próximo podemos estar vendo Tom completamente enfiado na lama, ou Summer cravejada de dúvidas sobre o relacionamento. É esse efeito surpresa que faz com que fiquemos tão ligados ao filme. Webb também consegue arranjar ótimas sacadas narrativas. Uma hora, temos uma cena típica de musical, com direito a desenho animado e tudo; em outra, vemos um cenário desenhado com uma figura em primeiro plano, e o desenho vai esfumaçando. Dessa forma, o filme diz com imagens o que precisaria de muitas palavras pra dizer.

A história é, portanto, a desse casal. Tom apaixona-se de cara por Summer. Ele, na verdade, anseia por amar alguém. Ela, por outro lado, desconfia do amor. Por sinal, como desconfiava François Truffaut, que merece uma referência em mais um achado narrativo, quando a personalidade de Summer é exposta em uma espécie de filmete em preto-e-branco que remete à leveza cinematográfica do francês -e que vai ter seu contraponto em Tom imaginando sua dor em outro filmete que remete a Godard e a Bergman. Sabemos que eles ficam juntos, mas sabemos que algo, lá na frente, dá errado, e sabemos que Tom sofre e que Summer se afasta. Sabemos tudo, mas a forma como as peças são colocadas é que encata. Só para citar mais um artifício narrativo, em dado momento, Webb divide a tela em duas, colocando na esquerda o evento na expectativa de Tom, e o evento como realmente acontece. É um momento genial e virulento, mas feito com uma simplicidade tão grande que nos faz pensar em como não pensaram naquilo antes.

Webb consegue escapar assim das facilidades dos filmes de relacionamento. Escapa ainda do mero empilhamento de referências culturais, pois elas têm função clara na mensagem. Consegue, principalmente, fugir da tentação de fazer da música o grande personagem de seu filme, armadilha na qual parece ter caído Cameron Crowe em seu “Elizabethtown”, pois a música, aqui, é importante na criação da personalidade de Tom e Summer, mas não é tudo.

O filme consegue o mérito de causar empatia com seus personagens. É difícil não sentir as emoções de Tom, que leva tudo à flor da pele, assim como é difícil não se encantar com a descrente e cheia de personalidade Summer. Mérito total para os atores. Joseph Gordon-Levitt é a imagem encarnada de todo sujeito meio abobalhadamente apaixonado e visceralmente sofredor. Zooey Deschanel, por outro lado, atrai de cara com seus grandes olhos azuis e seu estilo, como eu diria, coll -argghh, não gosto dessa palavra, mas não há outra melhor-, e parecem óbvios os motivos pelos quais qualquer um se apaixonaria por ela. Os personagens, porém, não são meramente planos e representações totais dessas oposições. Muito pelo contrário, eles são radicalmente humanos e tão contraditórios quanto humanamente possível.

Ao fim, o que temos é um grande filme sobre o amor, sobre a união desse total idealista com essa total desencantada. Ambos creem avidamente nas regras que criaram para si mesmos sobre relacionamentos, mas a única pessoa que tem uma postura madura sobre relações é a garota Rachel -Chloe Moretz-, que funciona como uma espécie de grilo falante de Tom e volta e meia aparece pra trazê-lo de volta ao planeta Terra, seja puxando-o do céu, seja resgatando-o do inferno. Ela sabe que não existem regras para esse tipo de coisa, e, se regras há, elas são para serem quebradas. Como serão, por sinal.

É um filme encantador, daqueles que ficam com a gente, e se no mínimo duas ou três cenas não tocarem fundo no seu peito é porque você nunca passou as delícias e as agruras de um relacionamento.

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  1. fui ver lá pq a incorporação tá desativada, fred: queria ver o trabalho de imagens do filme a que vc nos remete – ao menos em pitaco – mas nada.
    que bom que tás mais atuante aqui. abrs

  2. Quérido, confesso que nunca havia lido seu blog – afinal, não leio nem o meu. Mas fiquei curiosa para saber sua opinião a respeito deste filme, que eu, quando vi o anúncio, achei que fosse apenas mais um romance água-com-açúcar. Acabei ficando curiosíssima para assistir. Quando tomar vergonha e for ao cinema tirar minhas próprios conclusões, conversaremos sobre o assunto. =)


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