NÃO MATARÁS

O polonês Krzysztof Kieslowski adquiriu fama mundial com “A dupla vida de Veronique” e sua fabulosa “Trilogia das cores”, tornando-se, também, um dos maiores esteriótipos do chamado cinema de arte -mas não seria todo cinema arte, ainda que ruim?-, devido a suas temáticas áridas, fotografias não convencionais, diálogos sugestivos e nome pra lá de complicado. A verdade é que, afora o injusto esteriótipo, Kieslowski é um mestre, e já o era antes das citadas obras primas. Ainda sob o governo comunista, o diretor fez uma série de filmes para a televisão baseada no Decálogo, e alguns deles chegaram, inclusive, à tela grande. “Não matarás” é um desses. E é, também, uma verdadeira aula de cinema.

A história é pra lá de simples. Um jovem mata brutalmente um taxista e é defendido por um advogado recém-formado e idealista, que não consegue impedir que o acusado seja condenado à morte -o jovem é enforcado, e tudo isso em apenas 80 minutos. Simples, simplíssimo, mas é sob essa argumento magro que Kieslowski faz uma obra cinematográfica total, seja no plano estético, seja no plano temático, seja no plano ético.

A cena inicial mostra crianças enforcando um gato, dando início a um dia trágico. A tensão já está posta. Daí em diante, a câmera acompanha os três envolvidos alternadamente – o jovem que perambula com suas intenções violentas, o taxista meio canastrão e o então jovem bacharel. O que move os encontros dessas pessoas é o acaso. O diretor consegue escapar das esteritipizações, pois, se aos poucos vai afundando o jovem assassino em uma crescente sombra negra -uma grande ideia estética-, não mostra a futura vítima com aquela aparência favorável capaz de conquistar a simpatia do público, a fim de horrorizá-lo com o assassinato. O taxista é meio sórdido, e o crime é brutal de tal forma que não precisamos da identificação fácil com a vítima para ficarmos horrorizados. A coincidência aparece outra vez, dessa vez selando o destino do jovem assassino, que é preso. Dessa forma, encerra-se uma espécie de primeiro ato não delimitado.

O, digamos, segundo ato -na verdade uma espécie de intermezzo, de tão rápido- é o julgamento do assassino. Não há longas cenas de tribunal, nem discursos emocionados. Há apenas a sentença de morte. Segue-se o que poderíamos chamar de terceiro ato, no qual o advogado, que sabemos ser contra a pena de morte, sente-se culpado pela pena aplicada ao seu cliente. Vai, então, conversar com ele, em busca de alguma espécie de absolvição, de alívio ao seu remorso. Esse seria o momento ideal para colocar na boca do assassino alguma espécie de justificativa para o crime, mas a justificativa não vem. Ao invés disso, o jovem conta a história de sua irmã, que morreu jovem, e de como ele sente falta dela. O assassino não está justificado, mas está humanizado.

Passa-se, então, ao ato final -o enforcamento. Vemos a montagem da forca, o caminhar do assassino até o seu destino final, e o enforcamento. Kieslowski, assim, completa sua mensagem, pois consegue mostrar que até o mais sórdido dos homens tem seu lado humano, humanidade essa que é, por sua vez, esmagada sob as engrenagens impessoais do Estado, ainda mais um Estado autoritário, como era o Polônia em 1988. Se não há justificativa para o assassinato praticado pelo indivíduo, tambem não há justificativa para o assassinato praticado pelo Estado.

Sim, o filme é sufocante, duro e faz pensar. É, também, um triunfo por sua estética e por sua mensagem. Os esteriótipos, infelizmente, tendem a afastar as pessoas de obras como essa. Uma pena, pois são obras como essa que ainda fazem o cinema valer a pena em tempos tão medíocres como o nosso.

p.s: Uma última coisa: o link acima não é um trailer, mas sim o filmes completo, ainda que porcamente filmado de uma TV. Na verdade, não encontrei o trailer e optei por essa porqueira, mas qualquer boa locadora tem o filme. Se for boa mesmo, tem até a caixa do “Decálogo”!

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