O DESINFORMANTE

Steven Soderbergh tem filmado como se não houvesse amanhã. Só em 2009, estreiou 4 filmes -as duas partes de “Che”, “Diário de uma garota de programa” e “O desinformante”- de temas completamente díspares. Se, com a abundância, o cinema do diretor ganha em variedade, parece perder em qualidade.

Em um primeiro momento, “O desinformante” parece que vai se encaixar em uma vertente relativamente nova do cinema norte-americano, aquele que aborda as grandes corporações e suas gambiarras. São obras como “O informante”, de Michael Mann, “Obrigado por fumar”, de Jason Reitman, e “Conduta de risco”, de Tony Gilroy, por sinal, produzido por Soderbergh. Vemos Mark Whitacre -em uma interpretação longe dos galãs habituais de Matt Damon-, um químico, às voltas com um problema relacionado com a produção de um derivado de milho. Como narra Whitacre na cena inicial, o milho está em quase tudo que é consumido na vida moderna, dos cereais às embalagens biodegradáveis. Ele introduz, assim, o impacto do milho para os consumidores. Após um telefonema do Japão, o químico apresenta o motivo e a solução dos problemas -a empresa estaria sendo sabotada por uma companhia japonesa, que pede dinheiro em troca da solução. Seus superiores optam por introduzir o FBI na investigação de sabotagem internacional, e logo Whitacre toma a estranha decisão de agir contra sua empresa, revelando um esquema de fixação internacional dos preços de derivados de milho.

Essa rápida sinopse poderia levar a crer que o filme é igual a “O informante”, de Mann, no qual um funcionário resolve entregar as tramoias da indústria do tabaco, mas, se no filme de Mann o que move o dedo-duro é certo sentimento de justiça e remorso, aqui, em “O desinformante”, temos uma motivação bem mais complicada. Whitacre não quer derrubar a empresa. Ao contrário, sonha em limpá-la e assumir o lugar de seus corruptos superiores. O faz enquanto reclama que é apenas um químico levado a tomar posições enquanto chefe de setor. Mente desesperadamente para todos: seus chefes, os agentes, a esposa. Tenta criar algum tipo de relação amistosa com o agente do FBI interpretado por Scott Bakula. Nisso, ele vai se enredando cada vez mais nas suas inverossimilhanças. Nesse ponto, o filme começa a se parecer mais com “O adversário”, de Jean-Marc Faurre, que também narra um homem que se afunda em mentira até a tragédia.

O que falha no filme de Soderbergh é que ele aparentemente faz uma obra sobre tramoias corporativas -e aqui elas existem-, mas que se mostra algo além disso. Por outro lado, não consegue desenvolver plenamente a faceta mitômana de Whitacre. Assim, o filme fica um tanto quanto preso na indecisão entre explorar vivamente o fato de os chefões corporativos estarem fazendo seus acertos, e a exploração da personalidade ambígua do personagem princiapl. Mais ainda, Soderbergh falha em acertar o tom de sua narrativa, que fica indecisa entre ser séria e explorar o desespero de um homem cada vez mais afundado em mentiras -o que o citado Faurre faz com maestria-, ou usar a chave cômica, talvez o humor ácido presente, por exemplo, em “Obrigado por fumar”.

Soderbergh acerta, no entanto, em dois pontos. O diretor já retratou uma América profunda e desglamurizada em Bubble. Agora, ao abordar a América que ganha dinheiro e que anda de Posche e Ferrari, o olhar incisivo do diretor não deixa de notar o que há de brega nessas pessoas ricas, mas desaculturadas. Isso se reflete tanto na figura de Whitacre quanto na sua breguíssima mulher, esparramando-se por todos os ambientes internos do filme, ricamente decorados com o que de pior há. Soderbergh faz, assim, um comentário muito lateral e sutil sobre como pensa parte da elite norte-americana. Por outro lado, o filme é pontuado por falas em “off” de Whitacre, mas elas não são narrativas. Longe disso, tais falas são comentários errantes do personagem sobre os mais variados assuntos, que servem para mostrar o estado de confusão mental dele.

Soderbergh é o pai do chamado cinema independente, com seu “sexo, metiras e videotape”, mas anda meio longe do brilhantismo inicial de sua carreira. Talvez devesse tirar um pouco mais de tempo e fazer menos filmes, mas recheá-los com a ambição que já teve em outros tempos.

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  1. ok, fred! ele tem q parar pra rever a si mesmo. mas penso q
    a chamada do título nos remete à loucura q é a vida de tds q
    se envolvem em tramóias por poder. bizarros, às vezes, os
    offs de damon me remeteram a isso. e, como foi ótimo vê-lo,
    de novo, como brilhante ator que é.

    ótima rezenha! brs

  2. e quanto à lincoln e a mensagem q nos poderia passar – ou não – a sua presença em ene cenas, não seria possível uma leitura, via sua marca na construção do próprio estado? brs


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