BASTARDOS INGLÓRIOS

Quentin Tarantino não apenas trabalhou em uma locadora antes de se aventurar na direção; ele também devorou -e devora- toneladas de filmes. Isso fica muito claro em toda sua obra, cheia de referências a outras películas, mas sem que isso seja um mero empilhamento de influências ou homenagens. Tarantino efetivamente constrói algo novo com seu conhecimento de cinéfilo, mesclando a isso sua incrível capacidade de criar referências pop sem que essas fiquem deslocadas ou excessivas. Por isso, “Bastardos Inglórios” é um filme de guerra, no melhor estilo das aventuras dos anos 1960/70, mas é um western, daqueles que só Sergio Leone sabia fazer, e é também uma -mais uma- história de vingança.

O filme é dividido em capítulos. O primeiro introduz o western. Como em uma daquelas cenas típicas do gênero, vemos uma casa perdida no meio do nada, na qual chega o bando de malfeitores. No caso, os nazistas, comandandos por Hans Landa, conhecido como o Caçador de Judeus. Segue-se um massacre e uma fuga -Tarantino já prepara a vingança. O segundo capítulo introduz os filmes de guerra e apresenta Brad Pitt interpretando Aldo “Apache” Raine e recrutando um grupo de judeus para caçar nazistas na Europa ocupada. Seguem-se então as histórias paralelas dos Bastardos caçando e atemorizando nazistas, enquanto Shosanna, a jovem sobrevivente do massacre, planeja sua vingança.

Poderia ser apenas um filme de aventura, mas Tarantino pega esse material básico e o recheia de referências e detalhes que enriquecem a obra. Aldo é apelidado de “Apache” e exige de seus comandados o escalpo dos nazistas mortos -é o western com força e violência total. Por outro lado, a primeira vez em que vemos os Bastardos em ação, eles estão com um grupo de nazistas nas Fossas Ardeatinas. O fascismo italiano não era profundamente antisemita, mas um dos grandes massacres de judeus foi executado nesse local por um grupo nazista. A referência vingativa ganha ainda mais força quando, no final, alguns dos Bastardos se disfarçam de italianos.

Apesar de fazer piada dos nazistas, Tarantino consegue fugir das facilidades de determinados filmes sobre o período, segundo os quais alemão bom é alemão morto. O bando dos Bastardos tem um alemão que se revolta contra o nazismo e vira um exterminador de nazistas. O filme também faz um comentário interessante sobre a tolerância, pois a judia Shosanna, quando em Paris, relaciona-se com um negro. Por fim, o ponto mais polêmico para mim é a questão de como muitos crimes de guerra foram esquecidos após o fim do conflito, e muitos nazistas puderam viver em relativa paz em países como a Argentina e, até mesmo os Estados Unidos -os Bastardos não fazem prisioneiros, mas aqueles que o grupo não mata, o grupo marca.

O cinema é a grande força impulsionadora de “Bastardos Inglórios”. Shosana, a sobrevivente do massacre inicial, acaba indo dirigir um cinema na Paris ocupada. Por uma dessas coisas do destino, seu cinema acaba sendo escolhido para acolher a estréia de um filme da propaganda nazista, interpretado por um soldado que por ela cai de amores. Shosana, assim, bola um plano que pode exterminar todo o alto comando nazista. Ela apenas não sabe que os Bastardos também tem um plano para a tal noite de estréia, plano esse que depende igualmente da questão cinematográfica.

Tarantino introduz mais uma galeria de personagens inesquecíveis e muito bem interpretados. O tenente Aldo, de Pitt, é a imagem do mais puro bronco norte-americano que crê estar em uma missão que por tudo deve ser executada. Shosanna é interpretada pela belíssima atriz novata Mèlanie Laurent, que consegue a medida exata entre a cegueira da vingança e o pavor da morte -tem uma cena extraordinária ao se reencontrar com o algoz de sua família. Temos até mesmo um Hitler e um Goebbels hilários em suas encarnações meio abobalhadas. Mas o grande personagem é sem dúvida Hans Landa, um sujeito cheio de trejeitos e afetações, terrivelmente dócil e incrivelmente violento, enfim, um dos grandes vilões cinematográficos dessa década, talvez da história do cinema. Não à toa, Cristopher Waltz ganhou a Palma de melhor ator em Cannes por sua brilhante interpretação.

“Bastardos Inglórios” é um filme tipicamente tarantiniano. Estão lá os já citados grandes personagens; os diálogos longos -mas não chatos-, inteligentes e cheios de tensão; as referências pop na música e em certos recursos cinematográficos. Mas parece que Tarantino dá um passo adiante, pois consegue rechear o subtexto de sua obra com pequenas e importantes observações. As cenas finais são talvez o melhor comentário já feito sobre o poder que a sala escura tem de servir de válvula de escape para as frustrações, os desejos ocultos e os prazeres indizíveis da platéia. Se Hitler se esbalda com o filme sobre o herói nazista que matou sozinho 3oo inimigos, o público se esbaldará com algumas das passagens mais violentas dos últimos anos, e isso diz muito não só sobre nós, mas sobre o cinema em si. Assista e esbalde-se você também.

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  1. Acho Tarantino fantástico, esse filme também é genial … mas fiquei um pouco triste pq todos filmes que assisti do Tarantino sempre achei a trilha genial, em tempos do mundo não digital, as trilhas de cães de aluguel e pulp fiction eram um CDs valiosos, aquele q vc não empresta …. Nesse esperava a mesma coisa, mas ele repete as musicas do kill bill e pulp fiction…

  2. Assisti o filme finalmente!!! É um dos melhores filmes que já vi, e com certeza a grande obra prima do Tarantino! E o ponto mais forte, pra mim, foi a abordagem meio “metalinguistica” no filme, do “filme dentro do filme”, mas explorada de uma forma pouco convencional..e a questão da reação da platéia..nossa, inexplicável o mal estar qdo vc percebe em si mesmo um esboço de sorriso nas cenas finais..mto louco!!! Nossa, foi mto intenso..gostei mto mesmo!! E gostei mto do texto!! Bjocas

  3. Pingback: RELATOS SELVAGENS, DE DAMIÁN SZIFRON « letra e cena


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