DOIS IRMÃOS

A história do antagonismo entre irmãos é antiquíssima. A Bíblia já trazia Caim e Abel. Os gêmeos Esaú e Jacó também tiveram sua história contada nesse livro sagrado. Machado de Assis usou a parábola bíblica e escreveu o seu “Esau e Jacó”. Pode-se dizer, portanto, que Milton Hatoum se insere nessa espécie de tradição ocidental da narrativa de irmãos, ainda mais de irmãos gêmeos, com o seu magnífico “Dois irmãos”.

O livro conta a vida dos irmão gêmeos Omar e Yaqub, nascidos no seio de uma família libanesa que habita Manaus. A obra é narrada pelo filho de Domingas, a empregada da família, que busca descobrir partes fundamentais de sua história através de fragmentos dessa família, composta ainda por Halim, o pai; Zana, a mãe; e Rânia, a irmã.

Da mesma forma que em outras obras de Hatoum, como “Cinzas do Norte” e “Retrato de um certo oriente”, a busca por respostas é o pretesto para nos apresentar o âmago de uma estrutura familiar cheia de contradições, conflitos e sentimentos não revelados. Yaqub é o filho que se sente preterido por ter sido enviado pelo pai para o distante Líbano, enquanto seu irmão Omar leva uma vida errante sob o olhar complacente e conivente da mãe. Halim, por sua vez, parece permanecer alheio aos conflitos fraternos, enquanto a bela Rânia assume aos poucos os negócios da família, sacrificando sua vida sentimental. Domingas, a mãe do narrador, é a velha figura do agregado, tão cara aos brasileiros, e que nunca chega efetivamente a ser família. Isso se torna importante na medida em que o narrador desconfia que entre os homens da casa está o seu desconhecido pai.

A opção por um narrador em primeira pessoa também coloca em foco o quanto ele é confiável, pois ele mesmo é parte da história. Será que Omar é mesmo um espécie de diabo encarnado, ou ele só aparece assim por que nunca gostou do narrador? Devemos ler o livro tendo isso em mente e, mais ainda, lembrando sempre que esse narrador tem o objetivo de saber quem é seu pai.

Hatoum não é dado a malabarismos estéticos -ainda que tenha flertado com certo experimentalismo narrativo em “Retrato de um certo oriente”-, mas escreve magnificamente bem. O autor consegue nos enredar aos poucos nos mistérios dessa família, ao mesmo tempo em que traça um peculiar retrato da imigração árabe no norte do país, até então muito menos conhecida do que suas vertentes paulista ou carioca. Hatoum é ele mesmo fruto de uma família de imigrantes, e seus livros são cheios de pequenos toques autobiográficos, fazendo da realidade matéria prima da ficção.

Com essa obra, o escritor conseguiu algo raro na literatura nacional: sucesso de crítica e sucesso de público. Da mesma forma em que amealhou uma penca de prêmios, “Dois irmãos” já vendeu mais de 100 mil cópias.

Tanto sucesso pode ser creditado ao fato de Hatoum conseguir contar muito bem uma história. Talvez herança de suas origens árabes, povo tradicionalmente ligado às narrativas. E, mais do que isso, Hatoum escapa dos experimentalismo linguísticos fracassados tão amplamente utilizados por parcela de nossos escritores contemporâneos, que parecem se esquecer de que a linguagem é um instrumento para contar algo, mas que, ao invés disso, fazem desse experimentalismo o objetivo final de suas obras.

Usando uma escrita clara, mas nem por isso menos misteriosa e intensa, Milton Hatoum vai conseguindo seu lugar na literatura brasileira com obras cada vez melhores, consagrando-se como um grande contador de histórias.

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