UP

“Up” é um grande filme da Pixar. Mais um, por sinal, porque nos últimos dez anos, desde que o estúdio começou sua produção de um longa anualmente, “muito bom” talvez seja o que de pior se pode falar sobre suas obras. Agora, sob a direção de Pete Docter, temos o belo encontro do velhinho ranzinza Carl Fredericksen e do encantador garoto Russel. E mais uma vez, a Pixar coloca toda a sua excelência técnica -o filme foi feito em deslumbrante 3-D- em prol de um único objetivo, que é contar a história da melhor forma possível.

O filme começa com um mocinho Carl, um menino sonhador que admira o aventureiro Charles Muntz. Um dia, ele encontra a falastrona garotinha Ellie, que também adora Muntz, e eles se tornam bons amigos. Depois, viram grandes amigos, namoram, casam, descobrem que não podem ter filhos, envelhecem, vivem uma vida alegre juntos -até a morte de Ellie. Todas essas décadas de história são contadas na primeira grande cena do filme, que resume a vida do casal em apenas alguns minutos. É absolutamente brilhante. Mas, depois, encontramos um Carl viúvo, ranzinza, habitando sua velha casa cercada por prédios altíssimos. Ele não teve a vida de aventuras que um dia desejou.

Russel, por sua vez, é um jovem escoteiro que um dia bate na porta de Carl. Ele tem que ajudar um senhor para ganhar mais uma insígnia, e vai atormentar Carl até que esse lhe dê uma tarefa. Mas o velho, cansado daquela vida, tem uma última carta na manga -infla milhares de balões que, amarrados à casa, fazem com que essa saia flutuando, colorindo a cidade -mais uma cena de dar lágrimas nos olhos-, indo rumo às cachoeiras que um dia ele sonhou visitar com Ellie. O que ele não esperava era que Russel viesse sem querer nessa estranha missão de auto-conhecimento, uma espécie de último ato de uma vida que se tornou amarga, a chance final de cumprir uma promessa para sua mulher.

Como dito acima, toda a excelência da Pixar é colocada a serviço da história. E essa, como ususalmente nas obras do estúdio, toca em vários temas, como a amizade, a eterna segunda chance, a inocência, e muitos outros, mas sem o resultado geralmente vago de quando se tenta abordar tantas coisas. Aqui, tudo é feito com muito esmero, os sentimentos são todos bem regulados, bem pensados, diálogos e personagens bem escritos. Mais uma vez, o estúdio consegue encantar tanto a garotada quanto os mais velhos. Pode-se dizer que é uma benção levar a criançada para ver algo tão interessante e belo. E, se você não tem filhos, sobrinhos, primos, não se preocupe -a marmanjada também pode se deliciar com o filme sem precisar de desculpas.

Confesso, porém, que fiquei com um pé atrás ao ter a triste surpresa de que em São Paulo só havia versões dubladas. Descobri, depois, que ainda não há tecnologia para colocar legendas em filmes 3-D. Mas não deixe que isso seja um empecilho -essa não é mais uma obra dublada por “atores” da “Malhação” ou baboseiras desse tipo. A dublagem é de gente profissional, e passa-se muito bem com o som em português.

Para os que se maravilham com esse resultado -bom, com os resultados da Pixar, na verdade-, devem saber que cada obra do estúdio é fruto de no mínimo 3 anos de muito planejamento. Ainda que feitos no computados, os desenhos são trabalhos de artesãos. Não surpreende, portanto, que a Pixar tenha sido comprada pela Disney, cujo império construiu-se sobre algumas obras de arte desenhadas de maneira artesanal, filmes inesquecíveis como “Fantasia”, “Bambi”, “A bela e a fera” e por aí vai. Não é pouco dizer que “Up” faz jus a pertencer a uma linhagem tão nobre da arte de desenhar, da arte de sonhar.

A grande sacada da Disney foi ter preservado John Lasseter no comando do estúdio. Esse homem que usa camisetas floridas e cabelos grisalhos desgrenhados é a mente inventiva por trás do sucesso da Pixar, mas, como todo gênio digno desse título, sabe que suas obras são frutos de um equipe dedicada e igualmente inventiva. O Festival de Cinema de Veneza reconhece a importância de Lasseter e da Pixar, por isso, deu a ele um prêmio especial em sua última edição. Se você duvida do merecimento dessa homenagem, veja “Up” e tente passar sem uma notinha de emoção que seja.

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  1. Parabens pelo blog
    Me decepcionei com o filme, esperava mais …. Talvez pq sempre espero da Pixar algo como Monsters Inc ou o fantástico Finding Nemo …
    Ps: é meio obvio que não tem como colocar legenda em 3D… letrinhas pulando na cara…

  2. Realmente tem passagens engraçadas…. os cachorros são bem legais… Uma outra observação …foi a primeira vez que a Pixar adotou um lado triste (morte) no seus filmes e até que foi suave…


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