ANTICRISTO

“Anticristo” é mais um filme polêmico de um diretor acostumado com as polêmicas. Quando fez o musical “Dançando no escuro”, o dinamarquês Lars Von Trier foi acusado de manipular os sentimentos do público e renegar o Dogma, movimento estético fundado por ele e outros diretores como Thomas Vintemberg e que pregava, entre outras coisas, obras que não tivessem gênero. “Dogville”, por sua vez, causou sensação com seu absoluto despojamento estético e com uma agoniante cena de estupro “consentido”. “Anticristo” é vendido como o filme de terror de Von Trier, e teve passagem negativa no Festival de Cannes desse ano, onde foi recebido a pedradas, risadas e acusações de misoginia. Se falha enquanto filme de terror, faz jus às críticas negativas. É uma obra que mexe com o público, mas não pelas razões certas.

O filme começa com uma longa cena de sexo intercalada com outa do filho do casal saindo do berço e caminhando para a morte, ao cair de uma janela aberta. À partir de então, vemos o pesado mergulho da personagem de Charlotte Gainsbourg -que levou a Palma de Ouro em Cannes pelo papel- no luto, enquanto seu marido -Willem Dafoe-, um psiquiatra, tenta tirá-la desse estado de desespero total. Em busca de uma saída, isolam-se em uma casa de campo convenientemente chamada de Éden, em uma referência óbvia ao jardim bíblico. A referência fica boba, pois sabemos que esse Éden será, na verdade, o inferno final do casal.

Dafoe representa a racionalidade, pois em nenhum momento demonstra um pesar profundo pela morte do filho, e, ainda por cima, renega os remédios dados à esposa, pois crê que só ele e sua análise racional da situação poderão tirá-la do torpor e do desespero, ainda que para isso rompa com uma das principais regras não escritas da psicologia, que aconselha não tratar daqueles próximos -ele encarna uma certa arrogância intelectual que pensa poder resolver tudo com a razão. Gainsbourg, por sua vez, faz uma interpretação à beira da histeria total, passando a maior parte do tempo alternando choros convulsivos com ataques de furor sexual.

O filme trabalha em dois registros: o real, do que acontece naquela cabana no meio do mato, e o simbólico, que aparece para justificar o cada vez mais profundo estado de alienação de Gainsbourg. Sendo assim, poderíamos pensar que Von Trier vai atuar na área do terror psicológico, mas o susto, o medo, constantemente prometidos pela música, nunca chegam. O diretor empilha cena em cima de cena, sem alcançar um efeito, um sentimento. Quando já estamos um tanto quanto enfadados pela verborragia que não leva a lugar nenhum, Von Trier nos proporciona o tão esperado banho de sangue, com no mínimo duas cenas inesquecíveis, de tão grotescas. Só que, mais uma vez, o que vemos parece surgir apenas como ocasião, e não para fazer sentido com  a história anterior.

Um dos principais problemas do filme são as cenas altamente estilizadas. A primeira, na qual o casal faz sexo enquanto o filho morre, consegue o negativo efeito de nos afastar do trauma do acontecimento. Não conseguimos entrar na dor da perda e, assim, a histeria posterior torna-se enfadonha, e não insuportável, como deveria. Se Von Trier foi acusado de manipular os sentimentos do público em “Dançando no escuro”, aqui ele peca por manter o público afastado de seus personagens.

O pior é perceber que a história, atuando nos planos do simbólico e do real, poderia resultar em algo bem mais interessante. É muito estranho dizer isso de Von Trier, um diretor tão cultuado no chamado circuito artístico, mas parece que sua obra ficaria melhor, mais efetiva, se feito nos moldes do cinemão de Hollywood. Com uma premissa muito interessante, Von Trier não conseguiu nem fazer uma obra de profundidade psicológica e nem uma obra simplesmente sanguinária, ainda que tente desesperadamente flertar com ambos.

Ao final, as cenas de agressão crua contra os orgãos genitais feminino e masculino é o que ficam na mente, o que só demonstra uma vontade final -pois o sangue só aparece nos últimos 20 minutos de filme- de tentar tocar o espectador, após o fracasso total de estabelecer qualquer empatia com o público. Só nos resta esperar por “Washington”, o esperado fecho da trilogia que Von Trier começou com “Dogville” e continuou com “Manderlay”. Torçamos para que esse “Anticristo” tenha sido apenas um infeliz intervalo na ótima produção do cineasta.

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  1. Nossa, eu achei o filme muito bom. A começar pelo prólogo que traz uma série de recursos que o deixam belíssimo: preto e branco, trilha sonora e câmera lenta. Quando vc diz que as cenas estilizadas não levam o espectador para a dor da perda do bebê, é exatamente isso que ele quer. O pai não mostra a tal tristeza esperada e a mãe se culpa durante todo o filme pelo fato de ter dado prioridade ao prazer em vez dos cuidados ao filho. Por isso que ela enlouquece também. Ela sabia que o filho saía do cercadinho, mas preferiu ter uma boa noite com o marido. Aliás, essas questões psicológicas eu achei que ele retratou bem.
    Fico ainda na dúvida se as tais cenas de mutilação são ou não desnecessárias. Claro que ele podia apenas ter insinuado isso, mas achei, digamos, corajoso ele mostrar mesmo o que aconteceu. Achei um tanto engraçadas as cenas da raposa, do cara com aquele negócio na perna e qdo ele tenta matar aquele pássaro irritante. A história é boa, não tem como negar. Nada de outro mundo, ok, mas ainda assim é boa. E tb não achei que as cenas são sobrepostas demais.

    • Ela sabia que o filho sania do cercadinho? Ela viu o filho caindo da janela, como mostra uma cena? Ela é um personagem em processo de elouquecimento, e por isso não é uma narradora confiável. A psicologia é mais psicologismo barato, e o filme não se sustenta em uma análise mais apurada. Ótima premissa, péssima realização.

    • hahaha
      deixa eu advinhar: vc pensou “humm, filme de terror, quem sabe ela não me agarra com medo”?
      pena que terror mesmo não tem…só a sanguinaria final!

  2. Nem me fala… foi uma cena constrangedora ….
    Sanguinaria final!! … desnecessária … aliás muitas cenas desnecessárias… esse filme é uma mistura de Dançando no Escuro com Irreversível …
    Gaspar Noé + Lars Von Trier = Lars Von Trier depressivo

  3. Pô, terminei de ver só hoje o Anticristo, acredita? E eu concordo com vc, prefiro a trilogia e quero ver Washington a este “badalado” filme. É uma boa crítica ao racionalismo moderno, mas mal executado e arrebata o público por cenas que atingem qualquer ser humano. As duas únicas cenas boas que vi foram a primeira, que já era por si só forte demais e achei que a suavidade como é retratada causa um bom equilíbrio, e a em que eles transam debaixo da árvore. Daqui um ano eu já não me lembro de mais nada desse filme, a não ser todas as teorias contruídas em cima do tal arrebatamento.


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