JOGO DE CENA

“Jogo de cena”, de Eduardo Coutinho, segue a seara aberta pela atual e quente discussão sobre as fronteiras entre realidade e ficção. Seria esse filme em que mulheres contam passagens marcantes de suas vidas um documentário? Mas e as partes em que atrizes encenam os depoimentos reais? Seriam essas partes ficção? Como se pode ver, Coutinho passa uma borracha nessas fronteiras, mas não para promover o batido argumento “baseado em fatos reais”, tão grato a uma certa estirpe do cinema nacional, como se fosse um espécie de selo de qualidade. Coutinho, documentarista dos mais respeitados mundo afora, está muito acima da mera mimetização da realidade.

Já de saída, o filme mostra a que veio. Começa com o depoimento de uma mulher contando como engravidou inesperadamente de sua filha, prossegue com ela contando sua segunda gravidez, então a cena corta e vemos a atriz Andrea Beltrão contando a história de onde a outra parou. As cenas se entrelaçam: uma conta, a outra reconta. Uma destrincha a morte do filho desejado com improvável resignação, a outra “interpreta” o depoimento debaixo de um mar de lágrimas -talvez o mar que esperaríamos de um depoimento desse tipo. A partir daí, pode-se proceder à análise de todo o filme.

Quem é real? A mulher resignada que conta sua história com aparente frieza, ou a atriz Andrea Beltrão, que se emociona de verdade com o depoimento que interpreta? Apesar de não ser sua história, não são os sentimentos da atriz tão verdadeiros quanto a história da outra mulher?

O que temos depois é novamente o uso desse recurso: a depoente verdadeira, intercalada com uma atriz. Coutinho, no entanto, não nos dará caminho fácil: temos então uma atriz falando, sem uma base anterior ou posterior para apontarmos qual o grau de ficção e realidade do que ela conta, e aí, então, as fronteiras estão definitivamente embaralhadas.

Coutinho faz um exercício impressionante de destrinchar a maneira como o processo criativo se dá nesses tempos de ditadura da realidade, um recurso ainda pouco usado, mas visto com maestria em filme de João Moreira Salles e na literatura de José Eduardo Agualusa. Para isso, o documentarista mostra as atrizes discutindo o processo de interpretação dos depoimentos, inclusive as reiteradas falhas e dificuldades de uma delas.

Com esse processo, Coutinho parece dizer que o importante não é o quanto aquilo que se diz na tela é real ou não, mas sim que o importante é o efeito sobre nós daquilo que vemos, independente da verossimilhança. Não importa se a mulher que rasga seu coração na tela -o que fazem todas elas, em maior ou menor grau, é exatamente rasgar o mais íntimo de seus seres para expô-los- é a dona da história. A realidade não é a da história, mas a dos sentimentos. Talvez, uma forma de dizer que essa discussão sobre fronteiras entre realidade e ficção seja uma grande balela.

Para dar seu recado final, Coutinho finaliza com uma jogada de gênio, filmando a mulher que retorna para refazer seu depoimento, achando que sua primeira entrevista foi muito triste, muito deprimente. É uma mulher querendo reescrever a realidade que antes haviamos visto e aceitado como “A” realidade, mas ela mesma quer -e pode- mudar a forma dessa realidade. Ou seja, nem a realidade é tão real assim, então o melhor é deixarmos de lado a atual fixação com essa dita “realidade” e simplesmente aproveitarmos um material humano de primeira, capaz de emocionar até mesmo uma pedra, mas que o faz debatendo com agudez certo estado de coisas atual.

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  1. “Autobiografia? Não, é um privilégio reservado aos importantes desse mundo, no crepúsculo de suas vidas e num belo estilo. Ficção, acontecimentos, fatos estritamente reais; se preferirmos, autoficção, de ter confiado a linguagem de uma aventura à aventura da linguagem(…)” (Doubrovsky)

    Ah, gostei do blog.


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