O PASSADO

Existe uma quase eterna discussão sobre as adaptações cinematográficas de livros. Por serem mídias diferentes, é óbvio que uma adaptação nunca será igual ao filme. Quais seriam os limites dessa transposição? O que seria essencial? Penso que “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, é a adaptação perfeita, pois não guarda nenhuma semelhança com o livro “O coração das trevas”, de Joseph Conrad, a não ser o clima caótico, a ideia principal. “O passado” de Hector Babenco, seria, portanto, a antítese de uma boa adaptação, pois trai mesmo o conceito da obra em que se baseia.

“O passado”, o livro, é uma obra caudalosa e verborrágica do argentino Alan Pauls, já comentada aqui. Logo de saída, a principal dificuldade de uma adaptação seria com a quantidade de detalhes que Pauls coloca em seu texto, fazendo-o quase barroco de tão detalhista. Se não se pode ser fiel a esse detalhe estético, que se seja fiel à ideia do livro, e a ideia é um homem que se crê dono de seu destino após o fim de um longo relacionamento, mas que faz apenas evitar o acerto de contas com o passado, enquanto não deixa de ser levado pelas mãos de outras mulheres, ainda que sempre assombrado por um relacionamento anterior. É essa ideia que Babenco trai.

Sofia, que no livro é uma mulher que transita entre a obstinação, a impulsividade e a obsessão, é transformada em apenas uma louca  pusilânime na horrível interpretação de Analía Couceyro, o que faz toda a diferença quando se sabe que é exatamente essa Sofia que deveria ser a força motriz da história, o combustível invisível que está sempre a empurrar Rímini -interpretação fraca de Gael Garcia Bernal- para o ponto seguinte, a mulher seguinte. Essa, portanto, não é apenas uma licença poética nos moldes de Coppola, que transportou a ação de seu filme do Congo Belga para o Vietnã -é uma mudança que faz toda a diferença e já indica o mal caminho que Babenco irá adotar. Não é preciso nem comentar todas as outras “licenças” que Babenco se permite, desde as mais inocentes, como mudar cores de cabelos, até as mais trágicas, como mudar características decisivas dos personagens.

Esteticamente o filme é outra desgraça, tentando trilhar o falso caminho da cartilha dos filmes de arte, com fotografia teoricamente belas, mas que parecem falhar totalmente, evitando o close quando esse era mais necessário, desperdiçando tempo com inutilidades e trabalhando definitivamente contra a obra. Não é apenas no conteúdo que o filme fracassa.

Mas a bomba maior está mesmo reservada para o fim. Na útlima cena, Babenco muda todo o sentido da história contada no livro, trai a essência do que Alan Pauls escreveu e faz sua própria história -muito ruim, meio canastrona até- sobre como Rímini supera o seu conturbado relacionamento com Sofia, quando é exatamente o contrário, Rímini apenas descreve um imenso e tortuoso arco apenas para voltar aos braços dessa mulher, desse fantasma do passado. A questão é se Babenco definitivamente não entendeu a obra ou se agiu com desonestidade intelectual mesmo, dando-se o luxo de usar apenas nomes e passagens dos escritos de Pauls para fazer seu estrago.

Duro mesmo deve ter sido para Pauls, depois de cometer um dos melhores livros dos útlimos anos, elogiado pelos quatro cantos do planeta, pelas mais variadas e brilhantes mentes críticas, ver uma obra tão bela, tão cheia de conteúdo e significado receber uma adapatação que é menos do que lixo. Melhor sorte para outros escritores.

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