SE NADA MAIS DER CERTO

“Se nada mais der certo”, de José Eduardo Belmonte, não é um filme que se entrega a facilidades. Você não vai ver um desfile de personagens arquetípicos, sem profundidade; você não vai ver cenas chocantes; não vai ver nudez gratuíta; não vai ver a pobreza nua; não vai ver a risada fácil. Ou seja, o filme é uma avis rara no atual cinema nacional.

O enredo é aparentemente simples. O jornalista Léo -interpretado com competência por Cauã Reymond- passa por maus bocados econômicos. Abriga em sua casa a autodestrutiva Ângela -a bela Luiza Mariani- e o filho dessa. Na busca por uma saída, seus caminhos se cruzam com os de Marcin -a ótima Caroline Abras-, traficante da área do baixo meretrício paulista, e com os de Wilson -João Miguel-, taxista depressivo. Resolvem praticar golpes para sobreviver.

A primeira das não facilidades que José Belmonte nos oferece é estética. A câmera trabalha solta, mas colada aos personagens, quase entrando dentro deles. O efeito que isso causa é incômodo, e os primeiros 30 minutos de filme são quase insuportáveis de tão angustiantes, pela sequência de fatos que se sucedem e a forma como são filmados. Essa opção por uma câmera quase sempre colada aos rostos dos personagens é o primeiro dos recursos usados para tentar mostrar o que se passa no interior daquelas pessoas, ainda que elas permaneçam um tanto enigmáticas. Mas só essa escolha já demonstra que Belmonte tem uma noção bem clara do que quer contar. A opção por fazer com que parte considerável dos diálogos seja sussurrada ajuda a manter esse clima intimista e angustiante, como se sempre estivéssemos ouvindo algo que não poderia ser dito.

Os personagens, por sua vez, são exatamente o contrário dos tipos. Sem exceção, todos são dotados de inúmeras camadas que vão se desvelando no decorrer da obra. Há uma curiosa oposição oculta entre a bela e depressiva Ângela -que alterna estados de total inércia com outros de dopada euforia-, e Marcin -que se veste como um moleque, mas tem uma sensualidade à flor da pele e se caracteriza por uma postura “elétrica” perante tudo. O fato de a primeira ser morena e a segunda ser loira já é um indicativo dessa oposição.

Léo, por sua vez, passa o filme todo escrevendo uma carta a um amigo bem sucedido na profissão. Na verdade, essa carta é um inventário de todas as frustrações de Léo, que só se acumulam no decorrer do filme. Já Wilson é um homem profundamente triste e que anseia por contato. Da união destes quatro, mais a voluntariosa empregada de Léo e o filho de Ângela, forma-se uma estranha família, que se une apenas uma vez, na praia, e, ainda que brevemente felizes, sempre haverá algo a perturbar esse grupo.

Há uma grande crise que parece pairar sobre todos os personagens. Na devida medida, existe sempre um sentimento de deslocamento, de não pertencimento, algo que desestabiliza cada uma daquelas pessoas. Curiosamente, Marcin é a única a não transperecer alguma dúvida em relação à vida, que ela vive um dia após o outro, sem questionamentos ou reflexões. No entanto, ela é a própria encarnação de deslocamento, pois passa o filme inteiro indefinida -adota um nome sem gênero; veste-se como menino, mas refuta ser chamado de garoto; tenta beijar o homem e a mulher. Ela é a representação física de uma situação de crise que atinge a todos.

O filme tambem não cai na crítica política fácil. Parte das frustrações dos personagens tem origem na situação econômica. Quando se veem nas bordas da sociedade, não pensam duas vezes antes de cair nas facilidades do crime. Léo esboça um discurso político reducionista, que cai nas categorias de rico roubando pobre, justificando o pobre roubar o rico. Mas o filme trata logo de destruir esse discurso de Léo, já que ele o faz e demonstra nojo quando um personagem conta que aplica golpes nas pessoas as mais inocentes possíveis, mas ele mesmo torna-se um batedor de carteiras e assaltante de velhinhas. Quando surge a oportunidade de partir para algo mais “ambicioso”, roubar o rico, roubar o político, ele é o primeiro a refugar. O discurso fácil -que não é só dele, mas de muitos hoje em dia, não só na ficção- não se sustenta na ação.

Essa opção pela “fácil” vida do crime tambem encontra sua crítica em Ângela que, ainda que por um breve momento, abandona sua inércia e arranja um trabalho, enquanto Léo, Marcin e Wilson vão fazendo golpes cada vez mais ousados. Léo mesmo critíca o amigo que se sujeita a trabalhar na campanha de um candidato à presidência, por esse estar supostamente vendendo sua ética e sua moralidade, mas, como dito, Léo hesita, mas não foge da vida do crime, tão anti-ética quanto o trabalho “honesto” de seu amigo.

Temos, portanto, personagens que não são meras vítimas de seus meios, escapando ao determinismo por vezer reinante na ficção brasileira. Por outro lado, eles parecem estar em busca de algo que não conseguem identificar, uma falta que não conseguem suprir, exatamente por não saberem exatamente o que falta. A fuga final -e aqui o mar aparece mais uma vez como uma metáfora do que está aberto, do desconhecido que está por vir- não é redenção, mas sim o começo de algo novo, algo que não se sabe o que é, mas que não é um ponto de chegada.

No final, tem-se uma obra que conseguiu aliar como poucas no cinema nacional contemporâneo preocupações estéticas, políticas e existenciais. Talvez por isso mesmo ela tenha vida breve no circuito nacional, ainda que conte com o galã global Cauã Reymond.

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Um Comentário

  1. fred, ainda não vi o filme mas, a cada parágrafo, parei pra tornar a sentir
    a realidade posta e ia me perguntando tbém “e se nada mais der certo?”.
    só vi o trailer depois da leitura. só por ela, é imperdível. adorei a metáfora
    do mar – “o q está por vir” – foi brilhante. realmente o determinismo não é
    a resposta pra tta falta, sabe-se lá de que. é a realidade q circunda a ttos q estão a nosso lado, não? alguma coisa precisa dar certo. são ttas…
    parabéns!


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