INIMIGOS PÚBLICOS

“Inimigos públicos” é a mais nova incursão de Michael Mann pelo cinema de ação com pitadas de brilhantismo intelectual. Mann, na verdade, vem descrevendo uma carreira bem coerente nesse quesito, desde a época em que criou o revolucionário seriado “Miami Vice” -que baseou seu último filme- até mais recentes sucessos como “Fogo contra fogo” e “Colateral”. Agora, Mann se sobressai tanto pelo radical uso da câmera digital quanto pelo garnde painel de fundo que traça para contar o embate entre duas forças que se pretendem antagônicas, mas que tem muitos pontos de intersecção.

O filme conta a história verdadeira de John Dillinger, famoso ladrão de bancos que aterrorizou os Estados Unidos na década de 1930 -não por acaso, durante o período mais profundo da Grande Depressão. Somos apresentados aos outros fiéis integrantes de seu bando, mas Dillinger, interpretado com a usual competência por Johnny Depp, é o centro desse mundo um tanto romantizado de bandidos que não matam nem roubam os clientes, apenas os bancos. Para curar a doença social representada por Dillinger, temos Melvin Purvis, um frio e eficiente policial, interpretado de maneira quase gélida por Christian Bale.

Aparentemente mais um filme de gângsters, “Inimigos públicos” se sobressai por causa de seu pano de fundo. Se por um lado não dá à Grande Depressão o devido papel que tinha na onda de criminalidade do período -furtando-se a mostrar os altíssimos níveis de pobreza na época- faz um nada sutil comentário sobre o problema de quando o combate ao crime torna-se criminoso em si. Purvis, o representante da eficiência policial, está na missão a mando de John Edgar Hoover.  E o chefe autoriza o uso de todos os meios necessários para se acabar com a criminalidade -todos os meios, sem exceção.

Hoover foi o grande chefão do FBI durante décadas. Sua gestão foi marcada pela criação de uma vastíssima rede de dossiês contra algumas das personas públicas mais importantes dos Estados Unidos, e sua intensa e tresloucada campanha contra a criminalidade logo desaguou no bem menos alentador cenário da paranóia comunista que então surgia no país. Foi por causa da intensa perseguição do FBI de Hoover, por exemplo, que Charles Chaplin abandonou os Estados Unidos na década de 1940.

A parte estética é outro triunfo do filme. Já faz tempo que Mann tem utilizado o digital com crescente ousadia. Em “Inimigos públicos” ele chega a um estado de quase desficcionalização da cena -muito propício para se filmar uma história real-, principalmente por causa das cores pouco contrastantes, mesmo apagadas. Assim, nas poucas vezes em que luzes espocam na tela, o efeito é inebriante. As metralhadoras são uma das mais constantes fazedoras de luzes nesse filme. Uma metáfora para a violência em um período de trevas? Isso aliado ao fato de que nunca no cinema os tiros soaram como aqui. É uma experiência radicalmente diferente de qualquer outro tiroteio cinematográfico.

As outras luzes que pipocam com certa frequencia são as dos flashes da máquinas fotográficas. Curiosamente, são esses flashes que vão iniciar a derrocada de Dillinger, pois quando ele se torna famoso demais, ganhando as capas dos jornais, os barões da máfia, os grandes gângsters da época, os homens que controlam a criminalidade invisível -prostituição, jogo, suborno-, mas muito mais danosa socialmente, abandonam Dillinger. Com um homem tão focado quanto Purvis no encalço de Dillinger, associar-se a ele é um risco que ninguem quer mais correr. Dillinger está sozinho, nem mesmo sua amante -a bela Marion Cotillard- escapou da danação da prisão.

Mann explora a questão da fama em um momento antológico, no qual Dillinger entra sozinho na delegacia na qual Purvis e sua equipe estão instalados. Na porta da sala de trabalho da equipe, lê-se que é uma divisão especial para pegar Dillinger – o nome do bandido na porta. Dentro da ampla sala, Dillinger passa despercebido pelos poucos policias presentes, e vê não apenas as fotos de todos os seus companheiros -mortos-, de sua amanta -presa- e a sua, mas, principalmente, depara-se com o tamanho da mobilização em torno dele. Nota-se uma ponta de vaidade em Dillinger.

Essa fama que tambem é danação atinge seu ápice na cena final do filme, quando Dillinger é morto -lembremos que a história não só é verdadeira, mas muito conhecida- na saída de um cinema, após assistir, justamente, a um filme de gângster, que retrata um personagem com uma ética muito parecida com a sua: ainda que criminoso, leal aos amigos e à amante. As circunstâncias de sua morte, na verdade, marcam tambem o momento em que o trem vingativo do FBI, de Hoover, é colocado definitivamente nos trilhos, pois Dillinger era a figura que faltava no baralho de criminosos de Hoover para justificar o crescente poder não só investigativo, mas principalmente econômico daquela instituição.

No final, a grande vítima de toda a história é Purvis. Um homem extremamente correto autorizado a usar de todos os meios para atingir os fins, mas que não tem coragem de usá-los. A cena em que Purvis interrompe o violento interrogatório da personagem de Cotillard marca a tomada de consciência de Purvis sobre o horror. Dillinger, o bandido, é capaz de amar aquele belo ser; os homens da lei, seus subordinados, são capazes de destruir aquela beleza. Não à toa, Purvis teve o fim que teve. Mas isso só sabe quem vê o filme.

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