À DERIVA

A crítica brasileira anda se queixando de que os filmes nacionais ou seguem o padrão violência/favela ou o padrão chanchada/globo filmes. Assim, um filme de temática mais, digamos, intimista, como “À deriva”, de Heitor Dhalia, deveria ser um bálsamo nesse mar de violência e mediocridade do cinema nacional. Mas não é.

O francês Vincent Cassel, que interpreta Mathias no filme, disse, em uma entrevista, que os trabalhadores brasileiros da parte técnica estão entre os melhores do mundo. Isso sobre um país que sempre teve na baixa qualidade nesse quesito um de seus maiores entraves em relação ao público. Tal eficiência deve ter raízes no primor técnico que as produtoras nacionais de filmes de propaganda adquiriram. E “À deriva” é produzido pela O2 Filmes -reconhecida mundialmente. Pena que a direção e o roteiro não estejam à altura dessa excelência técnica.

Ao contar a história centrada em uma adolescente em processo de amadurecimento e que descobre o lado não tão brilhante de seus pais, Dhalia peca pelo excesso de imagens. Sejam aqueles belos quadros que só um por-do-sol carioca (valeu a correção, Rebeca!) pode oferecer, sejam passagens absolutamente desconectadas do resto da obra, tem-se a nítida sensação de que há muita sobra. Pior do que haver sobra, é perceber que o precioso tempo do filme poderia ser usado de outra maneira. O problema não é o tempo, mas o que se faz com esse tempo. Fica-se com o gosto de praia na boca, uma vontade de mar na pele, mas só isso.

A música do filme é tão primorosa quanto as imagens, mas aqui, mais uma vez, o excesso é o pecado. Quando ninguém fala, há invariavelmente música para fazer um comentário inútil sobre a cena, sem acrescentar nada ao que se vê. Ficou de fora dessa obra a virtude do silêncio, que é mais do que a ausência de palavras. Tanto esse problema, quanto o anterior, podem ser debitados da conta de Dhalia.

O roteiro, por sua vez, não consegue fazer com a suavidade necessária o caminho que Filipa, maravilhosamente interpretada por Laura Neiva, percorre entre o que ela pensa existir e aquilo que realmente é. As pedras acabam torturando um pouco mais o caminho dessa menina, que amadurece durante um inesquecível verão. Isso para não falar de personagens e passagens inúteis. Falta a suavidade necessária para tratar de questões tão intimistas, para falar de coisas que precisam de mais do que palavras. E é uma pena que seja assim, pois a ideia da história é ótima. 

O filme tem sua melhor qualidade no elenco, que dá show. Cassel, como um escritor francês em crise está ótimo, um personagem solar que domina todas as cenas em que está. Débora Bloch também cumpre com eficiência seu papel de mãe e esposa desgostosa com a vida, que se esconde no alívio da bebida. Mas o ponto alto mesmo é Laura Neiva. A jovem foi descoberta pelo orkut. Fisicamente, é uma mistura pueril de Fernanda Lima com Carolina Dickmann, só que morena e talentosa. Se não morrer esmagada na máquina “Malhação” de fazer atrizes ou na máquina Fátima Toledo de triturar artistas, terá um grande futuro. Sua interpretação é profundamente intuitiva, na medida exata para uma garota que vai se afundando cada vez mais na confusão, mas que acha uma espécie de redenção na bela cena final. Ponto para Dhalia.

Por fim, não é o melhor filme do mundo, mas tambem não é o pior. Vale a pena dar uma olhada, pois ao menos aponta em uma direção nova -uma trilha que o cinema nacional deveria seguir-, sai da mesmice temática reinante e tenta navegar por mares inóspitos. Heitor Dhalia, que dirigiu o terrivelmente ruim “Nina” e o muito interessante “O cheiro do ralo”, derrapa no intimista “À deriva”. Mas sejamos justos -errar ousando é até perdoável.

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  1. Então, eu não concordo com vc, Fred, mas entendo que os poucos diálogos do filme tenham te desagradado. Enfim, eu não vim aqui escrever que amei o filme e que é um dos melhores da minha vida, só pra dizer que o pôr-do-sol é carioca – o filme foi gravado em Búzios!
    bj!

  2. O problema não são os poucos diálogos, mas sim que quando não há diálogo, há música, bela e muito bem feita música, mas música. Ou seja, não se dá possiblidade ao silêncio, ao mar.
    Quanto a Buzios, vc está certa: me confundi com uma amiga que trabalhou nesse filme, mas fez outro tambem na Bahia!
    Bjs.


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