A CHAVE DE CASA

Tatiana Salem Levy nasceu em Lisboa, filha de pais comunistas exilados pela ditadura, neta de avô judeu que lhe deu a chave da casa que habitou na Turquia. A personagem do livro “A chave de casa”, de Tatiana Salem Levy, nasceu em Lisboa, filha de pais comunistas exilados pela ditadura, neta de avô judeu que lhe deu a chave da casa que habitou na Turquia. Ainda assim, a escritora resiste a fazer um paralelo autobiográfico com essa personagem.

Obviamente, tantas semelhanças trazem à tona a eterna -e tão em voga- discussão sobre as fronteiras entre realidade e ficção, assunto amplamente debatido por Tatiana e outros em mesa na última Festa Literária Internacional de Paraty, comentada aqui. Nessa ocasião, a tímida Tatiana rechaçou veementemente essa parcela autobiográfica em seu livro. Quando a mediadora a questionou sobre as cruas cenas de sexo, pensei que a escritora fosse se fechar de vez, mas não se fechou.

Talvez a mediadora não tivesse lido o livro, atendo-se a detalhes, quase fofoquinhas. É claro que há uma porção da própria vida da escritora na obra. O interessante é o que ela faz com isso. E o que ela faz é literatura de alto nível, tanto formal quanto material.

Os capítulos tem durações variadas, entre poucas páginas e poucas linhas. Neles, tem-se diferentes camadas. Às vezes, estamos com a filha que acompanha a mãe doente terminal; outras, acompanhamos a mulher que se relaciona com um homem assustadoramente direto e misterioso; há a escritora em angustiante estado de imobilidade física e emocional; por fim, há a mulher que parte para a Turquia, com a chave que lhe deu seu avó, em busca de um passado distante.

Todas essas facetas se alternam de maneira desordenada e maravilhosamente bem escrita. Sejam arroubos de poucas palavras, sejam passagens mais longas, logo percebemos que acompanhamos, de fato, as várias partes de uma mesma mulher. Mas se fosse só isso, o romance seria fraco e óbvio.

A sacada de Tatiana é a forma como ela entrelaça todas essas camadas. É dessa maneira que ela efetivamente destrói as fronteiras entre realidade e ficção. Ainda que indiscutivelmente a premissa seja real, ela desenvolve a obra de forma que não pensemos no que é real e o que não é e, na verdade, fazer esse tipo de  indagação só serve para diminuir a força do romance.

Será que a história com o homem misterioso é verdadeira? Todas aquelas cenas de sexo tão sensualmente escritas aconteceram? Tatiana esteve mesmo em uma casa de banho turco onde se sentiu atraída por uma bela mulher? Essas são questões inúteis. A própria Tatiana trata de borrar essas fronteiras, fazendo habilmente com que uma camada questione passagens das outras.

O único ponto fraco do livro é que ele dá uma certa, digamos, acelerada no final. A calma no desenvolvimento, que era uma das marcas até certo ponto, parece dar lugar a uma ansiedade por resolver os diversos caminhos. Mas essa é uma obra de estréia, na qual pode-se excusar tal problema.

Exatamente por ser uma obra de estréia, a ansiedade pelo que está por vir torna-se grande. Enquanto isso, leiam “A chave de casa”, livro escrito com grande habilidade técnica, profunda análise psicológica de uma mulher, pelo qual não se passa sem se perceber que algo diferente aconteceu.

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