HORAS DE VERÃO

Muitas qualidades tornam um filme grande. Talvez a capacidade de dizer coisas profundas por meios sutis seja uma delas. Se for, “Horas de verão”, do francês Olivier Assayas, é um grande filme. É uma obra capaz de colocar em cena questões importantes e instigantes com uma imensa despretensão, tão grande que, para os desatentos, tais questões podem mesmo passar despercebidas.

O enredo é basicamente a história de três irmãos que se veem às voltas com os bens deixados por sua falecida mãe. Adrienne (Juliete Binoche) é uma designer que mora em Nova Iorque, Jérémie (Jérémie Renier) trabalha na China. A matriarca deixa, então, ao economista Frédéric (Charles Berling), o único filho que vive na França, a responsabilidade de conduzir o destino do espólio. Assim, de quando em quando esse três irmãos, afastados por milhares de quilômetros, econtram-se para, por exemplo, decidir pela venda da casa em que morava a mãe.

Mas esta não é uma simples casa. Nela residiu Paul Bethier, ilustre pintor a quem Héléne (Edith Scob) dedicou toda a sua vida. Com a morte do artista, que era seu tio, ela se transformou em espécie de guardiã da memória desse homem, cuja presença de certa forma ainda sufocava a vida de Héléne com tanta intensidade que chega-se a desconfiar de um romance havido entre ambos.

Assayas logo de saída já mostra a que veio, com o filme iniciando-se com uma longa sequência nessa casa de campo, por ocasião do aniversário de 75 da matriarca. Esta, de certa forma já prevendo sua morte, trata de distribuir funções e bens para os filhos. Tudo isso feito de maneira devidamente discreta, com a sutileza que vai ditar o ritmo do filme, exigindo de nós absoluta atenção a tudo, a todas as palavras, a todas as imagens, pois aqui, nada é de graça.

Com a morte, dois dos três filhos, justamente os mais novos e que vivem fora da França, optam por se desfazerem dos bens e da casa. Para decepção não muito velada de Frédéric, o mais velho. Dessa forma, surge uma das cenas mais fortes do filme, quando uma legião de experts entra na casa e começa a vasculhar todas as obras de arte, atribuindo valor a tudo, avaliando o que pode ser vendido e como pode, uma espécie de estupro doloroso de décadas de memórias ali guardadas. Quando a velha empregada da casa chega e Frédéric lhe oferece uma peça a sua escolha, essa velha senhora, espécie de consciência silenciosa daquele lar, escolhe uma vaso, tido como valioso por um especialista. Mas ela o escolhe por ser nele que ela colocava, periodicamente, as flores prediletas da patroa. “Não deve ter nenhum valor”, diz ela. A não ser o valor sentimental, podemos acrescentar.

Essa questão sobre o valor das coisas surge com uma intensidade quase sufocante quando o filho mais velho observa a mesa de trabalho de sua mãe exposta no Museu D´Orsay, de acordo com um pedido dela. Aquela mesa, antes atulhada de papéis, antes detentora de um raríssimo caderno de esboços de Bethier, agora está em um ambiente anódino, sem vida. Sem uso?

Além disso, o filme tambem traz embutido uma instigante observação  sobre a incapacidade de comunicação entre as pessoas. Pois, da mesma forma que Héléne parece não dar ouvido a seus filhos, esse não conseguem se ouvir, e tambem estes parecem não dar ouvidos a suas próprias crias, conflito exacerbado na passagem, aparentemente deslocada, em que a filha adolescente de Frédéric é presa furtando uma loja e portando pequena quantidade de maconha. Pois é essa menina, aparentemente alienada e desinteressada em relação à toda a cultura que sua avó acumulou -Héléne, inclusive, lega aos dois netos adolescentes os quadros mais valiosos de sua coleção, e que são leiloados-, quem dá a palavra final ao filme. Um fecho maravilhosamente poético em meio ao momento mais turbulento da película, espécie de resposta melancólica -talvez não intencional- ao esperançoso desfecho de outro grande filme europeu, a obra “Rocco e seus irmãos”, de Lucchino Visconti.

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  1. Confesso que o começo lento do filme não combinou com o horário em que fui assistir: depois do almoço. Deu aquele sono… Mas me surpreendi com o desenrolar da história. Ótimo filme. Francês típico. O final é lindo, lindo, lindo de chorar. Essa questão da comunicação está por trás da divisão dos bens de Helène e está presente no nosso dia-a-dia. Será que tem como fugir?


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