VISÕES DA FLIP

A Flip já foi. Vi algumas mesas, umas boas, outras nem tanto. Desde o interessantíssimo debate na mesa “Verdades inventadas” até o show um tanto quanto questionável da mesa com Milton Hatoum e Chico Buarque, essa é a minha visão pessoal do que ali se passou.

 

1- CONFERÊNCIA DE ABERTURA

O professor Davi Arrigucci Jr. abriu a Flip com uma palestra sobre o homenageado desta edição: o poeta pernambucano Manuel Bandeira.

A palestra de Arrigucci foi muito boa e esclarecedora. Conseguiu dar um ótimo panorama sobre a obra e a vida do poeta, sem cair no óbvio, mas também sem beirar o excessivo academicismo. Foi na medida para um público de iniciados, mas não de especialistas.

Entre os momentos mais interessantes da palestra, houve a análise de Arrigucci sobre uma série de antagonismos muto importantes na obra de Bandeira, como as oposições dentro/fora, alto/baixo, antagonismos esses cuja origem Arrigucci encontra em passagens da vida do poeta. A palavra de ordem, para Arrigucci, é alumbramento. É essa palavra, presente em alguns poemas de Bandeira, que representaria o fazer literário do poeta. Uma demonstração da capacidade que Bandeira teve de transformar uma vida de doenças e privações em produção literária de extrema qualidade.

 

2- VERDADES INVENTADAS

Essa mesa reuniu três escritores cujas obras beiram o limite entre realidade e ficção. Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues fizeram breves apresentações de suas obras. Cada uma tem diferentes porções de realidade e ficção. O livro de Tatiana, por exemplo (As chaves de casa) tem claros elementos biográficos, como tratar de uma família que, como a dela, é judia de origem turca, ou a história das chaves da casa turca guardadas por seu avó. Já Arnaldo Bloch ecsreveu “Os irmãos Karamabloch”, que conta a história dos irmãos Bloch que, na década de 1960, criaram um império da comunicação comparável ao de Roberto Marinho. A obra de Rodrigues (Elza, a garota), por sua vez, foi fruto de uma encomenda, e usa ampla pesquisa histórica e construção ficcional para contar a história verdadeira de uma jovem que foi assassinada a mando da direção do Partido Comunista Brasileiro, acusada de traição.

Cada um deu seus motivos para escrever seus livros. Tatiana, por exemplo, negou que seu livro tenha uma carga tão autobiográfica assim. Visivelmente retraída, conseguiu, no entanto, uma nova legião de fãs com a leitura de parte de seu livro, feito que levou uma pequena multidão à sessão de autógrafos, tendo principalmente seu livro em mãos, inclusive esse que vos escreve.

Já Bloch citou a necessidade de desvencilhar-se da pesada herança familiar, ainda mais para alguém que escolheu a carreira de jornalista. Rodrigues, por sua vez, como já dito, atendeu a uma encomenda.

A questão sobre a fronteira entre realidade e ficção fez parte das melhores falas da mesa. Tatiana negava a pesada carga, mas quem deu a palavra final sobre a questão foi mesmo Rodrigues, talvez por não carregar o peso de sua vida em seu livro: “O inseto de Kafka não é uma mentira – é só uma verdade monstruosa”. Disse tudo sobre essa questão que anda tumultuando debates teóricos não só na literatura, mas no cinema também. O problema é: será que essa discussão faz sentido?

No fim, essa foi uma das melhores mesas, com todos os três saindo-se muito bem nas suas falas, atraindo muita gente para a mesa de autógrafos, o que, de certa forma, serve como um termômetro da recepção da platéia ao debate.

3- DEUS, UM DELÍRIO

Richard Dawkins frequentou por um bom tempo a lista de mais vendidos no Brasil com sua obra “Deus, um delírio”, um poderoso panfleto contra o obscurantismo religioso.

Curiosamente, em edição anterior, a Flip já havia dado abrigo a outro escritor, o polemista Cristopher Hitchens, que igualmente passeou pela seara do obscurantismo religioso, mas, ao contrário das falas furiosas e irônicas deste, Dawkins usou de toda a clareza que um reconhecido cientista como ele dispõe.

O mediador Silio Boccanera não se furtou a apenas levantar a bola para Dawkins panfletar. O jornalista brasileiro apresentou questões um tanto quanto incomodas, como ao perguntar a Dawkins o que ele diria se morresse e se visse em presença de Deus. Dawkins: “Qual Deus é você”? Espirituoso.

Pode-se objetar que Dawkins estava jogando para uma torcida só, de pessoas, digamos, esclarecidas, o que pode ter tirado um pouco do poder de combustão de suas palavras. Ainda assim, o cientista não se furtou aos ataques vigorosos contra o obscurantismo religioso, e alguma de suas falas são para pensar, como quando insistiu na não existência de crianças cristãs, ou judias, ou muçulmanas ou de qualquer religião. O que há, disse ele, são crianças com pais religiosos. Essa fala representa todo o seu pensamento contra o doutrinarismo excessivo e perigoso da religião.

Acabou muito aplaudido pelo público, provavelmente pela clareza de pensamento, ainda que sem o tom explosivo de Hitchens.

 

4- MILTON HATOUM + CHICO BUARQUE

Essa era “A” palestra da Flip. A reunião entre aquele que deve ser o melhor escritor brasileiro da atualidade com o autor de um dos lançamentos mais comentados do ano e grande sucesso de público, tudo isso mediado por Samuel Titan Jr. um dos principais teóricos brasileiros de literatura.

Mais um jogo para a platéia. Tenda lotada, as laterais tambem. Parecia mais um show de rock do que uma palestra sobre literatura. A impressão era de que, não importa o que se falasse ali, todos gostariam e aplaudiriam. E foi mais ou menos isso o que aconteceu.

A leitura das obras pelos escritores já demonstrava a diferença do trabalho de ambos. Hatoum leu trechos de seu “Orfãos do eldorado”, obra que, ainda que encomendada, só veio acrescentar a sua pequena, mas incrível, produção literária. Já Chico leu um trecho de seu “Leite derramado”, obra que alguns apressados insistem em classificar como machadiana, colocando Chico como herdeiro do legado de Machado. Exagero que Hatoum, em uma ou outra palestra em universidades pelo Brasil, tratou de retificar, ao fazer algumas críticas duras à produção de Chico. Mas lá eram todos amigos.

A palestra, por sua vez, foi lenta, demorou para engrenar, e prendeu-se demasiado às filigranas do fazer literário de cada obra. Sinceramente, quem não leu os livros, ficou boiando.

Hatoum parecia visivelmente constrangido, pois sabia que aquele enxame de gente não estava todo ali para vê-lo. Uma legião de chicólatras invadiu Paraty. Como Chico é sim uma grande artista, mas com um ego devidamente controlado, ele igualmente mostrou-se um tanto retraído.

No final, o que se viu foi uma palestra que não empolgou, não entregou o que prometia. Mas o público não se importou. À mera fala de que seriam distribuídas senhas para a sessão de autógrafos, uma massa de espectadores levantou-se e correu para a tenda onde ocorreria a sessão, proporcionando deprimentes cenas de furação de fila. Foi o momento baixo da Flip, pelo menos entre os que eu vi.

 

5- GAY TALESE

Talese é um dos papas do jornalismo norte-americanos -e, por que não, mundial. Sua palestra foi muito esperada. Com moderação do jornalista Mario Sérgio Conti, o que se viu foi um pequeno espetáculo de verborragia desenfreada. Por parte tanto de Talese quanto de Conti.

Para se ter uma idéia, foram feitas apenas três perguntas durante toda a palestra. Todas elas longas perguntas, demasiado longas, por sinal, às quais se seguiram ainda mais longas respostas. Sinceramente, não era preciso um moderador. Bastava colocar uma cadeira e falar: Talese, conta aí sua vida.

Talese falou sobre sua família, ítalo-americanos que, durante o dia, torciam pelos Estados Unidos na Segunda Guerra, mas que, durante a noite, acompanhavam com muito interesse os destinos da Itália durante o conflito. Essa história, disse Talese, ensinou-o que há sempre mais por trás do que as pessoas falam. Para ele, isso justificaria seu processo de manufatura de matérias, mundialmente famoso, que consiste em uma imersão radical no assunto a ser tratado.

Isso, por sinal, rendeu o melhor momento da pelstra. Conti, em mais uma longa pergunta, questionou Talese sobre a obra que ele está escrevendo, sobre sua vida com sua esposa, na qual aborda 50 anos de casamento, devidamente registrados em cartas guardadas desde sempre. Conti questionou a visão que o público teria dele e de sua esposa, pois há histórias de traição de ambos os lados, sendo que Talese frequentou, inclusive, casas de massagem e orgias para escrever seu famoso livro “A mulher do vizinho”, um retrato da vida sexual norte-americana na década de 1970.

Talese ficou visivelmente desconcertado. Ele, que destilou com extrema segurança uma metralhadora de palavras, tornou-se errante, hesitante, medindo meticulosamente cada frase. No final, fez a defesa desse seu método de imersão, dizendo, inclusive, que uma pessoa pode efetivamente se cansar de fazer orgias, como uma maneira não só de aliviar o peso de suas ações, mas de aliviar o peso que elas tinham para sua mulher.

Para um homem que durante toda a palestra fez questão de ressaltar suas raízes cristãs, foi interessante ver Talese se enrolando todo para justificar seu passeio com o diabo.

 

6- ANTONIO LOBO ANTUNES

Quando o mediador Humberto Wernek começou a palestra com uma longa e muito veneradora fala, pensei comigo: isso não vai bem. Quando, após a chatíssima introdução, Lobo Antunes começou, a pedidos de Wernek, a divagar sobre suas origens familiares, que remontam a um avó nascido no Brasil, aí pensei: putz, lá se vai pelo ralo a oportunidade de ver o que dizem ser um grande escritor indo pelo ralo. Besteira. No final, estavam todos maravilhados, inclusive a imensa massa -na qual me incluo- de pessoas que nunca leram uma palavra escrita por Lobo Antunes.

Reconhecidamente um autor hermético, Lobo Antunes apresentou-se um homem de fala mansa, controlada, destilando grandes gotas de inteligência e ironia, um exímio contador de histórias, admirador de obscuros poetas brasileiros do século XIX.

Fez troça de seu alvorecer literário, quando, na tenra idade, seu avó millitar o chamou e perguntou: “Ouvi falar que fazes versos. Mas você é veado”? Daí em diante, Lobo Antunes empilhou uma grande frase atrás da outra, uma grande observação atrás da outra.

Falou sobre o fazer literário, discorreu -sem nenhuma modéstia- sobre as ambições que deve ter qualquer escritor, contou o problemático início de carreira, quando não encontrava ninguém disposto a publicá-lo. Esses foram, resumidamente, os pontos-chave de sua palestra. Mas que domínio da palavra!

O público percebeu que ali não estava um simples homem. Foi aplaudido de pé por uma legião de novos fâs, que logo correram à livraria para comprar uma obra sua. Apenas alguns sortudos, no entanto, conseguiram seu autógrafo. Eu sou um deles. Agora só me resta lê-lo. Hehehe.

 

No balanço final, a Flip foi muita boa. Em comparação com a edição anterior que eu fui, em 2007, houve, a meu ver, um excesso de gente menos interessada em literatura, e mais interessada no alcance midiático do evento. Não sei se esse é um caminho muito seguro pelo qual deva ir a Flip. Não defendo com isso um elitização do evento, mas sim a preservação deste, para que fique mais no literário e menos no festival. Até porque, Paraty é uma cidade linda, fantasticamente aconchegante, mas não sei até que ponto ela aguenta uma invasão de tal proporção nas suas terrivelmente desconfortáveis e charmosas ruas de pedras.

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  1. Pô, Fred, belo resumo! Tinha pensado em fazer isso, agora só vou pôr um link pro seu blog e vou deixar a crítica chata no meu…hehehe. Valeu, compartilho de todas as opiniões. Bj!

  2. a minha saudosa parati, tão cultural pela própria natureza não pode mesmo se perder pela força midiática. boa lembrança a sua. fiquei
    imaginando a mesa-mãe com chico e os badalos juvenis – ou não –
    pelos cantos. querer que a flip não perca sua veia literária não vejo
    como elitismo. talvez tenha sido mais atípico esse ano pela obra de
    nosso chico. ou pela sua presença? excelente síntese até mesmo do
    não lido. brs

  3. Pingback: AS CHAVES DE CASA « letra e cena


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