O passado

Pode-se dizer que “O passado”, do argentino Alan Pauls, é a anatomia de um amor morto, mas não enterrado. Com uma escrita profundamente incisiva, quase barroca, Pauls narra o fim do relacionamento de doze anos entre Rímini e Sofía e o que se segue a essa pequena catástrofe pessoal.

Quando o casal perfeito se dissolve, a surpresa é geral. Sejam os amigos, os parentes ou mesmo a mentora intelectual de Sofía. Ninguém podia acreditar que aquele relacionamento pudesse um dia acabar. Mais ainda, ninguém poderia suspeitar que aquele fim era uma escolha racional, tomada por uma mulher extremamente forte e por um homem incrivelmente fraco. Se Rímini acha que o fim é uma forma de liberdade, ele só sai da relação para viver um longo e delirante período sob a sombra dessa morta, que parece sempre voltar para atormentá-lo.

Pauls manipula com excelência as idas e vindas do tempo, escreve com uma riqueza de detalhes impressionante os descaminhos percorridos por Rímini -o foco é no homem apesar da presença quase massacrante das mulheres- e nos faz sentir um misto de pena e ódio desse personagem tão fraco e tão dependente do outro.

Logo após o término, Rímini entrega-se a uma torrente delirante de trabalho, uso de cocaína e masturbação. Parece ter atingido a tão sonhada liberdade quando começa a se relacionar com Vera, uma jovem extremamente impulsiva, capaz de falar as maiores barbaridades por ciúmes e eternamente dilacerada pela presença ausente de Sofía. Eternamente porque ela terá um fim trágico antes que Sofia desapareça.

Depois há Carmem, a companheira de profissão, aquela que o acompanha na dramática perda da capacidade de traduzir, ofício que exercia tão bem. Carmem lhe dá um filho, mas nem assim Rímini consegue se livrar de Sofía, cuja presença, mais uma vez, levará ao fim da relação.

Pauls narra assim um espiral que vai do término do relacionamento com Sofía até uma espécie de entrega final de Rímini frente àquela presença sufocante. No meio do caminho, a vida de uma pequena constelação de mulheres maravilhosamente descritas vai sendo mudada por esse casal que não existe mais, tudo pontuado pelas tumultuosas e surpreendentes aparições de Sofía, como um fantasma a atormentar Rímini. A escrita de Pauls é verdadeiramente impressionante e, ainda que nos assustemos com as 478 páginas da edição da Cosac & Naify, é com grande prazer e intensidade que se mergulha nelas.

Há, inclusive, uma espécie de novela dentro do romance, um capítulo que narra a trajetória de uma obra do artista Jeremy Riltse, praticante de uma arte plástica baseada na automultilação e que tem importância crucial na memória afetiva de Rímini e Sofía. Na verdade, tal capítulo poderia ser perfeitamente suprimido, mas serve como uma espécie de exercício virtuosístico. Incrível.

O único ponto que me incomodou -e incomoda- é que, apesar do estilo barrocamente detalhado, no qual os menores lances adquirem crucial importância, um fato tão importante tenha sido deixado para ser revelado apenas na porção final do livro. É impossível não ser tomado de estranheza ao ver o autor sacar tão inusitadamente uma parcela do passado de Rímini para dar continuidade à história e levá-lo ao quarto relacionamento sexual -não amoroso- do livro, com a insatisfeita e casada Nancy. Leiam e confiram.

De qualquer forma, apesar do inusitado dessa situação, a obra é uma composição impressionante de um escritor que demonstra pleno domínio de seu estilo e total controle sobre os descaminhos que traçou para Rímini, levando o personagem a um verdadeiro “tour de force” que não exatamente o leva ao autoconhecimento que tais processos costumam alcançar.

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  1. não li o livro, mas q brilhante e motivadora crítica. imagino que a busca pelo passado de rímini seja mesmo uma solução estrutural na narrativa,
    para dar conta da vida de um homem no meio de tantas mulheres.
    o último encontro não seria o rencontro com a própria mãe? abrs

  2. Pingback: O PASSADO « letra e cena


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