OS FALSÁRIOS

 

Há tantos filmes de holocausto que se pode dizer que tal tema tornou-se quase um gênero em si. Talvez porque esse evento tão traumático seja tanto um testemunho sobre a maldade humana quanto um repositório de pequenas histórias maravilhosas em meio ao mais profundo horror. “Os falsários”, de Stefan Ruzowitzky está no segundo tipo, narrando a passagem de Salomon Sorowitsch pelo campo de concentração.

Salomon não é um prisioneiro qualquer. Ainda que judeu, ele foi preso antes de posta em funcionamento a máquina da morte nazista. Salomon era um famoso falsificador de dinheiro -o maior, diziam alguns- e vivia uma vida de excessos antes de ser preso na Berlim pré-guerra. Com o tempo, acaba tendo o destino de todo judeu que estivesse em mãos de nazistas, o campo de concentração. É da vida miserável de um campo que Salomon vai ser retirado para executar uma serviço inusitado -falsificar moedas dos países aliados. Para isso, ele é alojado em uma ala, digamos, mais benevolente do campo, onde os outros judeus participantes do processo de falsificação gozam de privilégios tais quais banhos, comida e música.

O chefe do campo, o homem que pescou Salomon do horror e o colocou no “paraíso”, é o mesmo que o prendeu anos antes. Por isso, ele sabe sobre o talento de Salomon, e logo o cerca de regalias maiores do que as dos outros. A partir daí, o filme desenvolve-se basicamente em duas linhas -as relações entres os judeus “privilegiados” e os sentimentos desses em relação aos judeus que estão fora da área isolada onde trabalham, e que estão sujeitos aos piores horrores que o nazismo poderia proporcionar -e que só aparecem, dramaticamente, uma vez.

Surgem os mais diversos personagens. Temos o idealista que considera uma traição trabalhar para os nazistas e que clama por uma revolta; há o comandante judeu da operação; o jovem artista por quem Salomon desenvolve afeição; o banqueiro que hesita trabalhar com Salomon por esse ser criminoso comum; o médico. Mas é Salomon o personagem mais instigante. A interpretação de Karl Markivics nos entrega um homem desconfiado, de poucas palavras, de olhar arguto e observador. Salomon parece estar sempre indiferente ao destino dos seus colegas, mas ainda assim é capaz de pílulas insuspeitas de companheirismo. Por um lado, é um individualista convicto, preocupando-se apenas em sobreviver; por outro, é capaz de pequenos heroísmos. Enfim, um homem contraditório, nada maniqueísta.

Na verdade, maniqueísmo é o grande ausente do filme, uma qualidade em se tratando do tema do holocausto, no qual é tão fácil apontar monstros e inocentes. Nem os judeus falsários são todos santos, nem o nazista que comanda a operação é todo monstro, ainda que haja um nazista que é a encarnação do diabo. O fato de a história se focar em judeus em condições especiais, sendo homens nutridos, levando uma vida quase normal, já mostra o tratamento diferenciado que a película dá ao tema.

O filme começa com Salomon hospedando-se no cassino de Monte Carlo. Depois desenvolve-se o longo flashback que conta a sua história. O fim é no mesmo cassino. Um fim belíssimo e surpreendente, diga-se de passagem. Assim, esse não é apenas mais um filme de holocausto, mas sim é uma grande e emocionante narrativa sobre homens apanhados pela máquina aniquiladora da história. Talvez isso justifique o Oscar de produção estrangeira que o filme levou em 2008, ainda que se possa desconfiar do gosto dos velhinhos de Hollywood, que adoram uma boa história de holocausto.

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