Anatomia da ficção

agualusa

O Brasil tem aberto relativo espaço à literatura africana de língua portuguesa. O moçambicano Mia Couto é, por enquanto, a face mais reconhecida dessa onda -ou marola. Talvez por sua escrita um tanto etérea e inventiva em termos de linguagem, que nos remete de imediato a Guimarães Rosa, influência assumida de Couto. Seu amigo angolano José Eduardo Agualusa, por outro lado, situa-se em um registro menos inventivo em termos de linguagem, mas não menos interessante enquanto história contada.

Em seu romance “As mulheres de meu pai”, Agualusa conta a busca de Laurentina, filha de imigrantes angolanos, por suas raízes, já que, no leito de morte, sua mãe revelou que ela era adotada. Nessa volta à África, Laurentina leva junto Mandume, seu namorado, também descendente de africanos, mas que rejeita essa influência adotando postura profundamente portuguesa e ocidental. Quando chegam ao continente africano, juntam-se a eles o sobrinho de Laurentina, Bartolomeu, e um misterioso motorista, Pouca Sorte. Juntos, esses quatro personagens saem em busca da história do pai de Laurenita, Faustino Manso, músico angolano famosos, amante das mulheres e que percorreu toda a Àfrica Austral, deixando uma constelação de rebentos pelo caminho.

A grande diferença entre a escrita de Couto e Agualusa é que o angolano mostra uma Àfrica mais urbana. Por suas, palavras visitamos grandes cidades africanas, com suas misérias e seus eventuais luxos, ainda que não estejam excluídas certas mágicas passagens por lugares um tanto quanto misteriosos. Outra coisa interessante da obra de Agualusa é sua constante referência ao cenário cultural da parte sul do continente, colocando, inclusive, o próprio Mia Couto e sua esposa no relato.

A grande sacada do livro, no entanto, é alternar relatos ficcionais com pedaços de uma espécia de diário de Agualusa em uma viagem pela Àfrica Austral. Aos poucos, sabemos que Agualusa fez a viagem, junto com a documentarista inglesa Karen Boswall e o fotógrafo holandês Jordi Burch, buscando as locações para um projeto de filme que os dois primeiros tinham em mente. Ao relatar, em pequenos enxertos em formas de diário, passagens desse processo, Agualusa põe a nu o próprio processo de escrita. As coisas vistas aqui, logo se tornam matéria para ficção mais adiante. Mais ainda, por vezes a realidade mostra-se mais exuberante e misteriosa do que a ficção, lembrando-nos que a vida ainda pode ter sua parcela de mistério e magia.

O livro desenvolve-se, em sua porção ficcional, em um habilidoso mosáico de relatos. Cada personagem narra uma parte, um capítulo, e a obra é composta de pequenos e muitos desses capítulos. Aos poucos vamos vendo a busca de raízes -intencional para Laurentina, ocasional para Mandume-, o triângulo sensual que se forma entre esses dois e Bartolomeu, o desvendamento passo a passo do mistério de Pouca Sorte.

Ao fim, desse grande cenário surgem grandes questões, como a òbvia sobre identidade, a oposição entre Europa e Àfrica, a modernização por vezes perniciosa do continente. É um livro que atravessamos com um pé no maravilhoso e outro na putreda realidade.

Agualusa merece mais espaço entre nós.

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