Um passado para Antonio

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“Antonio” é o terceiro livro de Beatriz Bracher, uma das fundadoras da editora 34. Nele, o personagem Benjamim -às voltas com o nascimento de seu primeiro filho, Antonio- busca conhecer uma parte obscura do seu passado. Assim, a obra é uma reconstrução da memória por meio dos relatos de três personagens -a avó, Isabel; Haroldo, amigo de seu avô; Raul, amigo de seu pai-, que contam, de maneira alternada, as histórias de uma família assombrada por um grande segredo e por relações complicadas.

A história surge, portanto, em pedaços, impedindo-nos de saber a realidade inteira, apenas abrindo espaço para a realidade que cada relatante conta, de acordo com suas lembranças e julgamentos dos fatos, expostas de modo direto, como se fôssemos nós mesmos esse Benjamin a descobrir o passado. O recurso narrativo é o grande destaque do livro, mas, também, sua grande falha.

Rodrigo Lacerda escreve na orelha da obra que a escritora “consegue um ótimo resultado. Ela evita diferenças esquemáticas e traços de fala óbvios demais em cada um de seus personagens”. Pois bem, a diferença de tons e temas é que acaba por enfraquecer o esforço narrativo da obra. Seria possível trabalhar-se com diferentes narradores que utilizam diferentes vozes e diferentes temas para falar sobre um mesmo assunto, sobre pontos de vista diversos. Para usar o exemplo mais agudo de todos, William Faulkner abrilhantou esse recurso com seu “O som e a fúria”, mas nem seria preciso ir tão longe: Milton Hatoum foi igualmente feliz no uso desse recurso em “Relatos de um certo oriente”.

No livro de Beatriz, no entanto, todos os narradores falam igual. As diferenças vêm apenas dos julgamentos que cada um deles faz sobre o mesmo assunto. Mas aquela uniformização da voz acaba por tirar parte da lustrosidade trazida pela diferenciação narrativa. Assim, reconhece-se quem fala não por sua voz, mas por aquilo que fala. A experiência parece incompleta.

A obra, que ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti e em segundo no Portugal Telecom, justifica o interesse levantado pela forma como aborda o tema da memória e das relações familiares, usando um relato fragmentado e direto, falando diretamente ao leitor, tornando-o parte de um experiência quase exasperante. O uso de um certo paralelismo entre a história do pai e do avó de Benjamin apenas acrescentam maior interesse ao escrito. Mas, ao final, parece que o projeto estético do livro ficou incompleto, não alcançando sucesso total. Talvez por isso não ter sido primeiro nos citados prêmios. Quem sabe…

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