A agonia de Kym.

rachel

Na década de 1990, Jonathan Demme fez um grande filme que dissecava as entranhas psicológicas dos Estados Unidos. Sim, porque “O silêncio dos inocentes” vai muito além do mero thriller de serial killers, abordando uma América machista, insegura e conservadora. Depois, Demme parece ter perdido a mão -e a relevância na sétima arte. Agora, com “O casamento de Rachel”, o cineasta parece mostrar que ainda tem cartas na manga. 

O filme centra-se na história de Kym, que sai de uma clínica de recuperação diretamente para o centro do turbilhão que é o casamento de sua irmã, Rachel. A casa de seu pai, onde acontecerá a cerimônia, está lotada, a música é constante, há sempre gente falando e indo para todos os lados, e Rachel parece não se encaixar muito bem nauqilo tudo. 

Isso acontece por que há um grande elefante branco no meio da sala da família, sobre o qual poucos querem falar, ou mesmo lembrar, mas que ainda assim está presente, sendo percebido aqui e ali, com notas de muita emoção e rancor -Kym foi a responsável pela morte do irmão mais novo, em uma cidente de carro, enquanto dirigia drogada. 

Há sempre olhares para Kym, que variam entre o acusador, o de pena e o condescendente. Ela, por outro lado, quer passar despercebida, mas, ao memso tempo, chama a atenção, sempre que pode, para o drama que vive. É uma situação muito paradoxal: uma pessoa que não quer ser lembrada por sua tragédia, mas que, a todo momento, lembra a todos sobre o que aconteceu, em uma tentativa desenfreada de buscar uma normalidade. 

O roteiro de Jenny Lumet é brilhante. Não há concessões nem espaço para sentimentalismos. Tudo é tratado com muita crueza, e a verdade parece ser a tônica das palavras ditas por todos os personagens. Isso, associado à direção irriquieta de Demme, criam um clima intenso, no qual tudo parece sempre estar a um centímetro de despencar. Assiste-se ao filme com um constante sentimento de risco, uma quase torcida para que não aconteça o pior. 

O roteiro, por sinal, esscapa da solução fácil de ambientar a história em uma família conservadora, ou, no mínimo, tipicamente americana. Ao invés disso, vemos pessoas muito liberais e educadas, das mais diversas cores e opções sexuais, mas todas sempre com um julgamento nos olhos ou nas palavras. 

Em um filme tão denso, os atores cumprem papel fundamental. Assim, a mais grata surpresa é Anne Hathaway, que, de rostinho bonito em Hollywwod, tornou-se atriz incrível sob a batuta de Demme. Ela encarna Kym com a medida certa de desprendimento e rancor, sem excessos nem faltas. Perfeita. 

As outras interpretações também estão na medida. Rosemarie DeWitt dá o tom certo para uma Rachel que tenta dissimular o rancor pela morte do irmão, ao mesmo tempo em que esbanja a felicidade de uma noiva. Bill Irwin sai-se muito bem como o pai condescendente, que a todo o tempo tenta agradar e fiscalizar Kym, sempre à espera do pior, mas que, aqui e ali, deixa-se dominar pela tristeza. Por fim, Debra Winger está gélida no papel da mãe, dando show nos poucos minutos em que aparece. 

Demme faz uma bela autópsia de uma família em processo acelerado de desagregação, que tenta a todo custo esquecer as tragédias do passado, juntar seus cacos e seguir em frente. Ele é muito feliz no resultado, pois, apesar de “O casamento de Rachel” ser eminentemente um filme de palavra, não é pelo que diz que se destaca, mas sim pelo que não diz. 

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