Homem deitado

bolano

Faz mais ou menos dois anos desde que ouvi falar pela primeira vez de Roberto Bolaño. Os críticos tinham o chileno na conta de gênio. Fui conferir e li seu livro “Noturno do chile”. Não sei se ele é gênio, mas essa obra realmente é fora de série.

O texto é o longo relato de um padre, Sebastian Urrutia Lacroix, que está a beira da morte, eternamente prostrado em sua cama. A urgência do fim iminente faz com que o velho pároco faça um longo monólogo sobre toda a sua vida, desde a infância até o momento final.

Urrutia, além de padre, acaba entrando de cabeça na vida literária chilena pela mãos de Farewell, o maior crítico literário do país. É preciso dizer: Farewell é uma invenção. Isso porque o padre vai encontrar-se com diversas figuras verdadeiras do cenário cultural do Chile, inclusive com Pablo Neruda, retratado de maneira meio irônica.

Destaca-se o tom da narrativa. Às vezes vacilante, às vezes milimétricamente detalhada, Urrutia usa de artifícios como a irônia e ausência de emoção para contar fatos tão diversos quanto sua passagem pela Europa e o período em que deu aulas de marxismo para a Junta Militar que derrubou o socialista Salvador Allende.

Outra coisa que ressalta nesse relato é a postura passiva de Urrutia, que é incapaz de tomar posições políticas, preso, de certa forma, ao seu amado mudinho literário, mais do que à batina. A passagem em que relata as reuniões na casa de uma chilena, casada com um norte-americano, arrepiam os nervos quando sabemos que os porões daquela mansão guardavam um terrível segredo.

A narrativa é muito hábil, ainda mais quando se sabe que o livro é composto de apenas dois parágrafos, sendo que o primeiro vai da primeira até a última página do livro. Tal recurso só evidencia a urgência do monólogo.

Urrutia vai abrindo camadas e mais camadas de fatos, como se descascasse uma imensa cebola, descrevendo, mais do que analisando, aquilo pelo que passou. Mas o presente faz aparições esparsas durante a narrativa, na forma dos delírios do moribundo e de seus diálogos de surdo-mudo com um certo “jovem envelhecido”, que merece sua repulsa.

O final do livro é amargo e o segundo -e último- parágrafo, composto por apenas oito palavras, é simplesmente fabuloso, certeiro como uma faca afiada, antológico. Um fecho perfeito para um texto que parece neutro, mas que na verdade narra a decadência de um homem e de uma nação que se tinham em alta conta.

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