O princípio de tudo

Jorge Luis Borges é o mais injustiçado escritor do mundo. Reconhecido mundialmente, só os distintos membros da Academia Sueca lhe negaram o prêmio Nobel. Perde o prêmio, porque Borges é um fantástico escritor, talvez aquele que tenha levado o conto a suas experiências mais radicais. A Companhia das Letras está relançando suas obras completas, e é em nova edição que eu tive acesso a “Ficções”, o livro que colocou Borges no cenário literário mundial.

“Ficções”, lançado em 1944, na verdade é o apanhado de duas obras menores, “O jardim das veredas que se bifurcam” e “Articícios”. Ainda assim, há uma grande coesão temática entre os contos ali reunidos. Destacam-se, logo de início, temas que seriam caros ao resto da obra Borgiana, tais como a identidade, a biblioteca, a memória. O que se tem então é um apanhado de pequenos contos que se inserem no que de melhor a literatura mundial já produziu. Inclusive, logo de saída, Borges já constrói clássicos como “Pierre Menard, autor do quixote” -que discute a autoria literária-, “A biblioteca de Babel” -que usa metaforicamente a biblioteca como significando a vida-, “O jardim das veredas que se bifurcam” e muitos outros.

O que se percebe nessa obra é que Borges é um artífice. Nada em sua escrita é gratuíta. Na verdade, ele já mostra sua genialidade estilística em um conto metalinguístico -“O exame da obra de Herbert Quain”- que trata da produção literária de um escritor, toda ela baseada em surpreendentes jogos de espelhos, pelos quais se avança e retrocede-se conforme as escolhas feitas durante a leitura. Assim é o escritor argentino, conciso, mas sempre parecendo jogar com os leitores um jogo onde tudo parece real, mas no qual reina o artifício.

Borges já tinha uma produção anterior, notadamente sua obra poética e livros escritos a duas mão com seu grande amigo Bioy Casares. “Ficções” situa a temática de toda a produção posterior do argentino e, por isso, serve de excelente porta de entrada para ainda não iniciados que, certamente, não vão se furtar a conhecer o resto deste castelo borgiano.

 

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