Gosto de maresia

O irlandês Jonh Banville ganhou o prestigioso “Man Booker Prize” em 2005. Se não fosse por isso, dificilmente eu leria um livro dele, afinal, nunca tinha ouvido falar do sujeito, ainda mais nesse oceano interminável de escritores e obras, no qual poucos se salvam. Mas ele ganhou e eu o li.

Li “O mar”, a obra que botou Banville no meu radar. E o livro realmente é uma pequena obra prima, digna de ganhar o prestígio internacional que ganhou (veja só, chegou mesmo a escavar um lugar na nossa indecente lista de mais vendidos, usualmente freqüentada por porcarias…).

Viajando no tempo entre passado distante, passado próximo e presente, vemos Max Morden narrar fatos de sua vida. Do passado distante, o período em que conviveu com casal de gêmeos Grace -a enigmática Chloe e o literalmente calado Myles-; do passado recente, o narrador nos descreve os momentos finais de sua falecida mulher e a convivência problemática com a filha; do presente, temos Max de volta à casa momentaneamente habitada pelos Grace naquele longínqüo verão, agora transformada em pousada e dirigida por Mrs. Vavasour.

Destaca-se no livro a narrativa de Banville, capaz de dar gosto ao escrito. As passagens à beira-mar, na qual Max primeiramente contempla a matriarca da família Grace, o alvo inicial de seu afeto, e aquelas nas quais está com os irmãos, conseguem realmente trazer-nos aquele gosto de sal e o cheiro de pele ao sol. Até a luminosidade, sempre muita branca, quase como uma névoa, Banville consegue nos passar. Outro triunfo narrativo é a crueza das palavras de Max, que consegue nos dizer as coisas mais doces e as mais terríveis sem julgamentos, ou sem pontas de raiva. Ele apenas fala, com uma sinceridade aguda. Assim é, por exemplo, quando ele fala à filha sobre o médico que uma dia o tocou nú, ou quando, de maneira para nós quase insuportável, descreve a mesma filha como feia e fracassada. É muita crueza, mas sem tornar o narrador cruel.

Ao longo do livro, ele descreve os detalhes do verão passado, a trasferência de seu afeto da mãe para a filha, o convívio complicado com Chloe -jovem impetuosa e manipuladora- e com Myles -o irmão mudo e de atitudes agudas- e como tudo isso veio a influir em sua vida.

Em outro registro, Max narra a descoberta da doença da esposa, a única personagem da obra a quem dirige um verdadeiro e doloroso afeto, a forma como se conheceram e viveram. Nesse mesmo passado recente há o encontro com a filha, para mim a melhor passagem do livro. Sem entrar em maiores detalhes, é um primor da descrição de tudo que existe de não-dito entre duas pessoas, entre dois seres que falharam de alguma forma no meio do caminho, e não se tornaram aquilo que deveriam ser. Arrisco dizer que essa passagem valeu o prêmio ao livro.

Finalmente, no presente Max narra a volta ao lar alugado pelos Grace, onde ele vai para sublimar o passado -o recente e o longínqüo- sob o pretexto de escrever uma obra sobre o pintor Bonnard. Ali, ele convive com Mrs. Vavasour (mrs. é a abreviação para senhorita em inglês, o que denota a solteirice da mulher, detalhe importante ao qual só atentei no final) e com um misterioso coronel, que habita o quarto em frente.

A obra é uma viagem memorialística, em busca do detalhes que às vezes perdemos no meio do caminho, mas que são importantes na definição daquilo que somos. Como já dito, a narrativa é primorosa, muitas vezes prendendo o leitor, e capaz de fazê-lo lembrar suas próprias praias passadas. O único porém é que o livro se resolve de forma meio apressada no final. Há revelações que são feitas e que nos eletrizam para descobrí-las, mas o fato de estarem todas muito próximas das outras acaba por tirar-lhes o sabor do impacto, o que de forma alguma diminui o prazer da leitura. É apenas um detalhe que me chamou a atenção, e que pode ser coisa de leitor ranzinza…Ainda assim, fecha-se “O mar” com a impressão de se ter lido algo belo, algo grande, algo que perdurará para além da lista de “best sellers”.

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