A força do caos

“Ensaio sobre a cegueira” era o filme com o qual Fernando Meirelles queria iniciar sua carreira cinematográfica. José Saramago, autor do livro, negou-lhe os direitos. Fez bem. Talvez o brasileiro estivesse verde demais para filmar uma obra tão complexa. Mas será que agora ele já estaria suficientemente maduro para a empreitada? “Mais ou menos” é uma boa resposta.

O grande mérito do filme é captar o clima de caos presente no livro. As imagens que vão aparecendo aos nossos olhos são cada vez mais impressionantes, tudo muito bem temperado pela magnífica fotografia do uruguai Cesar Charlone, habitual colaborador de Meirelles desde “Cidade de Deus”. As luzes estouradas, os jogos de câmera, tudo é feito para nos dar a sensação de como seria a tal cegueira leitosa, que um dia atinge um homem parado no semáforo, e depois se espalha por toda uma cidade -será que pelo mundo? isso não fica definido no filme.

Os personagens não tem nome, e uma boa sacada de Meirelles foi ter contado com pessoas das mais variadas matizes étnicas, desde a típica caucasiana norte-americana até o casal de orientais. É quase um apanhado da raça humana colocada em cena. E essa é a história do livro, extremamente ilumista, e que questiona o quanto de solidariedade e de humanidade ainda existe em nós. Essa pequena tragédia é contada pelo olhos da mulher do médico -os personagens do filme, assim como no livro, não tem nomes-, a única capaz de enxergar no centro em que os cegos vão sendo cofinados. Ali, afastados da visão de todos, todos começam a adotar posturas que nunca adotariam em situações normais. Alguns andam nus, outros defecam o chão, e outros transformam-se em verdadeiros fascistas. Por sinal, esses últimos rendem a cenas mais grotescas do filme, o auge da humanidade perdida.

Se a obra capta muito bem o já citados clima de caos que passa a reinar, tanto dentro do confinamento quanto fora dele, o roteiro fracassa ao estabelecer as ligações humanas entre os diversos personagens. Por conta disso, fica sempre a impressão de que há um fio meio solto, algo que falta, basicamente, um mal desenvolvimento daqueles presentes no filme. Nisso, nem as notáveis atuações de Gael Garcia Bernal, Juliane Moore, Mark Rufallo e Alice Braga conseguem se salvar. Simplesmente há quebras de desenvolvimeto dos personagens.

Outro ponto falho é a narração em off, feita pelo personagem de Danny Glover. A versão atual não é a mesma que estreou -com recepção fria- em Veneza. Umas das principais mudanças foi exatamente nessa narração, antes muito mais presente. O problema é que ela agora aparece em dois momentos, tornado-se deslocada e sem muito sentido no contexto. Pior ainda, aparece na cena final, declamando literalmente as palavras finais do livro. Basicamente, há uma explicação desnecessária do fecho, que seria perfeitamente exprimível por imagens, como, por sinal, ocorre. Então, para que essa narração em off?

Saramago viu e gostou. Se o autor da obra literária aprovou, deve ser porque, no mínimo, Meirelles captou a essência do livro. E isso ele realemnte conseguiu. Mas faltou a carne. E isso empobrece o resultado. Ainda assim, assistir a “Ensaio sobre a cegueira” é uma experiência visual pela qual é impossível passar incólume.

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  1. estou lendo suas resenhas e críticas literárias e posto aqui, vendo-me
    absurda em minha cegueira. continue fred. texto leves, prazeirozos com
    sabor de quero mais. estimulante para buscar o não visto ou lido ainda.
    abrs


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