Elogio do compromisso

William Faulkner foi o cronista da decadência do sul norte-americano. Seus livros são cheios de personagens errantes, à beira da destruição, tudo cheira a velho e mofado, como coisas perdidas em um tempo que não é o delas. “Palmeiras Selvagens” é uma de suas grandes obras, mais uma vez explorando seres marcados por extremo desprendimento. Só que aqui, o desprendimento vem acompanhado de um quase angustiante compromisso.

Basicamente, o livro narra duas histórias, alternando-as nos capítulos, sem vínculos aparentes uma com a outra. De um lado, temos o romance de Charlotte e Harry. De outro, um condenado negro, apanhado por uma enchente no rio Mississipi -há algo mais sulista que uma enchente no Mississipi?- enquanto prestava trabalhos forçados, e que se vê “preso” a um barco, junto a uma mulher grávida. O casal já vive um romance sob o signo do proibido desde o princípio -Charlotte tinha um relacionamento quando conheceu Harry, médico mediocre e fracassado. A história mostra o casal isolando-se cada vez mais no interior dos Estados Unidos, em busca de uma vida simplória, um quase desligamento do mundo urbano que ambos habitavam, em busca de um amor pleno, que só pode ser vivido pelos dois, e somente por eles, sem que mais ninguém nem nada interfira. Logo de cara, sobressai a forma como Charlotte apresenta-se forte e resoluta, enquanto Harry é quase uma vítima de sua inércia. Ambos partem nessa desventura, mas é ela quem comanda o processo. Já o condenado, poderia fugir a qualquer hora, abondonar o barco, deixando a mulher grávida sozinha. Mas não o faz.

O que liga as duas histórias é exatamente esse senso quase suicída de comprometimento. No caso de Harry e Charlotte, com conseqüênncias fatais; no do condenado, as conseqüências são de vida. Mas, em nenhum momento, os personagens abandonam suas resoluções iniciais, não importando os resultados. A forma como esse fatalismo é descrito por Faulkner é extremamente impressionante. As cores são vivas, as descrições, detalhadas, os diálogos, certeiros.

Faulkner escreveu outras grandes obras, como “O som e a fúria”, ou “Enquanto agonizo”, e “Palmeiras Selvagens”, sem dúvida nenhuma, faz jus ao Nobel que o escritor americano ganharia em 1949. Entenda o comprometimento e o sacrifício de uma forma que nenhuma porcaria de livro de auto-ajuda poderia mostrar.

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