Do outro lado do oceano

 

Sempre ouvi falar que o moçambicano Mia Couto era um legítimo herdeiro de Guimarães Rosa. Mais ainda, ouvi o próprio escritor africano, na FLIP do ano passado, afirmar seu parentesco literário com Rosa. Pois bem, “Terra Sonâmbula” parece fazer jus a essa fama.

Nele estão elementos muito típicos da literatura roseana: as palavras achadas na boca dos seres simples, as histórias com fundos maravilhosos, a exploração de aspectos quase folclóricos de uma determinada parcela da população.

A obra narra a luta pela sobrevivência do velho Tuahir e do menino Muidinga, no meio da devastação da guerra civil que assolou Angola por quase trinta anos. O primeiro capítulo talvez seja um dos mais antológicos da literatura moderna mundial, e, se dizem que é possível saber o valor de um livro pela sua primeira frase, esse certamente tem lugar garantido no panteão. “Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada”. Isso por si só já situa totalmente a obra, seu contexto e espaço. E é nessa estrada morta que ambos encontram uma mala com as histórias de Kindzu.

Lidas pelo garoto para o velho, ficamos sabendo como Kindzu deixa sua casa para buscar tornar-se um guerreiro, acompanhamos seus percalços, sabemos de muitas histórias incríveis, e é nesta parte que o livro mais se filia a Guimarães Rosa. É possível encontrar ecos de “A terceira margem do rio” ou de “A benfazeja” nessas passagens narradas por Muidinga. Se no diário encontrado temos a parcela de fantasia que cabe à obra, os capítulos sobre o jovem e o idoso são verdadeiros mergulhos na terrível realidade de uma terra devastada.

Toda a narrativa é permeada pelos grandes achados linguísticos do escritor. São termos e construções extremamente sonoras, mas que não comprometem o entendimento do que se lê. Um providencial glossário no final explica as palavras mais regionais. As histórias folclóricas que permeiam um livro tambem dão uma grande idéia da riqeuza de uma cultura extremamente roal, na qual os ensinamentos são passados peos mais velhos para os mais jovens. É quase irônico, então, que aqui as histórias sejam contadas pelo mais jovem para o mais velho.

Mostrando tremenda habilidade narrativa, Mia Couto começa a mesclar realidade e fantasia: onde tudo era suave crescem espinhos, e onde doíam os dias faz-se seda. No fim, a obra mostra-se um círculo perfeito, com um fecho de primeira, muito surpreendente, e que deixa em nós a nítida sensação de termos lido algo grande, algo de durará por muito tempo. Sorte do mundo que o espírito de Rosa encontrou abrigo do outro lado do oceano.

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