América profunda

 

Esqueça os Estados Unidos rico que se vê na tela. Na verdade, esqueça tambem os Estados Unidos pobre. O que se vê em “Bubble”, de Steven Soderbegh, é a América como nunca antes vista. Tudo é modorrento, devagar quase parando. As pessoas são feias, pobres, inarticuladas e meio catatônicas. Ao contrário de outros fimes que tentam mostrar o que existe debaixo de tanta riqueza, esse não usa do menor artifício para tal. Na verdade, seu naturalismo cru é sua maior virtude -até a música simples ao máximo realça um ambiente pra lá de estéril.

O filme gira em torno do jovem Kyle e de Martha. Ambos são empregados em uma fábrica de bonecas, e ela dá carona ao jovem até o trabalho.  Lá, eles conversam sobre nada durante o intervalo e levam suas vidas modorrentas. A chegada da bela e irriquieta Rose desestabiliza a dupla. Kyle logo se sente atraído pela jovem; Martha se sujeita a prestar diversos favores a ela, ainda que tenha vários afazeres, como outros empregos e cuidar do pai debilitado. O mais curisoso é que Rose, a única personagem que tráz algum movimento à tela, com seu jeito rápido de falar e a sua, digamos, “espaçosidade”, é assassinada, de uma forma que lembra muito o Mersault de “O Estrangeiro”, de Camus. O final não é nada surpreendente, mas nem se propõe a sê-lo. Não espere reviravoltas como nos filmes normais sobre crimes. Esse é uma cópia quase fiel da vida real, e nela tudo é óbvio e os assassinos sempre são aqueles de quem primeiro suspeitamos.

Soderbegh é um caso curioso no cinema americano. Surgiu com um clássico do cinema independente -“sexo, mentira e videotape”, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes-, mas logo fez amizade com um estrelado círculo de atrizes e atores. Desde então, alterna blockbusters, como “Onze homens e um segredo”, com filmes mais, digamos, fora do normal, como esse aqui e “Solaris”. Mas “Bubble” atinge o auge da simplicidade cinematográfica, e essa aparente pobreza é sua maior virtude.

Não é uma grande filme, certamente não vai entrar para a história da sétima arte, mas com certeza não é algo pelo qual pode-se passar incólume. No mínimo vale por isso -mostrar uma América profunda, como nunca antes mostrada.

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