Novo Kundera?

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Adam Thirwell apareceu em 2003 como a grande promessa de literatura em língua inglesa. Naquele ano, a prestigiosa revista Granta -que, por sinal, agora tem edição nacional- elegeu-o como um dos 20 melhores escritores britânicos. Ainda em 2003, Adam publicou “Política”. Para muitos, foi a promessa se confirmando.

O livro conta a história de um triângulo amoroso formado por Moshe, Nana e Anjali. De cara, salta aos olhos a questão étnica, pois Moshe é um judeu que tece vários comentários em relação à sua religião, enquanto Nana é uma típica britânica e Anjali tem ascendência indiana. O livro vai contando, de maneira não-linear -na verdade, quase um apanhado de situações e apontamentos-, o relacionamento entre esses personagens, aos quais se soma a figura do pai de Nana. Apesar do nome, a política é uma questão apenas incidental à história -mais tarde voltaremos a ela.

Houve quem comparasse o livro à obra “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. Nessa comparação, “Política” exala todos os seus problemas. A obra de Kundera tambem é temperada com muita sensualidade, mas é na política que as diferenças se mostram. Enquanto em Kundera a política é pano de fundo -e, às vezes, protagonista-, em Adam ela surge quase como uma espécie de intermezzo à história principal. Lembro-me principalmente da antológica passagem em que o escritor tcheco fala da ligação entre o ato de defecar, as paradas militares do mundo comunista, o kitsch e Deus e o homem. Certamente Adam não alcança momentos tão brilhantes, e não chega nem perto da profundidade filosófica de Kundera. Seus apontamentos políticos não são parte fundamental na trama -por vezes, ficam mesmo deslocados nela, quase que sem uma função a cumprir-, sem falar na estranha fixação do autor com a figura de Stalin, o personagem político por excelência do livro.

“Política” realmente se sobressai quando limita-se a falar de relacionamentos humanos. Para isso contribui a figura central do narrador, que apresenta-se onisciente e sempre a tecer comentários sobre o que lemos, quase dirigindo a nossa interpretação e demonstrando profundo afeto por seus personagens. O narrador mesmo fala que essa é uma obra sobre a bondade e, na verdade, talvez seja sobre ele, e apenas sobre ele, que fala o livro.

“Política” certamente não é a grande obra que alguns apregoram ser, e Adam Thirwell não é o fantástico escritor que alguns esperavam ser -está aí a relativa irrelevância em que caiu para provar-, mas, o livro deixa-se ler com prazer, pois,em suas boas passagens, tem algo importante a dizer.

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