O filho pródigo

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Raduan Nassar é um caso interessante da literatura brasileira. Filho de tradicional família fazendeira do interior paulista, iniciou muitos cursos, mas não terminou nenhum -assim como fez com sua carreira literária, feita de dois livros e um silêncio de mais de duas décadas. “Lavoura arcaica” é a primeira obra publicada por Nassar e veio a público em 1975.

O livro conta a história de André, também filho de uma família tradicional, que vive sob a sombra da autoridade paterna. Na primeira parte narra-se o processo de retorno de André para a casa paterna, sendo ele buscado por seu irmão mais velho, que o tenta convencer a voltar. A narrativa é confusa, perturbada, cheia de não-ditos e incertezas. É uma espécie de adaptação da parábola bíblica do filho pródigo que ao lar retorna. Contrastando com ela há a segunda parte do livro, na qual André encontra-se de volta. Vê-se a tirania paternal em toda a sua força, descobrem-se os motivos da inquietude do personagem principal, tudo narrado de uma maneira mais equilibrada e clara do que na primeira parte, até o final trágico do livro.

A obra apresenta desconcertantes relações com a biografia do próprio autor. Ambas as famílias são árabes; a figura paterna tambem era um presença forte na vida de Nassar; passagens do livro remetem a passagens da vida de Raduan; sua irmã era bela, assim como a irmã de André, fruto da desgraça familiar no livro. Isso pode levar a perguntas do quanto de biografia há no texto, ainda que toda obra carregue inevitavelmente características de seu autor. Seria a história contada uma espécie de expiação da vida de Raduan?

Em outro post aqui eu havia falado sobre uma tendência da literatura brasileira de narrar a dissolução da estrutura patriarcal. “Lavoura arcaica” é sem dúvida um dos mais brilhantes romances dessa escola não declarada da produção literária nacional. Mais do que isso, é uma das obras brasileiras mais importantes do século passado. Sim, isso o coloca ao lado de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e outros monstros sagrados. O que há de interessante aqui é a talvez ausência de influências passadas na obra, bem como de reflexos na produção nacional posterior. Por isso a sua singularidade, que ainda merece ser mais bem explorada pelo parco público leitor tupiniquim.

Hoje Raduan vive em uma das propriedades da família, onde se refugiou depois de escrever seu segundo e último livro, “Um copo de cólera”. Sem razão aparente, largou uma promissora carreira literária e hoje se dedica a uma das coisas que confessadamente mais gosta de fazer: descansar.

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Um Comentário

  1. meu caro, gostei do teu blog, da foto do faulkner e das tuas preferências literárias. posso dar dois palpites? primeiro: escreva com menos formalidade, me parece que escondes o que tens de melhor. segundo: vc não comenta aqui do “a menina a caminho”, tudo bem que é um conto, mas virou livro e assim ajuda a gente a catar mais uma migalha que o raduan nassar deixou… (ou mais adequado seria dizer, catar o milho que ele deixou para as galinhas…)
    beijo.


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