Ficção e realidade

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O “Urso de ouro” em Berlim definitivamente consagra “Tropa de elite”, o filme muito visto e discutido de José Padilha. É um filme fascista? É uma obra crítica à polícia? Eu, pessoalmente, fico com a última interpretação. É um filme bom, que trás a visão da polícia sobre a situação do Rio de Janeiro, e que tem como maior mérito chamar a classe média a sua responsabilidade. É lamentável, no entanto, que grande parte do público não perceba o dilema nem tanto moral, mas físico do capitão Nascimento, um homem que cumpre seu dever da forma mais eficiente possível -porque é o seu dever-, mas que está cansado de integrar a linha de frente da guerra. Passa despercebido a grande parte dos espectadores que tortura é sim uma forma de corrupção, e que a história acontece em 1997 e a tropa de elite já não é tão incorruptível asssim. No geral, em que pese a bela interpretação de Wagner Moura, é um filme normal, sem nenhuma grande novidade formal ou material. Muito mais impressionante é o filme anterior de Padilha, o documentário “Ônibus 174”.

Nesse filme, o diretor conta o episódio do sequestro do ônibus 174, também no Rio, marcado por uma atuação completamente equivocada do mesmo Bope, que levou à morte de uma refém -com um tiro da polícia- e do sequestrador, que entrou vivo no camburão e chegou morto na delegacia. Padilha conta paralelamente ao seqüestro a história de Sandrinho, o criminoso. Sobrevivente da chacina da Candelária, praticada por policiais alguns anos antes, Sandro cumpre seu calvário, sendo finalmente morto anos depois pelos mesmos policias que fracassaram antes. Tudo ao vivo, na frente das câmeras. Como diz um colega de crime de Sandro, mataram-no ali, na frente de todo mundo, e ninguém fez nada. Mas Sandro é um bandido.

O que fica é a consagração pública da ficção “Tropa de elite” frente ao fracasso nos cinemas do documentário “Ônibus 174”. Por que? Será a ficção mais palatável ao cordial público brasileiro? Será que nos interessa mais ver uma polícia vingativa a perceber o assassinato de um criminoso? Não sei. Só entendo que em toda essa discussão sobre “Tropa”, fascismo, polícia e outros temas, em nenhum momento falou-se sobre o filme anterior de Padilha, esse sim uma obra de arte, um chute no estômago da sociedade brasileira, um verdadeiro estudo sobre a psicologia social do país, uma película em que ninguém se salva e todos têm sua parcela de culpa -um fracasso de público.

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