Os últimos dias de Sophie

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No documentário “Eu fui a secretária de Hitler”, Traudl Junge diz que, ao passar pelo memorial em homenagem a Sophie Scholl, percebeu ter tido a opção de seguir um caminho diferente daquele que seguiu na década de 1940. Em 1943, Junge tornou-se a secretária de Hitler -Scholl foi morta como traidora pelo sistema nazista.  Essa última história é contada no curto, mas denso, filme “Sophie Scholl – Uma mulher contra Hitler”.

Scholl e seu irmão, Hans, faziam parte do grupo oposicionista Rosa Branca. Naquele ano, os nazistas estavam na fase descendente de sua sangrenta aventura imperialista -perdiam milhares de homens por dias nos campos de batalha soviéticos-, e é nesse contexto que o grupo resolve fazer uma protesto anônimo na Universidade de Berlim, a fim de mostrar que as coisas não iam tão bem quanto mostrava a propaganda do regime. Mas algo dá errado e os irmão são presos com mais um manifestante. A partir de então, o diretor alemão Marc Rothemund bota na tela os interrogatórios, o patético processo legal e, por fim, a execução dos três conspiradores. Tudo isso durou apenas seis dias.

Scholl demonstra durante todo o processo uma retidão muito parecida com aquela mostrada por Robert Bresson em “O processo de Joana D´Arc”. Em nenhum momento Scholl recua da sua posição, apesar de em várias situações serem-lhe apresentadas saídas que não a pena de morte -assim como saídas são apresentadas à Joana D´Arc de Bresson. Ainda assim, Scholl aferra-se firmemente aos seus ideais, à sua oposição a um regime que ruia sob os pés dos orgulhosos membros do partido.

A cena do tribunal, onde os três são julgados de maneira quase sumária, chega quase à comicidade por baixo de toda sua tragédia. Um juiz que acusa aos berros -a acusação nem precisa se manifestar- e uma defesa silenciosa. O que resta é uma debate de surdos no qual o presidente do tribunal berra histericamente em nome do regime, enquanto Hans e Scholl fazem defesas corajosasa, mas constantemente interrompidas. Quando Hans fala sobre a situação no front soviético -ele serviu lá como médico do exército-, é perceptível a movimentação de parte do oficialato que assiste ao julgamento; uma espécie de reconhecimento da veracidade do relato.

O que fica é a loucura do sistema nazista, bem como uma outra visão sobre a posição da sociedade alemã na época -ela não era incondicionalmente à favor do regime; na verdade, esse ano marca o surgimento de vários pequenos movimentos de insurgência. Ainda que Sophie às vezes apareça demasiado idealizada e sem falhas, a premiada interpretação de Julie Jentsch é magnífica, sempre entre a resignação e a certeza da sua posição, ainda que suicída. Sim, Traudl Junge tinha uma opção.

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