A ditadura delicada

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Falta ainda ao Brasil aquele grande filme que fale sobre o período da ditadura militar. O Chile já abordou sua ditadura de maneira muito interessante em “Machuca”; a Argentina, apenas quatro anos depois de deposto o violento governo militar, fez o contundente “A história oficial”. “Dois córregos”, de Carlos Reinchenbach, talvez seja a obra que melhor abordou o tema no país, ainda que a ditadura apareça apenas como pano de fundo -e que pano!- para uma história muito interessante em primeiro plano.

O filme trata desta mulher, interpretada por Beth Goulart, que volta à casa da família no município de Dois Córregos. Ela vai lá expulsar grileiros que invadiram o local, com o intuito de vender a propriedade. No caminho, ela se vê no meio de um turbilhão de lembranças de umas passadas férias na casa, quando ela finalmente conheceu o irmão de sua mãe de quem tanto ouvira falar.

Vanessa Goulart interpreta a jovem. Carlos Alberto Riccelli é o tio. O encontro entre os dois é inicialmente seco, pois o homem não demonstra nem de perto a emoção que a sobrinha esperava haver no encontro. O personagem de Riccelli é marcado pela luta armada, que aparece incidentalmente em flashbacks narrativos, bem como pela angústia da distância em relação aos filhos que deixou para lutar por ideias -ou por amor, quem sabe. Completam a casa Ingra Liberato, como irmã de criação de Goulart, e Luciana Brasil, que faz a amiga de Goulart, uma brilhante e arrogante pianista -por sinal, filha de coronel. O filme desenvolve a relação entre esses personagens.

No decorrer da película vemos os jogos intelectuais entre o tio e a pianista, a crescente aproximação de tio e sobrinha, o amor com toques proibidos entre Riccelli e Ingra. Mais do que isso, há personagens fundamentais que são apenas citadas pela memória do homem, mas que são fundamentais para entender o contexto da obra -o pai bondoso de Goulart, a mãe iracunda da menina, a mulher pintada em tons escuros de Riccelli, todos eles vão surgindo nas descrições do tio.

No final temos uma obra sólida, extremamente bem interpretada e que, se trata a ditadura apenas lateralmente, a traz como cenário principal da relação entre os personagens. Uma pequena obra prima, infelizmente subvalorizada, que fala sobre as memórias dessa mulher.

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