Malandros e merdunchos

joaoantonio.jpg

Sabe todos aqueles escritores “marginais” da Praça Roosevelt ou da Vila Madalena? Pois então, tudo o que eles gostariam é ser João Antonio, o homem nada alternativo da foto de cima. Se hoje a linguagem coloquial é a regra dos que dizem fazer arte fora do “mainstream”, os temas têm que ser os marginalizados e a violência, tudo isso já fazia João Antonio lá na década de 60. “Leão-de-chácara”, um livro com 4 contos do autor, é um belo exemplo disso.

João era jornalista e paulista, mas viveu também no Rio. Daí um conto do livro se passar em Sampa e os outros três na cidade maravilhosa.

No conto que dá título ao livro, o autor narra a história de um leão-de-chácara que comete o grande pecado da profissão: apaixona-se por uma garota da casa. O narrador em primeira pessoa faz um apanhado de toda a fauna que frequenta as boites cariocas. O segundo conto narra as desventuras de um homem que sai com as cunhadas para comprar presentes de natal. Na linguagem tipicamente coloquial da narrativa percebe-se todo o enfado daquela missão terrível para um homem vencido pela vida. O terceiro narra a história de um malandro tipicamente carioca: Joãozinho da Babilônia. Mas o conto mais impressionante é o último -Paulinho Perna Torta.

Narrado em primeira pessoa, conta a história de Paulinho, que se cria menino pelas ruas de São Paulo. Acompanha o trabalho do garoto num boteco, as andanças de bicicleta -supremo momento de liberdade-, seus amores e seus crimes. Desfila toda uma gama de malandros que sobrevivem, de violências policiais, de falcatruas, tudo vivamente enriquecido pelo relato extremamente real, que nos faz quase ir atrás para saber o que ali é verdade e o que não é. Um brutal retrato desesperançado de um homem que sabe ter seu tempo na terra contado e que, pior ainda, advinha atrás dele tantos outros querendo seu lugar. Um conto incrível, bem ao gosto dessa literatura marginal, mas infinitamente superior ao que se produz atualmente.

No fim, o livro é um belo apanhado de tipos e de grandes histórias, com uma grande vantagem em relação à tal literatura marginal atual: João Antonio, nascido na pobreza paulista, jamais deixou de ferquentar os piores antros das duas cidades em que morou. O que escreve, e o jeito que escreve, ele o faz com profundo conhecimento de causa, e não como um sociólogo charlatão de mesa de bar.

“Leão-de-chácara”, João Antonio, ed. Cosac&Naify

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s