O mundo é cinza

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“Munique” fala sobre a reação de Israel ao assassinato de toda a delegação olímpica daquele país por terroristas palestinos em 1972, durante os jogos de Munique. Existem dúvidas sobre a veracidade da história. Teriam os israelenses realmente montado um comando secreto para caçar as lideranças palestinas, identificadas como terroristas? Um ex-agente do Mossad, o serviço de inteligência israelense, escreveu um livro dizendo que sim. E é essa história que nos conta Steven Spielberg.

Avner é o dedicado agente israelense convocado a montar um time de especialistas para executar os responsáveis pelo atentado de Munique.  Ele recruta os mais diferentes tipos para a missão: o homem de ação, o das finanças, o fazedor de bombas e o que some com os rastros do crimes. E assim esse time de apátridas vai executando sua missão, utilizando informações passadas por um misterioso grupo francês, que afirma não servir a ninguém, apenas ao dinheiro, deixando um rastro de sangue nos mais diversos países por que passam.

O impressionante do filme é que ele foge daquela definição de preto e branco, já citado abaixo no post sobre “Crash”.  Aqui, os homens não são meros soldados. Eles têm que conviver com as suas cada vez maiores dúvidas sobre a ética da missão. O grupo vai se desfazendo no caminho do seus sucessos e os caçadores finalmente tornam-se a caça. O filme não nega nem mesmo a complexidade do panorama internacional, como na cena em que so israelenses vão matar um lider palestino em Londres, mas descobrem que esse está sob a proteção de outra força tão ou mais forte -a CIA. E chega a colocar o ex-primeiro-ministro israelense Byniamin Netaniahu vestido de mulher para executar a mais sangrenta das missões.

Alguns afirmam que o filme é uma crítica aos Estados Unidos do pós-11 de setembro. Luiz Carlos Mertem, crítico de “O Estado de S.Paulo”, diz que o filme termina uma trilogia crítica aos americanos, iniciada com “O Terminal” e continuada com “Guerra dos mundos”. Não acho que esses dois filmes tenham tanto conteúdo político assim. Já “Munique” é uma paulada em todos os maniqueísmos que imperaram nos Estados Unidos depois dos atentados. A última cena do filme é exatamente as torres gêmeas dominando o “skyline” novaiorquino. E aí ficam várias perguntas sobre tudo o que se viu em tela: foram éticas as atitudes? valeram os custos humanos da caçada? o mundo ficou mais seguro?Às vezes olhar o passado é a melhor forma de entender o presente.

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  1. A bela descrição perdoa o uso do pedestre recurso retórico do olhar o passado para entender o presente.

    Gostaria apenas de fazer uma observação que, talvez, por motivo de espaço e de preferências do autor, faltou na descrição deste belo filme: o drama humano da personagem principal é ao mesmo tempo o drama de duas nações. A primeira e mais evidente é Israel e a segunda os Estados Unidos.

    Avner é um cidadão comum, um cozinheiro (ou gourmet, como queiram), tendo cumprido com o seu tempo no serviço militar obrigatório israelense, que agora se encontra em vias de se tornar pai e consolidar a sua família. Estivesse ele em outro país provavelmente a história de Avner continuaria monotemática.

    Todavia, ele é um cidadão israelense. Há em Avner uma sensação de dever para com a pátria. Sem dúvida, o cumprimento deste dever é constantemente questionado por Avner, chegando a ser relutante. Nada mais normal, pois gostaria ele de ter a liberdade de ser aquilo que resultasse de suas escolhas pessoais, não de uma imposição, de uma necessidade.

    De certa forma Avner é a metáfora de Israel: um Estado que se indaga constantemente sobre seu perturbado estar-no-mundo, pois se ao mesmo tempo aspira à liberdade e democracia, estas se encontram limitadas pelas imposições e limitações de um constante estado de beligerância e tênue segurança.

    No que se refere aos Estados Unidos, este drama hamletiano, desde 11 de setembro de 2001, é imposto a esta nação com o dilema de qual caminho a se tomar.

    Avner opta por sua família, por sua integridade, por seu futuro. Para isso teve de ir aos Estados Unidos e, neste país, em Nova Iorque. Qual será a escolha dos Estados Unidos, permanecer numa caçada a inimigos incertos e nesta busca por vingança, perder-se? Ou será que se manterão íntegros às suas aspirações do passado por liberdade, democracia e paz?

    Talvez o caminho de Israel não tenha mais volta; mas os Estados Unidos ainda podem optar por outro, por enquanto.

  2. estou escrevendo anos após ter visto o filme e o que mais me ficou dele foi a constante busca de identidade de avner e o drama que vive, a cada
    ação cumprida, em nome do estado. a busca se deve, talvez, por não ter outra opção, a não ser cumprir o que sua mãe – nem me lembro em que parte do filme- lhe diz ser a honra da família e q ele não abandone. brilhante interpretação – independente do ótimo roteiro – que nos segura
    na poltrona até o fim.

    durante todo o filme, me veio à cabeça a questão de israel, enqto nação
    – “via avner” – sem que se mostrasse necessário um coadjuvante yanke,
    para questionar a ação americana.

    o “recurso pedestre”, ironicamente, é mantido no final da crítica acima, por luisto, ao se remeter ao “drama hamletiano” vivido pelas 2 nações.

    ótimo filme. ótima resenha.


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