Entre a cruz e a espada

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 “O vermelho e o negro” foi escrito por Henri Beyle, mais conhecido por seu pseudônimo, Stendhal. A obra inaugura o realismo psicológico francês, mas só teve seu valor reconhecido muito tempo depois de publicado.

O romance apresenta-se como uma “crônica de 1830”, e isso faz toda a diferença ao situar a obra historicamente. Esse foi o ano em que uma vaga de revoltas liberais sacudiu a Europa. A França também foi palco de mudanças com a queda de Carlos X. A coroação de Luis XVIII marca um grande retrocesso conservador. É nesse contexto que se mexe Julien Sorel, filho de carpinteiro pobre e que procura, a todo custo, a ascenção social. Torna-se padre (o negro da batina), mas vive uma nostalgia dos tempos guerreiros napoleônicos (o vermelho dos uniformes), onde alguém com seu talento poderia galgar degraus sociais ainda sob a névoa da revolução burguesa francesa. Assim como o próprio Napoleão galgou.

Na sua luta pelo crescimento social, Sorel envolve-se com duas mulheres: a burguesa e madura sra. de Rênal e a aristocrata e jovem Mathilde de la Mole. Pela primeira, nutre uma paixão quase espiritual e, sintomaticamente, ela é esposa de um burguês que deve a sua ascenção política à revolução. Pela segunda, Sorel alterna amor e ódio, uma relação quase adolescente por alguém que representa a classe conservadora por definição. É entre esses dois amores que se desenvolve a insistente busca de posição social de Sorel. No caminho, ele despeja uma série de críticas ácidas à sociedade da época, todas devidamente temperadas com altas doses de angústia e amargura, não sobrando quase ninguém, na vasta palheta de personagens, que não tenha sido alvo de suas estocadas. É o desmonte de muitas das máscaras sociais vigentes.

A genialidade da obra está em captar um momento muito peculiar da França, no qual a sanha revolucionária foi substituída pelo profundo conservadorismo. Sorel, que teria todas as possibilidades do mundo no fluido mundo napoleônico, encontra-se renegado de seu destino pelo tempo em que vive. O personagem que mais merece sua admiração é justamente o revolucionário que aparece fugido da América, o novo mundo onde se refletiam as agitações européias. À parte isso, Sorel vive essa nostalgia do que deveria ter sido, em eterna insatisfação com o que é. A capa da edição da CosacNaify apresenta um Napoleão vencido, forçado a abdicar pelas forças restauradoras. Poderia ser Julien, abatido pelas forças da história.

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