WATCHMEN

Setembro 2, 2009 por fredericokling

Muito se discute sobre qual lugar os quadrinhos deveriam ocupar na cultura mundial. Uns dizem que devem ficar no status de arte pop, julgamento que relega-os a uma posição cultural inferior. Outros afirmam que quadrinhos são sim uma expressão artística legítima e de qualidade, ainda que sempre haja as exceções, assim como em qualquer outra forma de arte. “Watchmen”, sem dúvida, ajuda a posicionar os quadrinhos em uma posição cultural elevada.

A história surgiu da união da inquieta mente do roteirista Alan Moore com o traço certeiro de Dave Gibbons, aproveitando-se de um punhado de heróis que a editora DC adquiriu ao comprar os direitos de uma editora menor do mercado. O primeiro criou o argumento, que parte da premissa de que os heróis são apenas pessoas normais, com problemas normais e que afetam decisivamente o mundo a sua volta, ainda que haja espaço para algumas passagens para lá de extraordinárias, mas plenamente justificáveis. Gibbons, por sua vez, se não insere nenhuma grande novidade com seu traço clássico, é capaz de sutilezas de enquadramento e de detalhes dignas dos melhores diretores de cinema.

A história começa com a morte do Comediante, um dos poucos vigilantes autorizados pelo governo a atuar -uma lei proibiu a atividade dos mascarados. O crime chama a atenção de Rorschach, uma figura paranóica que atua na clandestinidade e contra a lei. Ele entra em contato com seus antigos companheiros de máscaras, pois crê que o assassinato não tenha sido apenas um crime comum, teoria que vai ganhando força na medida em que outros ex-vigilantes são atacados.

Sob essa premissa, Moore fez um imaginativo exercício contrafactual, criando um mundo no qual os Estados Unidos servem-se dos poderes incríveis do Dr. Manhattan -um homem comum atingido pelo manjado truque do acidente atômico- para desequilibrar a balança da Guerra Fria. Assim, os soviéticos ficam em constante estado de prostração política, permitindo, inclusive, que os norte-americanos ganhassem a Guerra do Vietnam e reelegessem muitas vezes mais Richard Nixon.

Nesse pano de fundo fantástico, Moore vai contando as histórias dos homens e mulheres que foram vigilantes, pessoas que são cheias de angústias, temores, remorsos e paixões. É uma história na qual o grosso da ação não acontece externamente, mas sim dentro de cada uma daquelas personagens. E para narrar essas histórias, o roteirista, contando com a habilidade imagética de seu desenhista, cria uma porção de passagens paralelas, aparentemente sem sentido, mas que vão justificar por fim as ações dos envolvidos.

Moore não se furtou nem mesmo a mostrar que, mesmo sendo um exercício contrafactual, a maior parte da ação passa-se em uma Nova Iorque decadente, apesar da posição hegemônica norte-americana- e Nova Iorque era exatamente um antro do esgoto dos Estados Unidos no período pré-Rudolph Giulliani.

O que se tem, por fim, é um belo exercício narrativo que marcou a arte dos quadrinhos, aliando um roteiro extremamente bem amarrado a uma execução visual de primeira para fazer uma reflexão aguda sobre a década em que foi escrita -1980-, mas sem se furtar a apresentar personagens maravilhosamente construídas. Não sei quanto aos outros, mas, para mim, isso já basta para colocar essa obra em um patamar superior na produção cultural.

SE NADA MAIS DER CERTO

Agosto 24, 2009 por fredericokling

“Se nada mais der certo”, de José Eduardo Belmonte, não é um filme que se entrega a facilidades. Você não vai ver um desfile de personagens arquetípicos, sem profundidade; você não vai ver cenas chocantes; não vai ver nudez gratuíta; não vai ver a pobreza nua; não vai ver a risada fácil. Ou seja, o filme é uma avis rara no atual cinema nacional.

O enredo é aparentemente simples. O jornalista Léo -interpretado com competência por Cauã Reymond- passa por maus bocados econômicos. Abriga em sua casa a autodestrutiva Ângela -a bela Luiza Mariani- e o filho dessa. Na busca por uma saída, seus caminhos se cruzam com os de Marcin -a ótima Caroline Abras-, traficante da área do baixo meretrício paulista, e com os de Wilson -João Miguel-, taxista depressivo. Resolvem praticar golpes para sobreviver.

A primeira das não facilidades que José Belmonte nos oferece é estética. A câmera trabalha solta, mas colada aos personagens, quase entrando dentro deles. O efeito que isso causa é incômodo, e os primeiros 30 minutos de filme são quase insuportáveis de tão angustiantes, pela sequência de fatos que se sucedem e a forma como são filmados. Essa opção por uma câmera quase sempre colada aos rostos dos personagens é o primeiro dos recursos usados para tentar mostrar o que se passa no interior daquelas pessoas, ainda que elas permaneçam um tanto enigmáticas. Mas só essa escolha já demonstra que Belmonte tem uma noção bem clara do que quer contar. A opção por fazer com que parte considerável dos diálogos seja sussurrada ajuda a manter esse clima intimista e angustiante, como se sempre estivéssemos ouvindo algo que não poderia ser dito.

Os personagens, por sua vez, são exatamente o contrário dos tipos. Sem exceção, todos são dotados de inúmeras camadas que vão se desvelando no decorrer da obra. Há uma curiosa oposição oculta entre a bela e depressiva Ângela -que alterna estados de total inércia com outros de dopada euforia-, e Marcin -que se veste como um moleque, mas tem uma sensualidade à flor da pele e se caracteriza por uma postura “elétrica” perante tudo. O fato de a primeira ser morena e a segunda ser loira já é um indicativo dessa oposição.

Léo, por sua vez, passa o filme todo escrevendo uma carta a um amigo bem sucedido na profissão. Na verdade, essa carta é um inventário de todas as frustrações de Léo, que só se acumulam no decorrer do filme. Já Wilson é um homem profundamente triste e que anseia por contato. Da união destes quatro, mais a voluntariosa empregada de Léo e o filho de Ângela, forma-se uma estranha família, que se une apenas uma vez, na praia, e, ainda que brevemente felizes, sempre haverá algo a perturbar esse grupo.

Há uma grande crise que parece pairar sobre todos os personagens. Na devida medida, existe sempre um sentimento de deslocamento, de não pertencimento, algo que desestabiliza cada uma daquelas pessoas. Curiosamente, Marcin é a única a não transperecer alguma dúvida em relação à vida, que ela vive um dia após o outro, sem questionamentos ou reflexões. No entanto, ela é a própria encarnação de deslocamento, pois passa o filme inteiro indefinida -adota um nome sem gênero; veste-se como menino, mas refuta ser chamado de garoto; tenta beijar o homem e a mulher. Ela é a representação física de uma situação de crise que atinge a todos.

O filme tambem não cai na crítica política fácil. Parte das frustrações dos personagens tem origem na situação econômica. Quando se veem nas bordas da sociedade, não pensam duas vezes antes de cair nas facilidades do crime. Léo esboça um discurso político reducionista, que cai nas categorias de rico roubando pobre, justificando o pobre roubar o rico. Mas o filme trata logo de destruir esse discurso de Léo, já que ele o faz e demonstra nojo quando um personagem conta que aplica golpes nas pessoas as mais inocentes possíveis, mas ele mesmo torna-se um batedor de carteiras e assaltante de velhinhas. Quando surge a oportunidade de partir para algo mais “ambicioso”, roubar o rico, roubar o político, ele é o primeiro a refugar. O discurso fácil -que não é só dele, mas de muitos hoje em dia, não só na ficção- não se sustenta na ação.

Essa opção pela “fácil” vida do crime tambem encontra sua crítica em Ângela que, ainda que por um breve momento, abandona sua inércia e arranja um trabalho, enquanto Léo, Marcin e Wilson vão fazendo golpes cada vez mais ousados. Léo mesmo critíca o amigo que se sujeita a trabalhar na campanha de um candidato à presidência, por esse estar supostamente vendendo sua ética e sua moralidade, mas, como dito, Léo hesita, mas não foge da vida do crime, tão anti-ética quanto o trabalho “honesto” de seu amigo.

Temos, portanto, personagens que não são meras vítimas de seus meios, escapando ao determinismo por vezer reinante na ficção brasileira. Por outro lado, eles parecem estar em busca de algo que não conseguem identificar, uma falta que não conseguem suprir, exatamente por não saberem exatamente o que falta. A fuga final -e aqui o mar aparece mais uma vez como uma metáfora do que está aberto, do desconhecido que está por vir- não é redenção, mas sim o começo de algo novo, algo que não se sabe o que é, mas que não é um ponto de chegada.

No final, tem-se uma obra que conseguiu aliar como poucas no cinema nacional contemporâneo preocupações estéticas, políticas e existenciais. Talvez por isso mesmo ela tenha vida breve no circuito nacional, ainda que conte com o galã global Cauã Reymond.

INIMIGOS PÚBLICOS

Agosto 12, 2009 por fredericokling

“Inimigos públicos” é a mais nova incursão de Michael Mann pelo cinema de ação com pitadas de brilhantismo intelectual. Mann, na verdade, vem descrevendo uma carreira bem coerente nesse quesito, desde a época em que criou o revolucionário seriado “Miami Vice” -que baseou seu último filme- até mais recentes sucessos como “Fogo contra fogo” e “Colateral”. Agora, Mann se sobressai tanto pelo radical uso da câmera digital quanto pelo garnde painel de fundo que traça para contar o embate entre duas forças que se pretendem antagônicas, mas que tem muitos pontos de intersecção.

O filme conta a história verdadeira de John Dillinger, famoso ladrão de bancos que aterrorizou os Estados Unidos na década de 1930 -não por acaso, durante o período mais profundo da Grande Depressão. Somos apresentados aos outros fiéis integrantes de seu bando, mas Dillinger, interpretado com a usual competência por Johnny Depp, é o centro desse mundo um tanto romantizado de bandidos que não matam nem roubam os clientes, apenas os bancos. Para curar a doença social representada por Dillinger, temos Melvin Purvis, um frio e eficiente policial, interpretado de maneira quase gélida por Christian Bale.

Aparentemente mais um filme de gângsters, “Inimigos públicos” se sobressai por causa de seu pano de fundo. Se por um lado não dá à Grande Depressão o devido papel que tinha na onda de criminalidade do período -furtando-se a mostrar os altíssimos níveis de pobreza na época- faz um nada sutil comentário sobre o problema de quando o combate ao crime torna-se criminoso em si. Purvis, o representante da eficiência policial, está na missão a mando de John Edgar Hoover.  E o chefe autoriza o uso de todos os meios necessários para se acabar com a criminalidade -todos os meios, sem exceção.

Hoover foi o grande chefão do FBI durante décadas. Sua gestão foi marcada pela criação de uma vastíssima rede de dossiês contra algumas das personas públicas mais importantes dos Estados Unidos, e sua intensa e tresloucada campanha contra a criminalidade logo desaguou no bem menos alentador cenário da paranóia comunista que então surgia no país. Foi por causa da intensa perseguição do FBI de Hoover, por exemplo, que Charles Chaplin abandonou os Estados Unidos na década de 1940.

A parte estética é outro triunfo do filme. Já faz tempo que Mann tem utilizado o digital com crescente ousadia. Em “Inimigos públicos” ele chega a um estado de quase desficcionalização da cena -muito propício para se filmar uma história real-, principalmente por causa das cores pouco contrastantes, mesmo apagadas. Assim, nas poucas vezes em que luzes espocam na tela, o efeito é inebriante. As metralhadoras são uma das mais constantes fazedoras de luzes nesse filme. Uma metáfora para a violência em um período de trevas? Isso aliado ao fato de que nunca no cinema os tiros soaram como aqui. É uma experiência radicalmente diferente de qualquer outro tiroteio cinematográfico.

As outras luzes que pipocam com certa frequencia são as dos flashes da máquinas fotográficas. Curiosamente, são esses flashes que vão iniciar a derrocada de Dillinger, pois quando ele se torna famoso demais, ganhando as capas dos jornais, os barões da máfia, os grandes gângsters da época, os homens que controlam a criminalidade invisível -prostituição, jogo, suborno-, mas muito mais danosa socialmente, abandonam Dillinger. Com um homem tão focado quanto Purvis no encalço de Dillinger, associar-se a ele é um risco que ninguem quer mais correr. Dillinger está sozinho, nem mesmo sua amante -a bela Marion Cotillard- escapou da danação da prisão.

Mann explora a questão da fama em um momento antológico, no qual Dillinger entra sozinho na delegacia na qual Purvis e sua equipe estão instalados. Na porta da sala de trabalho da equipe, lê-se que é uma divisão especial para pegar Dillinger – o nome do bandido na porta. Dentro da ampla sala, Dillinger passa despercebido pelos poucos policias presentes, e vê não apenas as fotos de todos os seus companheiros -mortos-, de sua amanta -presa- e a sua, mas, principalmente, depara-se com o tamanho da mobilização em torno dele. Nota-se uma ponta de vaidade em Dillinger.

Essa fama que tambem é danação atinge seu ápice na cena final do filme, quando Dillinger é morto -lembremos que a história não só é verdadeira, mas muito conhecida- na saída de um cinema, após assistir, justamente, a um filme de gângster, que retrata um personagem com uma ética muito parecida com a sua: ainda que criminoso, leal aos amigos e à amante. As circunstâncias de sua morte, na verdade, marcam tambem o momento em que o trem vingativo do FBI, de Hoover, é colocado definitivamente nos trilhos, pois Dillinger era a figura que faltava no baralho de criminosos de Hoover para justificar o crescente poder não só investigativo, mas principalmente econômico daquela instituição.

No final, a grande vítima de toda a história é Purvis. Um homem extremamente correto autorizado a usar de todos os meios para atingir os fins, mas que não tem coragem de usá-los. A cena em que Purvis interrompe o violento interrogatório da personagem de Cotillard marca a tomada de consciência de Purvis sobre o horror. Dillinger, o bandido, é capaz de amar aquele belo ser; os homens da lei, seus subordinados, são capazes de destruir aquela beleza. Não à toa, Purvis teve o fim que teve. Mas isso só sabe quem vê o filme.

À DERIVA

Agosto 7, 2009 por fredericokling

A crítica brasileira anda se queixando de que os filmes nacionais ou seguem o padrão violência/favela ou o padrão chanchada/globo filmes. Assim, um filme de temática mais, digamos, intimista, como “À deriva”, de Heitor Dhalia, deveria ser um bálsamo nesse mar de violência e mediocridade do cinema nacional. Mas não é.

O francês Vincent Cassel, que interpreta Mathias no filme, disse, em uma entrevista, que os trabalhadores brasileiros da parte técnica estão entre os melhores do mundo. Isso sobre um país que sempre teve na baixa qualidade nesse quesito um de seus maiores entraves em relação ao público. Tal eficiência deve ter raízes no primor técnico que as produtoras nacionais de filmes de propaganda adquiriram. E “À deriva” é produzido pela O2 Filmes -reconhecida mundialmente. Pena que a direção e o roteiro não estejam à altura dessa excelência técnica.

Ao contar a história centrada em uma adolescente em processo de amadurecimento e que descobre o lado não tão brilhante de seus pais, Dhalia peca pelo excesso de imagens. Sejam aqueles belos quadros que só um por-do-sol carioca (valeu a correção, Rebeca!) pode oferecer, sejam passagens absolutamente desconectadas do resto da obra, tem-se a nítida sensação de que há muita sobra. Pior do que haver sobra, é perceber que o precioso tempo do filme poderia ser usado de outra maneira. O problema não é o tempo, mas o que se faz com esse tempo. Fica-se com o gosto de praia na boca, uma vontade de mar na pele, mas só isso.

A música do filme é tão primorosa quanto as imagens, mas aqui, mais uma vez, o excesso é o pecado. Quando ninguém fala, há invariavelmente música para fazer um comentário inútil sobre a cena, sem acrescentar nada ao que se vê. Ficou de fora dessa obra a virtude do silêncio, que é mais do que a ausência de palavras. Tanto esse problema, quanto o anterior, podem ser debitados da conta de Dhalia.

O roteiro, por sua vez, não consegue fazer com a suavidade necessária o caminho que Filipa, maravilhosamente interpretada por Laura Neiva, percorre entre o que ela pensa existir e aquilo que realmente é. As pedras acabam torturando um pouco mais o caminho dessa menina, que amadurece durante um inesquecível verão. Isso para não falar de personagens e passagens inúteis. Falta a suavidade necessária para tratar de questões tão intimistas, para falar de coisas que precisam de mais do que palavras. E é uma pena que seja assim, pois a ideia da história é ótima. 

O filme tem sua melhor qualidade no elenco, que dá show. Cassel, como um escritor francês em crise está ótimo, um personagem solar que domina todas as cenas em que está. Débora Bloch também cumpre com eficiência seu papel de mãe e esposa desgostosa com a vida, que se esconde no alívio da bebida. Mas o ponto alto mesmo é Laura Neiva. A jovem foi descoberta pelo orkut. Fisicamente, é uma mistura pueril de Fernanda Lima com Carolina Dickmann, só que morena e talentosa. Se não morrer esmagada na máquina “Malhação” de fazer atrizes ou na máquina Fátima Toledo de triturar artistas, terá um grande futuro. Sua interpretação é profundamente intuitiva, na medida exata para uma garota que vai se afundando cada vez mais na confusão, mas que acha uma espécie de redenção na bela cena final. Ponto para Dhalia.

Por fim, não é o melhor filme do mundo, mas tambem não é o pior. Vale a pena dar uma olhada, pois ao menos aponta em uma direção nova -uma trilha que o cinema nacional deveria seguir-, sai da mesmice temática reinante e tenta navegar por mares inóspitos. Heitor Dhalia, que dirigiu o terrivelmente ruim “Nina” e o muito interessante “O cheiro do ralo”, derrapa no intimista ”À deriva”. Mas sejamos justos -errar ousando é até perdoável.

A CHAVE DE CASA

Julho 23, 2009 por fredericokling

Tatiana Salem Levy nasceu em Lisboa, filha de pais comunistas exilados pela ditadura, neta de avô judeu que lhe deu a chave da casa que habitou na Turquia. A personagem do livro “A chave de casa”, de Tatiana Salem Levy, nasceu em Lisboa, filha de pais comunistas exilados pela ditadura, neta de avô judeu que lhe deu a chave da casa que habitou na Turquia. Ainda assim, a escritora resiste a fazer um paralelo autobiográfico com essa personagem.

Obviamente, tantas semelhanças trazem à tona a eterna -e tão em voga- discussão sobre as fronteiras entre realidade e ficção, assunto amplamente debatido por Tatiana e outros em mesa na última Festa Literária Internacional de Paraty, comentada aqui. Nessa ocasião, a tímida Tatiana rechaçou veementemente essa parcela autobiográfica em seu livro. Quando a mediadora a questionou sobre as cruas cenas de sexo, pensei que a escritora fosse se fechar de vez, mas não se fechou.

Talvez a mediadora não tivesse lido o livro, atendo-se a detalhes, quase fofoquinhas. É claro que há uma porção da própria vida da escritora na obra. O interessante é o que ela faz com isso. E o que ela faz é literatura de alto nível, tanto formal quanto material.

Os capítulos tem durações variadas, entre poucas páginas e poucas linhas. Neles, tem-se diferentes camadas. Às vezes, estamos com a filha que acompanha a mãe doente terminal; outras, acompanhamos a mulher que se relaciona com um homem assustadoramente direto e misterioso; há a escritora em angustiante estado de imobilidade física e emocional; por fim, há a mulher que parte para a Turquia, com a chave que lhe deu seu avó, em busca de um passado distante.

Todas essas facetas se alternam de maneira desordenada e maravilhosamente bem escrita. Sejam arroubos de poucas palavras, sejam passagens mais longas, logo percebemos que acompanhamos, de fato, as várias partes de uma mesma mulher. Mas se fosse só isso, o romance seria fraco e óbvio.

A sacada de Tatiana é a forma como ela entrelaça todas essas camadas. É dessa maneira que ela efetivamente destrói as fronteiras entre realidade e ficção. Ainda que indiscutivelmente a premissa seja real, ela desenvolve a obra de forma que não pensemos no que é real e o que não é e, na verdade, fazer esse tipo de  indagação só serve para diminuir a força do romance.

Será que a história com o homem misterioso é verdadeira? Todas aquelas cenas de sexo tão sensualmente escritas aconteceram? Tatiana esteve mesmo em uma casa de banho turco onde se sentiu atraída por uma bela mulher? Essas são questões inúteis. A própria Tatiana trata de borrar essas fronteiras, fazendo habilmente com que uma camada questione passagens das outras.

O único ponto fraco do livro é que ele dá uma certa, digamos, acelerada no final. A calma no desenvolvimento, que era uma das marcas até certo ponto, parece dar lugar a uma ansiedade por resolver os diversos caminhos. Mas essa é uma obra de estréia, na qual pode-se excusar tal problema.

Exatamente por ser uma obra de estréia, a ansiedade pelo que está por vir torna-se grande. Enquanto isso, leiam “A chave de casa”, livro escrito com grande habilidade técnica, profunda análise psicológica de uma mulher, pelo qual não se passa sem se perceber que algo diferente aconteceu.

HORAS DE VERÃO

Julho 14, 2009 por fredericokling

Muitas qualidades tornam um filme grande. Talvez a capacidade de dizer coisas profundas por meios sutis seja uma delas. Se for, “Horas de verão”, do francês Olivier Assayas, é um grande filme. É uma obra capaz de colocar em cena questões importantes e instigantes com uma imensa despretensão, tão grande que, para os desatentos, tais questões podem mesmo passar despercebidas.

O enredo é basicamente a história de três irmãos que se veem às voltas com os bens deixados por sua falecida mãe. Adrienne (Juliete Binoche) é uma designer que mora em Nova Iorque, Jérémie (Jérémie Renier) trabalha na China. A matriarca deixa, então, ao economista Frédéric (Charles Berling), o único filho que vive na França, a responsabilidade de conduzir o destino do espólio. Assim, de quando em quando esse três irmãos, afastados por milhares de quilômetros, econtram-se para, por exemplo, decidir pela venda da casa em que morava a mãe.

Mas esta não é uma simples casa. Nela residiu Paul Bethier, ilustre pintor a quem Héléne (Edith Scob) dedicou toda a sua vida. Com a morte do artista, que era seu tio, ela se transformou em espécie de guardiã da memória desse homem, cuja presença de certa forma ainda sufocava a vida de Héléne com tanta intensidade que chega-se a desconfiar de um romance havido entre ambos.

Assayas logo de saída já mostra a que veio, com o filme iniciando-se com uma longa sequência nessa casa de campo, por ocasião do aniversário de 75 da matriarca. Esta, de certa forma já prevendo sua morte, trata de distribuir funções e bens para os filhos. Tudo isso feito de maneira devidamente discreta, com a sutileza que vai ditar o ritmo do filme, exigindo de nós absoluta atenção a tudo, a todas as palavras, a todas as imagens, pois aqui, nada é de graça.

Com a morte, dois dos três filhos, justamente os mais novos e que vivem fora da França, optam por se desfazerem dos bens e da casa. Para decepção não muito velada de Frédéric, o mais velho. Dessa forma, surge uma das cenas mais fortes do filme, quando uma legião de experts entra na casa e começa a vasculhar todas as obras de arte, atribuindo valor a tudo, avaliando o que pode ser vendido e como pode, uma espécie de estupro doloroso de décadas de memórias ali guardadas. Quando a velha empregada da casa chega e Frédéric lhe oferece uma peça a sua escolha, essa velha senhora, espécie de consciência silenciosa daquele lar, escolhe uma vaso, tido como valioso por um especialista. Mas ela o escolhe por ser nele que ela colocava, periodicamente, as flores prediletas da patroa. “Não deve ter nenhum valor”, diz ela. A não ser o valor sentimental, podemos acrescentar.

Essa questão sobre o valor das coisas surge com uma intensidade quase sufocante quando o filho mais velho observa a mesa de trabalho de sua mãe exposta no Museu D´Orsay, de acordo com um pedido dela. Aquela mesa, antes atulhada de papéis, antes detentora de um raríssimo caderno de esboços de Bethier, agora está em um ambiente anódino, sem vida. Sem uso?

Além disso, o filme tambem traz embutido uma instigante observação  sobre a incapacidade de comunicação entre as pessoas. Pois, da mesma forma que Héléne parece não dar ouvido a seus filhos, esse não conseguem se ouvir, e tambem estes parecem não dar ouvidos a suas próprias crias, conflito exacerbado na passagem, aparentemente deslocada, em que a filha adolescente de Frédéric é presa furtando uma loja e portando pequena quantidade de maconha. Pois é essa menina, aparentemente alienada e desinteressada em relação à toda a cultura que sua avó acumulou -Héléne, inclusive, lega aos dois netos adolescentes os quadros mais valiosos de sua coleção, e que são leiloados-, quem dá a palavra final ao filme. Um fecho maravilhosamente poético em meio ao momento mais turbulento da película, espécie de resposta melancólica -talvez não intencional- ao esperançoso desfecho de outro grande filme europeu, a obra “Rocco e seus irmãos”, de Lucchino Visconti.

VISÕES DA FLIP

Julho 7, 2009 por fredericokling

A Flip já foi. Vi algumas mesas, umas boas, outras nem tanto. Desde o interessantíssimo debate na mesa “Verdades inventadas” até o show um tanto quanto questionável da mesa com Milton Hatoum e Chico Buarque, essa é a minha visão pessoal do que ali se passou.

 

1- CONFERÊNCIA DE ABERTURA

O professor Davi Arrigucci Jr. abriu a Flip com uma palestra sobre o homenageado desta edição: o poeta pernambucano Manuel Bandeira.

A palestra de Arrigucci foi muito boa e esclarecedora. Conseguiu dar um ótimo panorama sobre a obra e a vida do poeta, sem cair no óbvio, mas também sem beirar o excessivo academicismo. Foi na medida para um público de iniciados, mas não de especialistas.

Entre os momentos mais interessantes da palestra, houve a análise de Arrigucci sobre uma série de antagonismos muto importantes na obra de Bandeira, como as oposições dentro/fora, alto/baixo, antagonismos esses cuja origem Arrigucci encontra em passagens da vida do poeta. A palavra de ordem, para Arrigucci, é alumbramento. É essa palavra, presente em alguns poemas de Bandeira, que representaria o fazer literário do poeta. Uma demonstração da capacidade que Bandeira teve de transformar uma vida de doenças e privações em produção literária de extrema qualidade.

 

2- VERDADES INVENTADAS

Essa mesa reuniu três escritores cujas obras beiram o limite entre realidade e ficção. Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues fizeram breves apresentações de suas obras. Cada uma tem diferentes porções de realidade e ficção. O livro de Tatiana, por exemplo (As chaves de casa) tem claros elementos biográficos, como tratar de uma família que, como a dela, é judia de origem turca, ou a história das chaves da casa turca guardadas por seu avó. Já Arnaldo Bloch ecsreveu “Os irmãos Karamabloch”, que conta a história dos irmãos Bloch que, na década de 1960, criaram um império da comunicação comparável ao de Roberto Marinho. A obra de Rodrigues (Elza, a garota), por sua vez, foi fruto de uma encomenda, e usa ampla pesquisa histórica e construção ficcional para contar a história verdadeira de uma jovem que foi assassinada a mando da direção do Partido Comunista Brasileiro, acusada de traição.

Cada um deu seus motivos para escrever seus livros. Tatiana, por exemplo, negou que seu livro tenha uma carga tão autobiográfica assim. Visivelmente retraída, conseguiu, no entanto, uma nova legião de fãs com a leitura de parte de seu livro, feito que levou uma pequena multidão à sessão de autógrafos, tendo principalmente seu livro em mãos, inclusive esse que vos escreve.

Já Bloch citou a necessidade de desvencilhar-se da pesada herança familiar, ainda mais para alguém que escolheu a carreira de jornalista. Rodrigues, por sua vez, como já dito, atendeu a uma encomenda.

A questão sobre a fronteira entre realidade e ficção fez parte das melhores falas da mesa. Tatiana negava a pesada carga, mas quem deu a palavra final sobre a questão foi mesmo Rodrigues, talvez por não carregar o peso de sua vida em seu livro: “O inseto de Kafka não é uma mentira – é só uma verdade monstruosa”. Disse tudo sobre essa questão que anda tumultuando debates teóricos não só na literatura, mas no cinema também. O problema é: será que essa discussão faz sentido?

No fim, essa foi uma das melhores mesas, com todos os três saindo-se muito bem nas suas falas, atraindo muita gente para a mesa de autógrafos, o que, de certa forma, serve como um termômetro da recepção da platéia ao debate.

3- DEUS, UM DELÍRIO

Richard Dawkins frequentou por um bom tempo a lista de mais vendidos no Brasil com sua obra “Deus, um delírio”, um poderoso panfleto contra o obscurantismo religioso.

Curiosamente, em edição anterior, a Flip já havia dado abrigo a outro escritor, o polemista Cristopher Hitchens, que igualmente passeou pela seara do obscurantismo religioso, mas, ao contrário das falas furiosas e irônicas deste, Dawkins usou de toda a clareza que um reconhecido cientista como ele dispõe.

O mediador Silio Boccanera não se furtou a apenas levantar a bola para Dawkins panfletar. O jornalista brasileiro apresentou questões um tanto quanto incomodas, como ao perguntar a Dawkins o que ele diria se morresse e se visse em presença de Deus. Dawkins: “Qual Deus é você”? Espirituoso.

Pode-se objetar que Dawkins estava jogando para uma torcida só, de pessoas, digamos, esclarecidas, o que pode ter tirado um pouco do poder de combustão de suas palavras. Ainda assim, o cientista não se furtou aos ataques vigorosos contra o obscurantismo religioso, e alguma de suas falas são para pensar, como quando insistiu na não existência de crianças cristãs, ou judias, ou muçulmanas ou de qualquer religião. O que há, disse ele, são crianças com pais religiosos. Essa fala representa todo o seu pensamento contra o doutrinarismo excessivo e perigoso da religião.

Acabou muito aplaudido pelo público, provavelmente pela clareza de pensamento, ainda que sem o tom explosivo de Hitchens.

 

4- MILTON HATOUM + CHICO BUARQUE

Essa era “A” palestra da Flip. A reunião entre aquele que deve ser o melhor escritor brasileiro da atualidade com o autor de um dos lançamentos mais comentados do ano e grande sucesso de público, tudo isso mediado por Samuel Titan Jr. um dos principais teóricos brasileiros de literatura.

Mais um jogo para a platéia. Tenda lotada, as laterais tambem. Parecia mais um show de rock do que uma palestra sobre literatura. A impressão era de que, não importa o que se falasse ali, todos gostariam e aplaudiriam. E foi mais ou menos isso o que aconteceu.

A leitura das obras pelos escritores já demonstrava a diferença do trabalho de ambos. Hatoum leu trechos de seu “Orfãos do eldorado”, obra que, ainda que encomendada, só veio acrescentar a sua pequena, mas incrível, produção literária. Já Chico leu um trecho de seu “Leite derramado”, obra que alguns apressados insistem em classificar como machadiana, colocando Chico como herdeiro do legado de Machado. Exagero que Hatoum, em uma ou outra palestra em universidades pelo Brasil, tratou de retificar, ao fazer algumas críticas duras à produção de Chico. Mas lá eram todos amigos.

A palestra, por sua vez, foi lenta, demorou para engrenar, e prendeu-se demasiado às filigranas do fazer literário de cada obra. Sinceramente, quem não leu os livros, ficou boiando.

Hatoum parecia visivelmente constrangido, pois sabia que aquele enxame de gente não estava todo ali para vê-lo. Uma legião de chicólatras invadiu Paraty. Como Chico é sim uma grande artista, mas com um ego devidamente controlado, ele igualmente mostrou-se um tanto retraído.

No final, o que se viu foi uma palestra que não empolgou, não entregou o que prometia. Mas o público não se importou. À mera fala de que seriam distribuídas senhas para a sessão de autógrafos, uma massa de espectadores levantou-se e correu para a tenda onde ocorreria a sessão, proporcionando deprimentes cenas de furação de fila. Foi o momento baixo da Flip, pelo menos entre os que eu vi.

 

5- GAY TALESE

Talese é um dos papas do jornalismo norte-americanos -e, por que não, mundial. Sua palestra foi muito esperada. Com moderação do jornalista Mario Sérgio Conti, o que se viu foi um pequeno espetáculo de verborragia desenfreada. Por parte tanto de Talese quanto de Conti.

Para se ter uma idéia, foram feitas apenas três perguntas durante toda a palestra. Todas elas longas perguntas, demasiado longas, por sinal, às quais se seguiram ainda mais longas respostas. Sinceramente, não era preciso um moderador. Bastava colocar uma cadeira e falar: Talese, conta aí sua vida.

Talese falou sobre sua família, ítalo-americanos que, durante o dia, torciam pelos Estados Unidos na Segunda Guerra, mas que, durante a noite, acompanhavam com muito interesse os destinos da Itália durante o conflito. Essa história, disse Talese, ensinou-o que há sempre mais por trás do que as pessoas falam. Para ele, isso justificaria seu processo de manufatura de matérias, mundialmente famoso, que consiste em uma imersão radical no assunto a ser tratado.

Isso, por sinal, rendeu o melhor momento da pelstra. Conti, em mais uma longa pergunta, questionou Talese sobre a obra que ele está escrevendo, sobre sua vida com sua esposa, na qual aborda 50 anos de casamento, devidamente registrados em cartas guardadas desde sempre. Conti questionou a visão que o público teria dele e de sua esposa, pois há histórias de traição de ambos os lados, sendo que Talese frequentou, inclusive, casas de massagem e orgias para escrever seu famoso livro “A mulher do vizinho”, um retrato da vida sexual norte-americana na década de 1970.

Talese ficou visivelmente desconcertado. Ele, que destilou com extrema segurança uma metralhadora de palavras, tornou-se errante, hesitante, medindo meticulosamente cada frase. No final, fez a defesa desse seu método de imersão, dizendo, inclusive, que uma pessoa pode efetivamente se cansar de fazer orgias, como uma maneira não só de aliviar o peso de suas ações, mas de aliviar o peso que elas tinham para sua mulher.

Para um homem que durante toda a palestra fez questão de ressaltar suas raízes cristãs, foi interessante ver Talese se enrolando todo para justificar seu passeio com o diabo.

 

6- ANTONIO LOBO ANTUNES

Quando o mediador Humberto Wernek começou a palestra com uma longa e muito veneradora fala, pensei comigo: isso não vai bem. Quando, após a chatíssima introdução, Lobo Antunes começou, a pedidos de Wernek, a divagar sobre suas origens familiares, que remontam a um avó nascido no Brasil, aí pensei: putz, lá se vai pelo ralo a oportunidade de ver o que dizem ser um grande escritor indo pelo ralo. Besteira. No final, estavam todos maravilhados, inclusive a imensa massa -na qual me incluo- de pessoas que nunca leram uma palavra escrita por Lobo Antunes.

Reconhecidamente um autor hermético, Lobo Antunes apresentou-se um homem de fala mansa, controlada, destilando grandes gotas de inteligência e ironia, um exímio contador de histórias, admirador de obscuros poetas brasileiros do século XIX.

Fez troça de seu alvorecer literário, quando, na tenra idade, seu avó millitar o chamou e perguntou: “Ouvi falar que fazes versos. Mas você é veado”? Daí em diante, Lobo Antunes empilhou uma grande frase atrás da outra, uma grande observação atrás da outra.

Falou sobre o fazer literário, discorreu -sem nenhuma modéstia- sobre as ambições que deve ter qualquer escritor, contou o problemático início de carreira, quando não encontrava ninguém disposto a publicá-lo. Esses foram, resumidamente, os pontos-chave de sua palestra. Mas que domínio da palavra!

O público percebeu que ali não estava um simples homem. Foi aplaudido de pé por uma legião de novos fâs, que logo correram à livraria para comprar uma obra sua. Apenas alguns sortudos, no entanto, conseguiram seu autógrafo. Eu sou um deles. Agora só me resta lê-lo. Hehehe.

 

No balanço final, a Flip foi muita boa. Em comparação com a edição anterior que eu fui, em 2007, houve, a meu ver, um excesso de gente menos interessada em literatura, e mais interessada no alcance midiático do evento. Não sei se esse é um caminho muito seguro pelo qual deva ir a Flip. Não defendo com isso um elitização do evento, mas sim a preservação deste, para que fique mais no literário e menos no festival. Até porque, Paraty é uma cidade linda, fantasticamente aconchegante, mas não sei até que ponto ela aguenta uma invasão de tal proporção nas suas terrivelmente desconfortáveis e charmosas ruas de pedras.

O passado

Junho 23, 2009 por fredericokling

Pode-se dizer que “O passado”, do argentino Alan Pauls, é a anatomia de um amor morto, mas não enterrado. Com uma escrita profundamente incisiva, quase barroca, Pauls narra o fim do relacionamento de doze anos entre Rímini e Sofía e o que se segue a essa pequena catástrofe pessoal.

Quando o casal perfeito se dissolve, a surpresa é geral. Sejam os amigos, os parentes ou mesmo a mentora intelectual de Sofía. Ninguém podia acreditar que aquele relacionamento pudesse um dia acabar. Mais ainda, ninguém poderia suspeitar que aquele fim era uma escolha racional, tomada por uma mulher extremamente forte e por um homem incrivelmente fraco. Se Rímini acha que o fim é uma forma de liberdade, ele só sai da relação para viver um longo e delirante período sob a sombra dessa morta, que parece sempre voltar para atormentá-lo.

Pauls manipula com excelência as idas e vindas do tempo, escreve com uma riqueza de detalhes impressionante os descaminhos percorridos por Rímini -o foco é no homem apesar da presença quase massacrante das mulheres- e nos faz sentir um misto de pena e ódio desse personagem tão fraco e tão dependente do outro.

Logo após o término, Rímini entrega-se a uma torrente delirante de trabalho, uso de cocaína e masturbação. Parece ter atingido a tão sonhada liberdade quando começa a se relacionar com Vera, uma jovem extremamente impulsiva, capaz de falar as maiores barbaridades por ciúmes e eternamente dilacerada pela presença ausente de Sofía. Eternamente porque ela terá um fim trágico antes que Sofia desapareça.

Depois há Carmem, a companheira de profissão, aquela que o acompanha na dramática perda da capacidade de traduzir, ofício que exercia tão bem. Carmem lhe dá um filho, mas nem assim Rímini consegue se livrar de Sofía, cuja presença, mais uma vez, levará ao fim da relação.

Pauls narra assim um espiral que vai do término do relacionamento com Sofía até uma espécie de entrega final de Rímini frente àquela presença sufocante. No meio do caminho, a vida de uma pequena constelação de mulheres maravilhosamente descritas vai sendo mudada por esse casal que não existe mais, tudo pontuado pelas tumultuosas e surpreendentes aparições de Sofía, como um fantasma a atormentar Rímini. A escrita de Pauls é verdadeiramente impressionante e, ainda que nos assustemos com as 478 páginas da edição da Cosac & Naify, é com grande prazer e intensidade que se mergulha nelas.

Há, inclusive, uma espécie de novela dentro do romance, um capítulo que narra a trajetória de uma obra do artista Jeremy Riltse, praticante de uma arte plástica baseada na automultilação e que tem importância crucial na memória afetiva de Rímini e Sofía. Na verdade, tal capítulo poderia ser perfeitamente suprimido, mas serve como uma espécie de exercício virtuosístico. Incrível.

O único ponto que me incomodou -e incomoda- é que, apesar do estilo barrocamente detalhado, no qual os menores lances adquirem crucial importância, um fato tão importante tenha sido deixado para ser revelado apenas na porção final do livro. É impossível não ser tomado de estranheza ao ver o autor sacar tão inusitadamente uma parcela do passado de Rímini para dar continuidade à história e levá-lo ao quarto relacionamento sexual -não amoroso- do livro, com a insatisfeita e casada Nancy. Leiam e confiram.

De qualquer forma, apesar do inusitado dessa situação, a obra é uma composição impressionante de um escritor que demonstra pleno domínio de seu estilo e total controle sobre os descaminhos que traçou para Rímini, levando o personagem a um verdadeiro “tour de force” que não exatamente o leva ao autoconhecimento que tais processos costumam alcançar.

OS FALSÁRIOS

Junho 10, 2009 por fredericokling

 

Há tantos filmes de holocausto que se pode dizer que tal tema tornou-se quase um gênero em si. Talvez porque esse evento tão traumático seja tanto um testemunho sobre a maldade humana quanto um repositório de pequenas histórias maravilhosas em meio ao mais profundo horror. “Os falsários”, de Stefan Ruzowitzky está no segundo tipo, narrando a passagem de Salomon Sorowitsch pelo campo de concentração.

Salomon não é um prisioneiro qualquer. Ainda que judeu, ele foi preso antes de posta em funcionamento a máquina da morte nazista. Salomon era um famoso falsificador de dinheiro -o maior, diziam alguns- e vivia uma vida de excessos antes de ser preso na Berlim pré-guerra. Com o tempo, acaba tendo o destino de todo judeu que estivesse em mãos de nazistas, o campo de concentração. É da vida miserável de um campo que Salomon vai ser retirado para executar uma serviço inusitado -falsificar moedas dos países aliados. Para isso, ele é alojado em uma ala, digamos, mais benevolente do campo, onde os outros judeus participantes do processo de falsificação gozam de privilégios tais quais banhos, comida e música.

O chefe do campo, o homem que pescou Salomon do horror e o colocou no “paraíso”, é o mesmo que o prendeu anos antes. Por isso, ele sabe sobre o talento de Salomon, e logo o cerca de regalias maiores do que as dos outros. A partir daí, o filme desenvolve-se basicamente em duas linhas -as relações entres os judeus “privilegiados” e os sentimentos desses em relação aos judeus que estão fora da área isolada onde trabalham, e que estão sujeitos aos piores horrores que o nazismo poderia proporcionar -e que só aparecem, dramaticamente, uma vez.

Surgem os mais diversos personagens. Temos o idealista que considera uma traição trabalhar para os nazistas e que clama por uma revolta; há o comandante judeu da operação; o jovem artista por quem Salomon desenvolve afeição; o banqueiro que hesita trabalhar com Salomon por esse ser criminoso comum; o médico. Mas é Salomon o personagem mais instigante. A interpretação de Karl Markivics nos entrega um homem desconfiado, de poucas palavras, de olhar arguto e observador. Salomon parece estar sempre indiferente ao destino dos seus colegas, mas ainda assim é capaz de pílulas insuspeitas de companheirismo. Por um lado, é um individualista convicto, preocupando-se apenas em sobreviver; por outro, é capaz de pequenos heroísmos. Enfim, um homem contraditório, nada maniqueísta.

Na verdade, maniqueísmo é o grande ausente do filme, uma qualidade em se tratando do tema do holocausto, no qual é tão fácil apontar monstros e inocentes. Nem os judeus falsários são todos santos, nem o nazista que comanda a operação é todo monstro, ainda que haja um nazista que é a encarnação do diabo. O fato de a história se focar em judeus em condições especiais, sendo homens nutridos, levando uma vida quase normal, já mostra o tratamento diferenciado que a película dá ao tema.

O filme começa com Salomon hospedando-se no cassino de Monte Carlo. Depois desenvolve-se o longo flashback que conta a sua história. O fim é no mesmo cassino. Um fim belíssimo e surpreendente, diga-se de passagem. Assim, esse não é apenas mais um filme de holocausto, mas sim é uma grande e emocionante narrativa sobre homens apanhados pela máquina aniquiladora da história. Talvez isso justifique o Oscar de produção estrangeira que o filme levou em 2008, ainda que se possa desconfiar do gosto dos velhinhos de Hollywood, que adoram uma boa história de holocausto.

Anatomia da ficção

Abril 14, 2009 por fredericokling

agualusa

O Brasil tem aberto relativo espaço à literatura africana de língua portuguesa. O moçambicano Mia Couto é, por enquanto, a face mais reconhecida dessa onda -ou marola. Talvez por sua escrita um tanto etérea e inventiva em termos de linguagem, que nos remete de imediato a Guimarães Rosa, influência assumida de Couto. Seu amigo angolano José Eduardo Agualusa, por outro lado, situa-se em um registro menos inventivo em termos de linguagem, mas não menos interessante enquanto história contada.

Em seu romance “As mulheres de meu pai”, Agualusa conta a busca de Laurentina, filha de imigrantes angolanos, por suas raízes, já que, no leito de morte, sua mãe revelou que ela era adotada. Nessa volta à África, Laurentina leva junto Mandume, seu namorado, também descendente de africanos, mas que rejeita essa influência adotando postura profundamente portuguesa e ocidental. Quando chegam ao continente africano, juntam-se a eles o sobrinho de Laurentina, Bartolomeu, e um misterioso motorista, Pouca Sorte. Juntos, esses quatro personagens saem em busca da história do pai de Laurenita, Faustino Manso, músico angolano famosos, amante das mulheres e que percorreu toda a Àfrica Austral, deixando uma constelação de rebentos pelo caminho.

A grande diferença entre a escrita de Couto e Agualusa é que o angolano mostra uma Àfrica mais urbana. Por suas, palavras visitamos grandes cidades africanas, com suas misérias e seus eventuais luxos, ainda que não estejam excluídas certas mágicas passagens por lugares um tanto quanto misteriosos. Outra coisa interessante da obra de Agualusa é sua constante referência ao cenário cultural da parte sul do continente, colocando, inclusive, o próprio Mia Couto e sua esposa no relato.

A grande sacada do livro, no entanto, é alternar relatos ficcionais com pedaços de uma espécia de diário de Agualusa em uma viagem pela Àfrica Austral. Aos poucos, sabemos que Agualusa fez a viagem, junto com a documentarista inglesa Karen Boswall e o fotógrafo holandês Jordi Burch, buscando as locações para um projeto de filme que os dois primeiros tinham em mente. Ao relatar, em pequenos enxertos em formas de diário, passagens desse processo, Agualusa põe a nu o próprio processo de escrita. As coisas vistas aqui, logo se tornam matéria para ficção mais adiante. Mais ainda, por vezes a realidade mostra-se mais exuberante e misteriosa do que a ficção, lembrando-nos que a vida ainda pode ter sua parcela de mistério e magia.

O livro desenvolve-se, em sua porção ficcional, em um habilidoso mosáico de relatos. Cada personagem narra uma parte, um capítulo, e a obra é composta de pequenos e muitos desses capítulos. Aos poucos vamos vendo a busca de raízes -intencional para Laurentina, ocasional para Mandume-, o triângulo sensual que se forma entre esses dois e Bartolomeu, o desvendamento passo a passo do mistério de Pouca Sorte.

Ao fim, desse grande cenário surgem grandes questões, como a òbvia sobre identidade, a oposição entre Europa e Àfrica, a modernização por vezes perniciosa do continente. É um livro que atravessamos com um pé no maravilhoso e outro na putreda realidade.

Agualusa merece mais espaço entre nós.