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POLÍCIA, ADJETIVO

Dezembro 1, 2009

A Romênia parece ter se tornado a última grande coqueluche do cinema internacional. Filmes como “A leste de Bucareste”, de Corneliu Porumboiu, e “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, de Cristian Mugiu, tem alcançado grande repercussão de crítica e algum público -o primeiro ganhou o Camera d´or em Cannes, dado a cineastas estreantes, e o segundo levou a Palma de Ouro no mesmo festival ano passado. Ambos os filmes tratam, principalmente, da questão da autoridade e do quanto ela interfere na vida dos cidadãos comuns. Porumboiu continua sua exploração da questão da autoridade com “Polícia, adjetivo”.

O filme basicamente acompanha o policial Cristi (Dragos Bucur) em uma tocaia de alguns dias para pegar o usuário adolescente de drogas Victor (Radu Costin). Cristi, durante sua missão, questiona se deve ou não prender o jovem, pois a Romênia pós-comunista e ligada à Europa logo deve também adotar o abrandamento das leis sobre drogas, liberalizando o uso. Cristi sabe que a prisão de Victor vai marcá-lo por toda a vida. Mais ainda, Cristi questiona a intenção de seu informante, um outro jovem rapaz, usuário de droga com Victor e outra menina. Estaria o informante interessado em tirar Victor do caminho para ficar com a garota?

Porumboiu faz um casamento perfeito entre estética e roteiro, pois usa de longos planos sequências para mostrar a tocaia de Cristi a Victor, ressaltando o caráter burocrático do trabalho do policial. A câmera está sempre notavelmente estática, fugindo das facilidades da câmera tremida tão em voga hoje em dia, e a adoção radical do plano sequência pode causar certo estranhamento em espectadores mais desavisados, pois os tempos são esticados ao máximo -as vezes, mais do que o necessário.

Pela escolha estética, não é só o trabalho de Cristi que é burocrático; sua vida também é. Recém casado, as cenas domésticas também abusam do plano sequência, mostrando a banalidade da existência do jovem casal, mas introduzindo uma questão que será fundamental para a resolução do filme: a linguagem.

Não à toa, a obra se chama “polícia, adjetivo”, como se estivessemos lendo um dicionário. Cristi é o policial cuja consciência pesa na hora de cumprir seu serviço, pois ele sabe da inutilidade do que está prestes a fazer. Ele sabe das consequências devastadora que seus atos, amparados na seca legalidade, causará àquele jovem. Um longo plano sequência, o penúltimo do filme -e talvez um dos momentos mais geniais do cinema nessa década-, desmonta toda a argumentação de Cristi.

Nele, seu superior pega um dicionário e vai, palavra por palavra, destruindo as ideias de Cristi. O jovem policial tem noção da inutilidade e dos resultados de sua ação, mas não tem o discurso suficiente para expor seu ponto de vista. O dicionário, por sua vez, reduz as palavras -assim como alguns reduzem as leis- às letras secas do que está escrito, destituindo-as de ética e historicidade. O superior arrasa o discurso do subordinado, discurso esse que a platéia do cinema também sabe correto, ainda que confuso, mas que não se sustenta na insuficiência argumentativa de Cristi.

O plano final é outro achado genial. A câmera, que sempre focalizou pessoas, agora focaliza uma lousa, com um mapa desenhado, no qual vários Xs vão marcando as posições dos policiais que irão fazer o quixotesco cerco ao adolescente. A autoridade consegue impor sua lógica vazia ao ser humano, destituindo-o de razão.

É um filme difícil, por vezes bem arrastado, mas trás uma discussão fundamental sobre a autoridade, ainda mais para quem vive em um país como o nosso, tão ansioso por leis que resolvam o mundo, mas que não entende que essa resolução não se dá no âmbito das normas, mas no âmbito do convívio humano. Difícil, mas importante.

O ENCONTRO

Novembro 23, 2009

A escritora irlandesa Anne Enright ganhou o prestigioso “Man Booker Prize”, de 2007, pela obra “O encontro”. Se não fosse por isso, talvez eu nunca a tivesse lido. Na verdade, o que tambem me levou a ler o livro foi a comparação que fizeram entre esse e a obra do tambem irlandês John Banville, “O mar”. O começo do texto sobre a obra de Enright é muito parecido com aquele que escrevi na análise sobre Banville. E essas não são as únicas comparações entre ambos.

“O encontro”, assim como “O mar”, trata de uma pessoa que enfrenta uma crise aguda. Veronica, uma das filhas da numerosa família Hegarty, tem que enterrar seu irmão Liam, suicida e alcoólatra, e de quem era bem próxima. Sob esse pretexto, Veronica faz uma análise impressionista sobre fatos da sua infância, ao mesmo tempo em que recria ficcionalmente a vida de sua avó e lida com o contínuo distanciamento em relação ao marido, enquanto tenta criar suas duas jovens filhas da melhor maneira possível.

Assim como em “O mar”, aqui as camadas narrativas são desdobradas, misturando-se presente, passado recente, passado distante e, até mesmo, invenção. Veronica, essa mulher em profunda crise existencial, busca se reconciliar com sua vida, purgar suas frustrações, entender sua herança -maldita?- familiar. 

Afundada no meio de 12 irmãos, nem todos ainda vivos, Veronica rememora os fatos passados. Ela é a guardiã de um segredo que julga ter condenado seu irmão suicida, tido apenas como um rebelde naquele cheio lar, talvez um herdeiro da loucura que vitima alguns membros da família. Ela vai buscar na reconstituição ficcional da vida de sua avó alguma explicação para os fatos que afetaram sua infância e juventude, principalmente no período em que com ela viveu, devido a uma inexplicada doença de sua mãe.

No passado recente, Veronica lida com sua mãe em estado de demência, ao mesmo tempo em que faz os preparativos para o enterro do irmão -o que implica, inclusive, uma surreal viagem até a Inglaterra para liberar o corpo do defunto, preso nas rédeas da burocracia-, e que culmina na sufocante passagem do funeral de Liam, com vários membros da família Hegarty reunidos, gerando um estado de iminente explosão de rancores deprimidos.

No presente, Veronica está em busca de si mesma, amarrada a um casamento falido, pelo qual desistiu de sua carreira, presa a uma rotina de dormir quando o marido trabalha e ficar acordada enquanto o marido dorme, entornando garrafas de vinho e dirigindo a esmo em busca de só deus sabe o que.

O grande achado de Anne é também a maior fraqueza do livro. Se por um lado a linguagem coloquial colabora muito para a fluidez e tinge de modernidade o livro, por vezes essa linguagem soa esquemática demais. O tom da narrativa é nitidamente realista, mas as vezes pode-se cair na armadilha de se inventar uma realidade mais real do que a realidade de fato é, e isso é um artifício que acaba gerando certo enfado em algumas passagens.

O livro demora uma pouco a engrenar, mas quando engrena, estamos definitivamente enlaçados nessa saga familiar e individual, que culmina no retorno simbólico de Veronica a si mesma naquele que é um grande último parágrafo, em um final que aponta para uma luz no fim do túnel, luz essa ausente de “O mar”. Enfim, é uma obra repleta de espinhos e que, apesar de seus altos e baixos, consegue causar grande impacto.

500 DIAS COM ELA

Novembro 12, 2009

Logo de cara, “500 dias com ela” mostra a que veio. A narração em off diz que essa é uma história de boy meets girl. No caso, Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) é o garoto que teve sua ideia sobre amor formulada por muita música melancólica inglesa e pelo entendimento errado do filme “A primeira noite de um homem”, de Mike Nichols; Summer Finn (Zooey Deschanel) é a garota marcada pelo divórcio dos pais e descrente do amor. Bom, só com o que já foi dito, muita gente poderia ficar com o pé atrás, pois esse seria somente mais um filminho romântico desses bem água com açúcar. Mas não nas mãos do diretor estreante Marc Webb.

O filme é um grande achado narrativo. Obviamente, é a história dos 500 dias de Tom com Summer, mas esses dias não são mostrados de maneira cronológica. Ao invés disso, vamos do dia primeiro ao dia 488. Ou seja, os dias se alternam sem nenhuma grande lógica, indo e vindo, e proporcionando uma verdadeira montanha russa emocional que, devo dizer, não é para corações lá muito fracos. Isso porque, se em um momento vemos cenas de muito afeto, no próximo podemos estar vendo Tom completamente enfiado na lama, ou Summer cravejada de dúvidas sobre o relacionamento. É esse efeito surpresa que faz com que fiquemos tão ligados ao filme. Webb também consegue arranjar ótimas sacadas narrativas. Uma hora, temos uma cena típica de musical, com direito a desenho animado e tudo; em outra, vemos um cenário desenhado com uma figura em primeiro plano, e o desenho vai esfumaçando. Dessa forma, o filme diz com imagens o que precisaria de muitas palavras pra dizer.

A história é, portanto, a desse casal. Tom apaixona-se de cara por Summer. Ele, na verdade, anseia por amar alguém. Ela, por outro lado, desconfia do amor. Por sinal, como desconfiava François Truffaut, que merece uma referência em mais um achado narrativo, quando a personalidade de Summer é exposta em uma espécie de filmete em preto-e-branco que remete à leveza cinematográfica do francês -e que vai ter seu contraponto em Tom imaginando sua dor em outro filmete que remete a Godard e a Bergman. Sabemos que eles ficam juntos, mas sabemos que algo, lá na frente, dá errado, e sabemos que Tom sofre e que Summer se afasta. Sabemos tudo, mas a forma como as peças são colocadas é que encata. Só para citar mais um artifício narrativo, em dado momento, Webb divide a tela em duas, colocando na esquerda o evento na expectativa de Tom, e o evento como realmente acontece. É um momento genial e virulento, mas feito com uma simplicidade tão grande que nos faz pensar em como não pensaram naquilo antes.

Webb consegue escapar assim das facilidades dos filmes de relacionamento. Escapa ainda do mero empilhamento de referências culturais, pois elas têm função clara na mensagem. Consegue, principalmente, fugir da tentação de fazer da música o grande personagem de seu filme, armadilha na qual parece ter caído Cameron Crowe em seu “Elizabethtown”, pois a música, aqui, é importante na criação da personalidade de Tom e Summer, mas não é tudo.

O filme consegue o mérito de causar empatia com seus personagens. É difícil não sentir as emoções de Tom, que leva tudo à flor da pele, assim como é difícil não se encantar com a descrente e cheia de personalidade Summer. Mérito total para os atores. Joseph Gordon-Levitt é a imagem encarnada de todo sujeito meio abobalhadamente apaixonado e visceralmente sofredor. Zooey Deschanel, por outro lado, atrai de cara com seus grandes olhos azuis e seu estilo, como eu diria, coll -argghh, não gosto dessa palavra, mas não há outra melhor-, e parecem óbvios os motivos pelos quais qualquer um se apaixonaria por ela. Os personagens, porém, não são meramente planos e representações totais dessas oposições. Muito pelo contrário, eles são radicalmente humanos e tão contraditórios quanto humanamente possível.

Ao fim, o que temos é um grande filme sobre o amor, sobre a união desse total idealista com essa total desencantada. Ambos creem avidamente nas regras que criaram para si mesmos sobre relacionamentos, mas a única pessoa que tem uma postura madura sobre relações é a garota Rachel -Chloe Moretz-, que funciona como uma espécie de grilo falante de Tom e volta e meia aparece pra trazê-lo de volta ao planeta Terra, seja puxando-o do céu, seja resgatando-o do inferno. Ela sabe que não existem regras para esse tipo de coisa, e, se regras há, elas são para serem quebradas. Como serão, por sinal.

É um filme encantador, daqueles que ficam com a gente, e se no mínimo duas ou três cenas não tocarem fundo no seu peito é porque você nunca passou as delícias e as agruras de um relacionamento.

NÃO MATARÁS

Novembro 10, 2009

O polonês Krzysztof Kieslowski adquiriu fama mundial com “A dupla vida de Veronique” e sua fabulosa “Trilogia das cores”, tornando-se, também, um dos maiores esteriótipos do chamado cinema de arte -mas não seria todo cinema arte, ainda que ruim?-, devido a suas temáticas áridas, fotografias não convencionais, diálogos sugestivos e nome pra lá de complicado. A verdade é que, afora o injusto esteriótipo, Kieslowski é um mestre, e já o era antes das citadas obras primas. Ainda sob o governo comunista, o diretor fez uma série de filmes para a televisão baseada no Decálogo, e alguns deles chegaram, inclusive, à tela grande. “Não matarás” é um desses. E é, também, uma verdadeira aula de cinema.

A história é pra lá de simples. Um jovem mata brutalmente um taxista e é defendido por um advogado recém-formado e idealista, que não consegue impedir que o acusado seja condenado à morte -o jovem é enforcado, e tudo isso em apenas 80 minutos. Simples, simplíssimo, mas é sob essa argumento magro que Kieslowski faz uma obra cinematográfica total, seja no plano estético, seja no plano temático, seja no plano ético.

A cena inicial mostra crianças enforcando um gato, dando início a um dia trágico. A tensão já está posta. Daí em diante, a câmera acompanha os três envolvidos alternadamente - o jovem que perambula com suas intenções violentas, o taxista meio canastrão e o então jovem bacharel. O que move os encontros dessas pessoas é o acaso. O diretor consegue escapar das esteritipizações, pois, se aos poucos vai afundando o jovem assassino em uma crescente sombra negra -uma grande ideia estética-, não mostra a futura vítima com aquela aparência favorável capaz de conquistar a simpatia do público, a fim de horrorizá-lo com o assassinato. O taxista é meio sórdido, e o crime é brutal de tal forma que não precisamos da identificação fácil com a vítima para ficarmos horrorizados. A coincidência aparece outra vez, dessa vez selando o destino do jovem assassino, que é preso. Dessa forma, encerra-se uma espécie de primeiro ato não delimitado.

O, digamos, segundo ato -na verdade uma espécie de intermezzo, de tão rápido- é o julgamento do assassino. Não há longas cenas de tribunal, nem discursos emocionados. Há apenas a sentença de morte. Segue-se o que poderíamos chamar de terceiro ato, no qual o advogado, que sabemos ser contra a pena de morte, sente-se culpado pela pena aplicada ao seu cliente. Vai, então, conversar com ele, em busca de alguma espécie de absolvição, de alívio ao seu remorso. Esse seria o momento ideal para colocar na boca do assassino alguma espécie de justificativa para o crime, mas a justificativa não vem. Ao invés disso, o jovem conta a história de sua irmã, que morreu jovem, e de como ele sente falta dela. O assassino não está justificado, mas está humanizado.

Passa-se, então, ao ato final -o enforcamento. Vemos a montagem da forca, o caminhar do assassino até o seu destino final, e o enforcamento. Kieslowski, assim, completa sua mensagem, pois consegue mostrar que até o mais sórdido dos homens tem seu lado humano, humanidade essa que é, por sua vez, esmagada sob as engrenagens impessoais do Estado, ainda mais um Estado autoritário, como era o Polônia em 1988. Se não há justificativa para o assassinato praticado pelo indivíduo, tambem não há justificativa para o assassinato praticado pelo Estado.

Sim, o filme é sufocante, duro e faz pensar. É, também, um triunfo por sua estética e por sua mensagem. Os esteriótipos, infelizmente, tendem a afastar as pessoas de obras como essa. Uma pena, pois são obras como essa que ainda fazem o cinema valer a pena em tempos tão medíocres como o nosso.

p.s: Uma última coisa: o link acima não é um trailer, mas sim o filmes completo, ainda que porcamente filmado de uma TV. Na verdade, não encontrei o trailer e optei por essa porqueira, mas qualquer boa locadora tem o filme. Se for boa mesmo, tem até a caixa do ”Decálogo”!

UM HOMEM FELIZ

Outubro 28, 2009

“Um homem feliz”. Em fracês, o título seria “O bom humor de Pierre”. Pierre é o senhor francês grisalho aí no primeiro plano do cartaz, e o filme começa com ele dando uma aula de física quântica nem uma universidade de Paris, dizendo que todos somos uma coisa só porque compostos de micropartículas. A aula acaba e ele recebe um telefonema dizendo que sua tia morreu. Ela morava no Canadá há décadas, e deixou para ele uma pousada de herança. Ele logo se lembra de uma cena de infância, no Canadá, junto com sua tia, e logo fala em como seria bom retomar uma vida de aventuras. Pronto: já pensei que tinha acertado no filme e que veria uma espécie de “Up” de carne e osso. Ledo engano. O filme de Robert Mènard é uma bela porcaria.

Pierre tem uma filha, Catherine. Jornalista turrona, não quer se mudar para o Canadá, asm é logo convencida pelo pai, que conta que, além do hotel, a tia deixou uma quantia formidável em dinheiro, mas, para ter direito à herança, teriam que ficar no local por um ano e um dia. E lá vão eles para o Canadá, instalarem-se em uma cidade de 400 habitantes, que é dirigida a mão de ferro por um prefeito. O tal prefeito demonstra interesse na pousada, mas Pierre nem pensa em vendê-la. Daí em diante, o filme todo é focado nas artimanhas do prefeito para tentar fazer Pierre e Catherine a abandonarem o lugar. O filme descamba para a comédia, e uma daquelas bem ruins e sem graça.

Há uma certa motivação xenofóbica do prefeito, que abomina gente de fora na sua cidadezinha, e um ou outro comentário sobre patrimonialismo -ah, esse problema tão nosso-, pois o homem distribui cargos públicos e manipula a administração para prejudicar os recém-chegados franceses.

Talvez a grande história do filme seja a forma históica e otimista com a qual Pierre leva a vida, não se deixando afetar pelas manobras do prefeito, enquanto Catherine vai ficando cada vez mais raivosa com a situação, até atingir a letargia. Bom, seria um bom caminho, mas que só é pincelado aqui e ali.

O flme não entrega nem a questão da busca de uma infância perdida, nem a comédia em que se afunda, e nem o aprofundamento do otimismo de Pierre. Ou seja, o flime consegue falar sobre muitas coisas, mas não falar sobre nada. É uma obra -obra?- que chega a dar vergonha.

Vai mal a minha mostra esse ano…

MOSTRA DE CINEMA DE SÃO PAULO

Outubro 27, 2009

Começou mais uma Mostra de Cinema de São Paulo. A maratona é longa, as opções são muitas, e eu já tenho pelo menos duas reclamações: antes os preços eram especiais e baratos e, salvo engano, não cobravam taxa pra comprar pela net. Como a única opção para quem não quer se arriscar a dar com a cara nas portas de um cinema lotado é comprar pela net, acho que a cobrança de taxa é uma forma de “elitizar” a Mostra, possibilitando que só aqueles dispostos a perder tempo e dinheiro na net ou gastar dinheiro em credenciais possam assistir aos filmes de maneira mais sistemática.

Reclamações à parte, na Mostra eu prefiro fugir dos chamados medalhões, aqueles filmes que todo mundo quer ver. Afinal, pra que disputar espaço em sala de cinema pra ver o novo Almodovar se o filme dele estréia logo no circuito. Nos próximos dias, tentarei assistir a coisas muito variadas, e vou colocando aqui na medida do possível. Esse período é, na minha opinião, perfeito para arriscar ou investir em coisas menos chamativas. Na segunda-feira, eu assumi um risco e fiz um investimento no escuro. Vamos a eles:

-DANIEL & ANA, DE MICHEL FRANCO

Na página da Mostra, é possível ler pequenos resumos sobre os filmes e uma biografia resumida dos diretores, inclusive citando participações em festivais. Quando eu li que esse filme havia sido selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, resolvi assumir o risco.

Daniel e Ana são irmãos. Ele está na escola e é um adolescente sociável e que começa a descobrir a vida sexual; ela é uma universitária às voltas com os preparativos de seu casamento. O início do filme é apenas uma passagem sobre o dia-a-dia confortável desses irmãos criados no seio de uma família de posses. Um dia, eles são sequestrados e obrigados a fazer sexo um com o outro, enquanto são filmados no ato. Sórdido, bem sórdido. E uma premissa muito interessante para se construir algo em cima. O diretor parece querer levantar o filme em cima de um tripé, mas, uma a uma, as bases de sustentação mostram-se frágeis.

Sexo entre irmãos é um grande tabu, mas parece que parte da força do ato viria do fato de eles serem muito amigos, quase cúmplices, antes desse ato. O filme realmente faz uma espécie de escursão pelo convívio dos irmãos, mas não consegue a profundidade necessária ao desenvolvimento posterior da história. Parece que houve uma pressa do diretor em chegar logo ao momento divisor de águas, e, então, essa base de sustentação fica frouxa e soam forçadas as referências posteriores sobre a tal cumplicidade entre irmãos.

Depois do fato trágico, o filme consegue segurar bem mostrando como cada um lida com o ocorrido, ainda mais porque eles decidem guardar doloroso segredo sobre isso. Inicialmente, ele sai para a rua, enquanto ela se tranca em casa e cancela o casamento. Depois, ela vai retomando pouco a pouco o comando de sua vida com a ajuda de terapia, enquanto ele vai se afundando mais e mais no silêncio e no isolamento, até que explode em fúria, e lá se vai mais uma das bases do filme, entregue a certa facilidade de resolução e fabricação de conflitos.

Por fim -e é no fim, mesmo-, ficamos sabendo, pelas letrinhas finais, que o filme seria baseado em fatos reais, e segue um texto falando sobre sequestros e pornografia violenta, um assunto forte, claro, mas que não era de forma alguma o tema principal desse filme. Não sabemos o porquê de os obrigarem a tal ato. É tudo misteriosos. Um dos sequestradores diz saber quem eles são -ou seja, não é um ataque ao acaso-, e chega a haver uma insinuação dos motivos do ato. Mas parte da força do filme vem justamente de não sabermos de fato a justificativa. É como em “Cachè”, de Michael haneke, no qual as fitas são só um pretexto, um ponto de partida. No entanto, parece que prevaleceu a velha ânsia de dizer que a obra é real como uma forma de buscar o choque final. Pena -só conseguiu retirar o pouco de força que restava ao filme.

A VIDA PRIVADA DE PIPA LEE, DE REBECCA MILLER

Esse não foi um chute no escuro. Rebecca Miller é uma diretora com certa fama, que fez, entre outros, “A balada de Jack e Rose”. Aqui, ela trás a história de Pipa Lee -a excelente Robin Wright Penn-, que se muda com seu octagenário marido para um bairro de idosos. Ele é dono de uma grande casa editorial, mas, depois de três infartos, decide aposentar-se. Ela vai junto, derramando-se de cuidados com ele.

O filme começa com um discurso no qual um escritor diz que Pipa Lee é um mistério. Ela decide rebater essa faceta misteriosa, e, assim, começa a contar toda a sua vida, desde o nascimento -quando era muito peluda- até o presente, em constantes flashbacks engenhosamente montados e com pitadas de humor negro.

Em inglês, o filme se chama “The private lives of Pipa Lee”. O plural de “vidas” é fundamental, pois vemos que Pipa é, na verdade, uma mulher multi-facetada, e que seu passado em nada condiz com seu presente tão cheio de austeridade e resignação.

Deve-se destacar o elenco que trás nomes do peso como Alan Arkin, Juliette Moore, Monica Belucci -inpagável, por sinal- e Maria Bello -que dá um show como a mãe viciada de Pipa e até Winona Ryder, renascida das cinzas. O ponto baixo fica -oh, que surpresa!- por conta de Keanu Reaves e sua variação expressiva digna de um cigano Igor.

Ao fim, temos um belo filme que vale o ingresso e que consegue mostrar com delicadeza e engenhosidade o caminho que Pipa Lee percorre durante toda sua vida até se encontrar novamente consigo mesma. Arrisque-se.

O DESINFORMANTE

Outubro 19, 2009

Steven Soderbergh tem filmado como se não houvesse amanhã. Só em 2009, estreiou 4 filmes -as duas partes de “Che”, “Diário de uma garota de programa” e “O desinformante”- de temas completamente díspares. Se, com a abundância, o cinema do diretor ganha em variedade, parece perder em qualidade.

Em um primeiro momento, “O desinformante” parece que vai se encaixar em uma vertente relativamente nova do cinema norte-americano, aquele que aborda as grandes corporações e suas gambiarras. São obras como “O informante”, de Michael Mann, “Obrigado por fumar”, de Jason Reitman, e “Conduta de risco”, de Tony Gilroy, por sinal, produzido por Soderbergh. Vemos Mark Whitacre -em uma interpretação longe dos galãs habituais de Matt Damon-, um químico, às voltas com um problema relacionado com a produção de um derivado de milho. Como narra Whitacre na cena inicial, o milho está em quase tudo que é consumido na vida moderna, dos cereais às embalagens biodegradáveis. Ele introduz, assim, o impacto do milho para os consumidores. Após um telefonema do Japão, o químico apresenta o motivo e a solução dos problemas -a empresa estaria sendo sabotada por uma companhia japonesa, que pede dinheiro em troca da solução. Seus superiores optam por introduzir o FBI na investigação de sabotagem internacional, e logo Whitacre toma a estranha decisão de agir contra sua empresa, revelando um esquema de fixação internacional dos preços de derivados de milho.

Essa rápida sinopse poderia levar a crer que o filme é igual a “O informante”, de Mann, no qual um funcionário resolve entregar as tramoias da indústria do tabaco, mas, se no filme de Mann o que move o dedo-duro é certo sentimento de justiça e remorso, aqui, em “O desinformante”, temos uma motivação bem mais complicada. Whitacre não quer derrubar a empresa. Ao contrário, sonha em limpá-la e assumir o lugar de seus corruptos superiores. O faz enquanto reclama que é apenas um químico levado a tomar posições enquanto chefe de setor. Mente desesperadamente para todos: seus chefes, os agentes, a esposa. Tenta criar algum tipo de relação amistosa com o agente do FBI interpretado por Scott Bakula. Nisso, ele vai se enredando cada vez mais nas suas inverossimilhanças. Nesse ponto, o filme começa a se parecer mais com “O adversário”, de Jean-Marc Faurre, que também narra um homem que se afunda em mentira até a tragédia.

O que falha no filme de Soderbergh é que ele aparentemente faz uma obra sobre tramoias corporativas -e aqui elas existem-, mas que se mostra algo além disso. Por outro lado, não consegue desenvolver plenamente a faceta mitômana de Whitacre. Assim, o filme fica um tanto quanto preso na indecisão entre explorar vivamente o fato de os chefões corporativos estarem fazendo seus acertos, e a exploração da personalidade ambígua do personagem princiapl. Mais ainda, Soderbergh falha em acertar o tom de sua narrativa, que fica indecisa entre ser séria e explorar o desespero de um homem cada vez mais afundado em mentiras -o que o citado Faurre faz com maestria-, ou usar a chave cômica, talvez o humor ácido presente, por exemplo, em “Obrigado por fumar”.

Soderbergh acerta, no entanto, em dois pontos. O diretor já retratou uma América profunda e desglamurizada em Bubble. Agora, ao abordar a América que ganha dinheiro e que anda de Posche e Ferrari, o olhar incisivo do diretor não deixa de notar o que há de brega nessas pessoas ricas, mas desaculturadas. Isso se reflete tanto na figura de Whitacre quanto na sua breguíssima mulher, esparramando-se por todos os ambientes internos do filme, ricamente decorados com o que de pior há. Soderbergh faz, assim, um comentário muito lateral e sutil sobre como pensa parte da elite norte-americana. Por outro lado, o filme é pontuado por falas em “off” de Whitacre, mas elas não são narrativas. Longe disso, tais falas são comentários errantes do personagem sobre os mais variados assuntos, que servem para mostrar o estado de confusão mental dele.

Soderbergh é o pai do chamado cinema independente, com seu “sexo, metiras e videotape”, mas anda meio longe do brilhantismo inicial de sua carreira. Talvez devesse tirar um pouco mais de tempo e fazer menos filmes, mas recheá-los com a ambição que já teve em outros tempos.

BASTARDOS INGLÓRIOS

Outubro 13, 2009

Quentin Tarantino não apenas trabalhou em uma locadora antes de se aventurar na direção; ele também devorou -e devora- toneladas de filmes. Isso fica muito claro em toda sua obra, cheia de referências a outras películas, mas sem que isso seja um mero empilhamento de influências ou homenagens. Tarantino efetivamente constrói algo novo com seu conhecimento de cinéfilo, mesclando a isso sua incrível capacidade de criar referências pop sem que essas fiquem deslocadas ou excessivas. Por isso, “Bastardos Inglórios” é um filme de guerra, no melhor estilo das aventuras dos anos 1960/70, mas é um western, daqueles que só Sergio Leone sabia fazer, e é também uma -mais uma- história de vingança.

O filme é dividido em capítulos. O primeiro introduz o western. Como em uma daquelas cenas típicas do gênero, vemos uma casa perdida no meio do nada, na qual chega o bando de malfeitores. No caso, os nazistas, comandandos por Hans Landa, conhecido como o Caçador de Judeus. Segue-se um massacre e uma fuga -Tarantino já prepara a vingança. O segundo capítulo introduz os filmes de guerra e apresenta Brad Pitt interpretando Aldo “Apache” Raine e recrutando um grupo de judeus para caçar nazistas na Europa ocupada. Seguem-se então as histórias paralelas dos Bastardos caçando e atemorizando nazistas, enquanto Shosanna, a jovem sobrevivente do massacre, planeja sua vingança.

Poderia ser apenas um filme de aventura, mas Tarantino pega esse material básico e o recheia de referências e detalhes que enriquecem a obra. Aldo é apelidado de “Apache” e exige de seus comandados o escalpo dos nazistas mortos -é o western com força e violência total. Por outro lado, a primeira vez em que vemos os Bastardos em ação, eles estão com um grupo de nazistas nas Fossas Ardeatinas. O fascismo italiano não era profundamente antisemita, mas um dos grandes massacres de judeus foi executado nesse local por um grupo nazista. A referência vingativa ganha ainda mais força quando, no final, alguns dos Bastardos se disfarçam de italianos.

Apesar de fazer piada dos nazistas, Tarantino consegue fugir das facilidades de determinados filmes sobre o período, segundo os quais alemão bom é alemão morto. O bando dos Bastardos tem um alemão que se revolta contra o nazismo e vira um exterminador de nazistas. O filme também faz um comentário interessante sobre a tolerância, pois a judia Shosanna, quando em Paris, relaciona-se com um negro. Por fim, o ponto mais polêmico para mim é a questão de como muitos crimes de guerra foram esquecidos após o fim do conflito, e muitos nazistas puderam viver em relativa paz em países como a Argentina e, até mesmo os Estados Unidos -os Bastardos não fazem prisioneiros, mas aqueles que o grupo não mata, o grupo marca.

O cinema é a grande força impulsionadora de “Bastardos Inglórios”. Shosana, a sobrevivente do massacre inicial, acaba indo dirigir um cinema na Paris ocupada. Por uma dessas coisas do destino, seu cinema acaba sendo escolhido para acolher a estréia de um filme da propaganda nazista, interpretado por um soldado que por ela cai de amores. Shosana, assim, bola um plano que pode exterminar todo o alto comando nazista. Ela apenas não sabe que os Bastardos também tem um plano para a tal noite de estréia, plano esse que depende igualmente da questão cinematográfica.

Tarantino introduz mais uma galeria de personagens inesquecíveis e muito bem interpretados. O tenente Aldo, de Pitt, é a imagem do mais puro bronco norte-americano que crê estar em uma missão que por tudo deve ser executada. Shosanna é interpretada pela belíssima atriz novata Mèlanie Laurent, que consegue a medida exata entre a cegueira da vingança e o pavor da morte -tem uma cena extraordinária ao se reencontrar com o algoz de sua família. Temos até mesmo um Hitler e um Goebbels hilários em suas encarnações meio abobalhadas. Mas o grande personagem é sem dúvida Hans Landa, um sujeito cheio de trejeitos e afetações, terrivelmente dócil e incrivelmente violento, enfim, um dos grandes vilões cinematográficos dessa década, talvez da história do cinema. Não à toa, Cristopher Waltz ganhou a Palma de melhor ator em Cannes por sua brilhante interpretação.

“Bastardos Inglórios” é um filme tipicamente tarantiniano. Estão lá os já citados grandes personagens; os diálogos longos -mas não chatos-, inteligentes e cheios de tensão; as referências pop na música e em certos recursos cinematográficos. Mas parece que Tarantino dá um passo adiante, pois consegue rechear o subtexto de sua obra com pequenas e importantes observações. As cenas finais são talvez o melhor comentário já feito sobre o poder que a sala escura tem de servir de válvula de escape para as frustrações, os desejos ocultos e os prazeres indizíveis da platéia. Se Hitler se esbalda com o filme sobre o herói nazista que matou sozinho 3oo inimigos, o público se esbaldará com algumas das passagens mais violentas dos últimos anos, e isso diz muito não só sobre nós, mas sobre o cinema em si. Assista e esbalde-se você também.

DOIS IRMÃOS

Outubro 6, 2009

A história do antagonismo entre irmãos é antiquíssima. A Bíblia já trazia Caim e Abel. Os gêmeos Esaú e Jacó também tiveram sua história contada nesse livro sagrado. Machado de Assis usou a parábola bíblica e escreveu o seu “Esau e Jacó”. Pode-se dizer, portanto, que Milton Hatoum se insere nessa espécie de tradição ocidental da narrativa de irmãos, ainda mais de irmãos gêmeos, com o seu magnífico “Dois irmãos”.

O livro conta a vida dos irmão gêmeos Omar e Yaqub, nascidos no seio de uma família libanesa que habita Manaus. A obra é narrada pelo filho de Domingas, a empregada da família, que busca descobrir partes fundamentais de sua história através de fragmentos dessa família, composta ainda por Halim, o pai; Zana, a mãe; e Rânia, a irmã.

Da mesma forma que em outras obras de Hatoum, como “Cinzas do Norte” e “Retrato de um certo oriente”, a busca por respostas é o pretesto para nos apresentar o âmago de uma estrutura familiar cheia de contradições, conflitos e sentimentos não revelados. Yaqub é o filho que se sente preterido por ter sido enviado pelo pai para o distante Líbano, enquanto seu irmão Omar leva uma vida errante sob o olhar complacente e conivente da mãe. Halim, por sua vez, parece permanecer alheio aos conflitos fraternos, enquanto a bela Rânia assume aos poucos os negócios da família, sacrificando sua vida sentimental. Domingas, a mãe do narrador, é a velha figura do agregado, tão cara aos brasileiros, e que nunca chega efetivamente a ser família. Isso se torna importante na medida em que o narrador desconfia que entre os homens da casa está o seu desconhecido pai.

A opção por um narrador em primeira pessoa também coloca em foco o quanto ele é confiável, pois ele mesmo é parte da história. Será que Omar é mesmo um espécie de diabo encarnado, ou ele só aparece assim por que nunca gostou do narrador? Devemos ler o livro tendo isso em mente e, mais ainda, lembrando sempre que esse narrador tem o objetivo de saber quem é seu pai.

Hatoum não é dado a malabarismos estéticos -ainda que tenha flertado com certo experimentalismo narrativo em “Retrato de um certo oriente”-, mas escreve magnificamente bem. O autor consegue nos enredar aos poucos nos mistérios dessa família, ao mesmo tempo em que traça um peculiar retrato da imigração árabe no norte do país, até então muito menos conhecida do que suas vertentes paulista ou carioca. Hatoum é ele mesmo fruto de uma família de imigrantes, e seus livros são cheios de pequenos toques autobiográficos, fazendo da realidade matéria prima da ficção.

Com essa obra, o escritor conseguiu algo raro na literatura nacional: sucesso de crítica e sucesso de público. Da mesma forma em que amealhou uma penca de prêmios, “Dois irmãos” já vendeu mais de 100 mil cópias.

Tanto sucesso pode ser creditado ao fato de Hatoum conseguir contar muito bem uma história. Talvez herança de suas origens árabes, povo tradicionalmente ligado às narrativas. E, mais do que isso, Hatoum escapa dos experimentalismo linguísticos fracassados tão amplamente utilizados por parcela de nossos escritores contemporâneos, que parecem se esquecer de que a linguagem é um instrumento para contar algo, mas que, ao invés disso, fazem desse experimentalismo o objetivo final de suas obras.

Usando uma escrita clara, mas nem por isso menos misteriosa e intensa, Milton Hatoum vai conseguindo seu lugar na literatura brasileira com obras cada vez melhores, consagrando-se como um grande contador de histórias.

UP

Setembro 29, 2009

“Up” é um grande filme da Pixar. Mais um, por sinal, porque nos últimos dez anos, desde que o estúdio começou sua produção de um longa anualmente, “muito bom” talvez seja o que de pior se pode falar sobre suas obras. Agora, sob a direção de Pete Docter, temos o belo encontro do velhinho ranzinza Carl Fredericksen e do encantador garoto Russel. E mais uma vez, a Pixar coloca toda a sua excelência técnica -o filme foi feito em deslumbrante 3-D- em prol de um único objetivo, que é contar a história da melhor forma possível.

O filme começa com um mocinho Carl, um menino sonhador que admira o aventureiro Charles Muntz. Um dia, ele encontra a falastrona garotinha Ellie, que também adora Muntz, e eles se tornam bons amigos. Depois, viram grandes amigos, namoram, casam, descobrem que não podem ter filhos, envelhecem, vivem uma vida alegre juntos -até a morte de Ellie. Todas essas décadas de história são contadas na primeira grande cena do filme, que resume a vida do casal em apenas alguns minutos. É absolutamente brilhante. Mas, depois, encontramos um Carl viúvo, ranzinza, habitando sua velha casa cercada por prédios altíssimos. Ele não teve a vida de aventuras que um dia desejou.

Russel, por sua vez, é um jovem escoteiro que um dia bate na porta de Carl. Ele tem que ajudar um senhor para ganhar mais uma insígnia, e vai atormentar Carl até que esse lhe dê uma tarefa. Mas o velho, cansado daquela vida, tem uma última carta na manga -infla milhares de balões que, amarrados à casa, fazem com que essa saia flutuando, colorindo a cidade -mais uma cena de dar lágrimas nos olhos-, indo rumo às cachoeiras que um dia ele sonhou visitar com Ellie. O que ele não esperava era que Russel viesse sem querer nessa estranha missão de auto-conhecimento, uma espécie de último ato de uma vida que se tornou amarga, a chance final de cumprir uma promessa para sua mulher.

Como dito acima, toda a excelência da Pixar é colocada a serviço da história. E essa, como ususalmente nas obras do estúdio, toca em vários temas, como a amizade, a eterna segunda chance, a inocência, e muitos outros, mas sem o resultado geralmente vago de quando se tenta abordar tantas coisas. Aqui, tudo é feito com muito esmero, os sentimentos são todos bem regulados, bem pensados, diálogos e personagens bem escritos. Mais uma vez, o estúdio consegue encantar tanto a garotada quanto os mais velhos. Pode-se dizer que é uma benção levar a criançada para ver algo tão interessante e belo. E, se você não tem filhos, sobrinhos, primos, não se preocupe -a marmanjada também pode se deliciar com o filme sem precisar de desculpas.

Confesso, porém, que fiquei com um pé atrás ao ter a triste surpresa de que em São Paulo só havia versões dubladas. Descobri, depois, que ainda não há tecnologia para colocar legendas em filmes 3-D. Mas não deixe que isso seja um empecilho -essa não é mais uma obra dublada por “atores” da “Malhação” ou baboseiras desse tipo. A dublagem é de gente profissional, e passa-se muito bem com o som em português.

Para os que se maravilham com esse resultado -bom, com os resultados da Pixar, na verdade-, devem saber que cada obra do estúdio é fruto de no mínimo 3 anos de muito planejamento. Ainda que feitos no computados, os desenhos são trabalhos de artesãos. Não surpreende, portanto, que a Pixar tenha sido comprada pela Disney, cujo império construiu-se sobre algumas obras de arte desenhadas de maneira artesanal, filmes inesquecíveis como “Fantasia”, “Bambi”, “A bela e a fera” e por aí vai. Não é pouco dizer que “Up” faz jus a pertencer a uma linhagem tão nobre da arte de desenhar, da arte de sonhar.

A grande sacada da Disney foi ter preservado John Lasseter no comando do estúdio. Esse homem que usa camisetas floridas e cabelos grisalhos desgrenhados é a mente inventiva por trás do sucesso da Pixar, mas, como todo gênio digno desse título, sabe que suas obras são frutos de um equipe dedicada e igualmente inventiva. O Festival de Cinema de Veneza reconhece a importância de Lasseter e da Pixar, por isso, deu a ele um prêmio especial em sua última edição. Se você duvida do merecimento dessa homenagem, veja “Up” e tente passar sem uma notinha de emoção que seja.