Posts de Novembro, 2009

O ENCONTRO

Novembro 23, 2009

A escritora irlandesa Anne Enright ganhou o prestigioso “Man Booker Prize”, de 2007, pela obra “O encontro”. Se não fosse por isso, talvez eu nunca a tivesse lido. Na verdade, o que tambem me levou a ler o livro foi a comparação que fizeram entre esse e a obra do tambem irlandês John Banville, “O mar”. O começo do texto sobre a obra de Enright é muito parecido com aquele que escrevi na análise sobre Banville. E essas não são as únicas comparações entre ambos.

“O encontro”, assim como “O mar”, trata de uma pessoa que enfrenta uma crise aguda. Veronica, uma das filhas da numerosa família Hegarty, tem que enterrar seu irmão Liam, suicida e alcoólatra, e de quem era bem próxima. Sob esse pretexto, Veronica faz uma análise impressionista sobre fatos da sua infância, ao mesmo tempo em que recria ficcionalmente a vida de sua avó e lida com o contínuo distanciamento em relação ao marido, enquanto tenta criar suas duas jovens filhas da melhor maneira possível.

Assim como em “O mar”, aqui as camadas narrativas são desdobradas, misturando-se presente, passado recente, passado distante e, até mesmo, invenção. Veronica, essa mulher em profunda crise existencial, busca se reconciliar com sua vida, purgar suas frustrações, entender sua herança -maldita?- familiar. 

Afundada no meio de 12 irmãos, nem todos ainda vivos, Veronica rememora os fatos passados. Ela é a guardiã de um segredo que julga ter condenado seu irmão suicida, tido apenas como um rebelde naquele cheio lar, talvez um herdeiro da loucura que vitima alguns membros da família. Ela vai buscar na reconstituição ficcional da vida de sua avó alguma explicação para os fatos que afetaram sua infância e juventude, principalmente no período em que com ela viveu, devido a uma inexplicada doença de sua mãe.

No passado recente, Veronica lida com sua mãe em estado de demência, ao mesmo tempo em que faz os preparativos para o enterro do irmão -o que implica, inclusive, uma surreal viagem até a Inglaterra para liberar o corpo do defunto, preso nas rédeas da burocracia-, e que culmina na sufocante passagem do funeral de Liam, com vários membros da família Hegarty reunidos, gerando um estado de iminente explosão de rancores deprimidos.

No presente, Veronica está em busca de si mesma, amarrada a um casamento falido, pelo qual desistiu de sua carreira, presa a uma rotina de dormir quando o marido trabalha e ficar acordada enquanto o marido dorme, entornando garrafas de vinho e dirigindo a esmo em busca de só deus sabe o que.

O grande achado de Anne é também a maior fraqueza do livro. Se por um lado a linguagem coloquial colabora muito para a fluidez e tinge de modernidade o livro, por vezes essa linguagem soa esquemática demais. O tom da narrativa é nitidamente realista, mas as vezes pode-se cair na armadilha de se inventar uma realidade mais real do que a realidade de fato é, e isso é um artifício que acaba gerando certo enfado em algumas passagens.

O livro demora uma pouco a engrenar, mas quando engrena, estamos definitivamente enlaçados nessa saga familiar e individual, que culmina no retorno simbólico de Veronica a si mesma naquele que é um grande último parágrafo, em um final que aponta para uma luz no fim do túnel, luz essa ausente de “O mar”. Enfim, é uma obra repleta de espinhos e que, apesar de seus altos e baixos, consegue causar grande impacto.

500 DIAS COM ELA

Novembro 12, 2009

Logo de cara, “500 dias com ela” mostra a que veio. A narração em off diz que essa é uma história de boy meets girl. No caso, Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) é o garoto que teve sua ideia sobre amor formulada por muita música melancólica inglesa e pelo entendimento errado do filme “A primeira noite de um homem”, de Mike Nichols; Summer Finn (Zooey Deschanel) é a garota marcada pelo divórcio dos pais e descrente do amor. Bom, só com o que já foi dito, muita gente poderia ficar com o pé atrás, pois esse seria somente mais um filminho romântico desses bem água com açúcar. Mas não nas mãos do diretor estreante Marc Webb.

O filme é um grande achado narrativo. Obviamente, é a história dos 500 dias de Tom com Summer, mas esses dias não são mostrados de maneira cronológica. Ao invés disso, vamos do dia primeiro ao dia 488. Ou seja, os dias se alternam sem nenhuma grande lógica, indo e vindo, e proporcionando uma verdadeira montanha russa emocional que, devo dizer, não é para corações lá muito fracos. Isso porque, se em um momento vemos cenas de muito afeto, no próximo podemos estar vendo Tom completamente enfiado na lama, ou Summer cravejada de dúvidas sobre o relacionamento. É esse efeito surpresa que faz com que fiquemos tão ligados ao filme. Webb também consegue arranjar ótimas sacadas narrativas. Uma hora, temos uma cena típica de musical, com direito a desenho animado e tudo; em outra, vemos um cenário desenhado com uma figura em primeiro plano, e o desenho vai esfumaçando. Dessa forma, o filme diz com imagens o que precisaria de muitas palavras pra dizer.

A história é, portanto, a desse casal. Tom apaixona-se de cara por Summer. Ele, na verdade, anseia por amar alguém. Ela, por outro lado, desconfia do amor. Por sinal, como desconfiava François Truffaut, que merece uma referência em mais um achado narrativo, quando a personalidade de Summer é exposta em uma espécie de filmete em preto-e-branco que remete à leveza cinematográfica do francês -e que vai ter seu contraponto em Tom imaginando sua dor em outro filmete que remete a Godard e a Bergman. Sabemos que eles ficam juntos, mas sabemos que algo, lá na frente, dá errado, e sabemos que Tom sofre e que Summer se afasta. Sabemos tudo, mas a forma como as peças são colocadas é que encata. Só para citar mais um artifício narrativo, em dado momento, Webb divide a tela em duas, colocando na esquerda o evento na expectativa de Tom, e o evento como realmente acontece. É um momento genial e virulento, mas feito com uma simplicidade tão grande que nos faz pensar em como não pensaram naquilo antes.

Webb consegue escapar assim das facilidades dos filmes de relacionamento. Escapa ainda do mero empilhamento de referências culturais, pois elas têm função clara na mensagem. Consegue, principalmente, fugir da tentação de fazer da música o grande personagem de seu filme, armadilha na qual parece ter caído Cameron Crowe em seu “Elizabethtown”, pois a música, aqui, é importante na criação da personalidade de Tom e Summer, mas não é tudo.

O filme consegue o mérito de causar empatia com seus personagens. É difícil não sentir as emoções de Tom, que leva tudo à flor da pele, assim como é difícil não se encantar com a descrente e cheia de personalidade Summer. Mérito total para os atores. Joseph Gordon-Levitt é a imagem encarnada de todo sujeito meio abobalhadamente apaixonado e visceralmente sofredor. Zooey Deschanel, por outro lado, atrai de cara com seus grandes olhos azuis e seu estilo, como eu diria, coll -argghh, não gosto dessa palavra, mas não há outra melhor-, e parecem óbvios os motivos pelos quais qualquer um se apaixonaria por ela. Os personagens, porém, não são meramente planos e representações totais dessas oposições. Muito pelo contrário, eles são radicalmente humanos e tão contraditórios quanto humanamente possível.

Ao fim, o que temos é um grande filme sobre o amor, sobre a união desse total idealista com essa total desencantada. Ambos creem avidamente nas regras que criaram para si mesmos sobre relacionamentos, mas a única pessoa que tem uma postura madura sobre relações é a garota Rachel -Chloe Moretz-, que funciona como uma espécie de grilo falante de Tom e volta e meia aparece pra trazê-lo de volta ao planeta Terra, seja puxando-o do céu, seja resgatando-o do inferno. Ela sabe que não existem regras para esse tipo de coisa, e, se regras há, elas são para serem quebradas. Como serão, por sinal.

É um filme encantador, daqueles que ficam com a gente, e se no mínimo duas ou três cenas não tocarem fundo no seu peito é porque você nunca passou as delícias e as agruras de um relacionamento.

NÃO MATARÁS

Novembro 10, 2009

O polonês Krzysztof Kieslowski adquiriu fama mundial com “A dupla vida de Veronique” e sua fabulosa “Trilogia das cores”, tornando-se, também, um dos maiores esteriótipos do chamado cinema de arte -mas não seria todo cinema arte, ainda que ruim?-, devido a suas temáticas áridas, fotografias não convencionais, diálogos sugestivos e nome pra lá de complicado. A verdade é que, afora o injusto esteriótipo, Kieslowski é um mestre, e já o era antes das citadas obras primas. Ainda sob o governo comunista, o diretor fez uma série de filmes para a televisão baseada no Decálogo, e alguns deles chegaram, inclusive, à tela grande. “Não matarás” é um desses. E é, também, uma verdadeira aula de cinema.

A história é pra lá de simples. Um jovem mata brutalmente um taxista e é defendido por um advogado recém-formado e idealista, que não consegue impedir que o acusado seja condenado à morte -o jovem é enforcado, e tudo isso em apenas 80 minutos. Simples, simplíssimo, mas é sob essa argumento magro que Kieslowski faz uma obra cinematográfica total, seja no plano estético, seja no plano temático, seja no plano ético.

A cena inicial mostra crianças enforcando um gato, dando início a um dia trágico. A tensão já está posta. Daí em diante, a câmera acompanha os três envolvidos alternadamente - o jovem que perambula com suas intenções violentas, o taxista meio canastrão e o então jovem bacharel. O que move os encontros dessas pessoas é o acaso. O diretor consegue escapar das esteritipizações, pois, se aos poucos vai afundando o jovem assassino em uma crescente sombra negra -uma grande ideia estética-, não mostra a futura vítima com aquela aparência favorável capaz de conquistar a simpatia do público, a fim de horrorizá-lo com o assassinato. O taxista é meio sórdido, e o crime é brutal de tal forma que não precisamos da identificação fácil com a vítima para ficarmos horrorizados. A coincidência aparece outra vez, dessa vez selando o destino do jovem assassino, que é preso. Dessa forma, encerra-se uma espécie de primeiro ato não delimitado.

O, digamos, segundo ato -na verdade uma espécie de intermezzo, de tão rápido- é o julgamento do assassino. Não há longas cenas de tribunal, nem discursos emocionados. Há apenas a sentença de morte. Segue-se o que poderíamos chamar de terceiro ato, no qual o advogado, que sabemos ser contra a pena de morte, sente-se culpado pela pena aplicada ao seu cliente. Vai, então, conversar com ele, em busca de alguma espécie de absolvição, de alívio ao seu remorso. Esse seria o momento ideal para colocar na boca do assassino alguma espécie de justificativa para o crime, mas a justificativa não vem. Ao invés disso, o jovem conta a história de sua irmã, que morreu jovem, e de como ele sente falta dela. O assassino não está justificado, mas está humanizado.

Passa-se, então, ao ato final -o enforcamento. Vemos a montagem da forca, o caminhar do assassino até o seu destino final, e o enforcamento. Kieslowski, assim, completa sua mensagem, pois consegue mostrar que até o mais sórdido dos homens tem seu lado humano, humanidade essa que é, por sua vez, esmagada sob as engrenagens impessoais do Estado, ainda mais um Estado autoritário, como era o Polônia em 1988. Se não há justificativa para o assassinato praticado pelo indivíduo, tambem não há justificativa para o assassinato praticado pelo Estado.

Sim, o filme é sufocante, duro e faz pensar. É, também, um triunfo por sua estética e por sua mensagem. Os esteriótipos, infelizmente, tendem a afastar as pessoas de obras como essa. Uma pena, pois são obras como essa que ainda fazem o cinema valer a pena em tempos tão medíocres como o nosso.

p.s: Uma última coisa: o link acima não é um trailer, mas sim o filmes completo, ainda que porcamente filmado de uma TV. Na verdade, não encontrei o trailer e optei por essa porqueira, mas qualquer boa locadora tem o filme. Se for boa mesmo, tem até a caixa do ”Decálogo”!